quarta-feira, 24 de março de 2021

Agente Duplo

Abandono e Solidão

Agente Duplo é o digno representante do Chile no Oscar deste ano e, pela primeira vez, disputa a categoria de documentário, sendo aclamado pelo público e pela crítica com mais de 90% de aprovação no site Rotten Tomatoes, podendo ser visto na Globoplay. Escrito e dirigido pela documentarista Maite Alberdi, conhecida até agora em seu país por temas de pouca relevância, sem atrair significativamente as atenções dos cinéfilos. Entre suas realizações estão Hora do Chá (2014), Los Niños (2016) e Rito de Passagem (2016). Finalmente alcança o reconhecimento mundial com esta fascinante obra de exercício metalinguístico em seu formato, que transita do documentário, ideia inicial embrionária da produção e da direção, para tornar-se na realidade uma comédia dramática com pitadas de espionagem e filme-denúncia. Ganhou o prêmio do Público no Festival de Cinema de San Sebastián e foi finalista no Prêmio Goya. A cineasta, premonitoriamente, em entrevista ao jornal El País, antes de ser indicada como finalista pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, profetizou: “Este é um marco para um documentário chileno”. A mais recente produção premiada dos chilenos foi com o drama Uma Mulher Fantástica (2017), de Sebastian Lelio, na categoria de melhor filme em língua estrangeira, sobre a violência contra uma mulher transgênero. Em 2013, No, de Pablo Larraín, concorreu, mas não obteve premiação.

No prólogo da realização, a diretora coloca Rômulo Aitken, proprietário de uma empresa de detetives, fazendo uma minuciosa seleção para encontrar o perfil mais adequado para o idoso que fará o papel de um agente espião, que será infiltrado sob a farsa de uma internação comum no Asilo São Francisco. O objeto da investigação é a desconfiança de maus-tratos e negligência dos funcionários no interior da casa de repouso, diante de uma suspeita da filha de uma senhora, suposta vítima. Sergio Chamy, um viúvo de 83 anos, foi o vencedor da inverossímil tarefa de um emprego temporário por três meses, porém lhe soa como uma libertação dos filhos e netos neste período, além de esquecer o luto e as lembranças da esposa falecida recentemente. O contratado deverá executar as atividades de um detetive particular para espionar, devendo fazer relatórios diários, adaptar-se ao vídeo do Facebook e manusear uma caneta com câmera digital num óculos. Tecnologias estas que são distantes de seu real mundo da presença física, mas indispensáveis para obter dados e informações sigilosas com o auxílio da internet.

O protagonista se torna venerado dentro do lar, logo conquista o posto de “Rei do Baile” durante uma festa de aniversário, sendo cercado por grande parte das mulheres, que são maioria no recinto. O espião narra em seu relatório com dor e melancolia o cotidiano de várias internadas que perderam o sentido da vida. Lá, encontra uma senhora que faz pequenos furtos; outra, que se apaixona e quer casar para refazer a vida com ele; tem a que recita poemas; a idosa que está perdendo a memória por uma doença degenerativa, que sentia a falta de visitas dos familiares e necessita de fotografias dos parentes próximos; também a que fala com a mãe imaginária por telefone; outras ficam no portão externo à espera de visitas que nunca acontecem. Finalmente conclui sua exposição reveladora dizendo que a suposta vítima de maus-tratos nunca recebeu a visita da filha contratante das investigações, ou seja, está esquecida literalmente, carente e solitária. Uma autêntica denúncia de abandono que se materializa com contundência advinda da triste frieza familiar e o egoísmo latente que salta aos olhos do agente que fez pequenas amizades naquele ambiente de tédio retumbante num cotidiano de ausência de afeto de filhos e netos.

A gaúcha Ana Luiza Azevedo, no drama Aos Olhos de Ernesto (2019), colocou magnificamente os traumas das perdas e dissabores do envelhecimento com muita sutileza e sensibilidade para uma profunda reflexão. Fez um mergulho nos confrontos e adversidades da irônica "melhor idade" e o espectro da solidão melancólica. Com dignidade e algum otimismo também se debruçou sobre a temática o diretor argentino Daniel Burman em Dois Irmãos (2009), enfatizando o afago final das águas do rio que serviam de cenário para o domicílio daquelas idosas criaturas inertes, distantes e sobreviventes do universo familiar. Através da beleza estética de Laís Bodanzky, realizou o estupendo drama Chega de Saudade (2008), tendo como cenário um clube de São Paulo com suas diversas histórias numa noite de baile, aflorando as ilusões e desilusões, perdas e ganhos, amor e traição, para sintetizar tudo num imenso isolamento social. Pelo olhar de Marcos Bernstein, vimos o ótimo O Outro Lado da Rua (2004), refletindo a dor da solidão da idade, reavaliando suas vidas e descobrindo novos rumos. Em GranTorino (2008), de Clint Eastwood, foi abordada as perdas hereditárias e os valores dos descendentes colocados em xeque de forma satisfatória pelo decadente herói de guerra. Já Alberdi faz um painel com nuances importantes dos idosos solitários desprezados nos asilos transformados em depósitos, como fio condutor para o desfecho do processo das emoções e a vazão para uma grande sombria existência humana alicerçada sobre o angustiante tema universal da terceira idade dos esquecidos pelos familiares.

A dosagem de humor está no ponto certo e torna adequada esta obra minimalista para retratar com equilíbrio o drama existencial daquelas pessoas mergulhadas em uma solidão devastadora pelo abandono nas clínicas geriátricas. “Meu filme de detetives é na verdade uma desculpa para ver um assunto que, sem essa desculpa, talvez ninguém visse”, afirma a diretora na mesma entrevista, que depois arremata: "Antigamente, não era comum ter parentes nesses locais. Os avós moravam com os filhos e netos. Mas hoje moramos em casas menores, onde não há espaço para eles muitas vezes". Informa a documentarista que embora se sentisse culpada por ter enganado a direção do asilo ao dizer que seu filme era uma ficção sobre a velhice, não houve maiores problemas posteriores na montagem, tendo em vista que o objetivo era retratar a importância desses asilos no cotidiano das famílias. O documentário que deveria ser sobre as más condições da casa de repouso, acaba por se transformar em uma eloquente denúncia de abandonados na velhice pelos parentes, por serem pessoas completamente descartáveis. Embora as pétalas de uma rosa caindo sobre um riacho indiquem um ar de romantismo poético com suspiro de uma minguada esperança, há o contraponto das idosas cochilando entediadas num banco ao entardecer. Agente Duplo revela admiravelmente as imagens de vidas combalidas que despertam compaixão num cenário desolador pela imensurável solidão, perda da lucidez, até o embate entre vida e morte, diante das emoções existenciais sobre o progressivo fim de seres humanos abandonados.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Aznavour por Charles

Grande Legado

A cineasta belga naturalizada francesa, Agnès Varda, deixou um legado imensurável, com realizações abrangentes e muitas reflexões com críticas pontuais à sociedade e seus preconceitos em Varda por Agnès (2019). Não foi somente um documentário autobiográfico testamentário, mas também um mosaico do passado, presente e do futuro, onde aparecem intercalados personagens sofridos por uma sociedade cruel com a humanidade. Com alguma similitude de temática de visão do mundo, o documentário Aznavour por Charles, que pode ser visto na Net/Claro Now, depois de ter estreado no cinema, acabou sendo mais uma vítima da pandemia. O próprio lendário cantor e compositor mundial celebrizado pelo público e pela crítica pelas suas canções marcantes filmou sua vida e como a desfrutou durante sua existência. Até o dia em que mostrou o material que capturou ao longo de 34 anos para o cineasta e amigo Marc di Domenico, que ficou impressionado com as imagens. Do material doado do diário cinematográfico, resultou montado 83 minutos. A câmera era o fiel guardião para os registros do artista, pois gravava tudo que via por onde andava, tais como os amigos, seus amores e suas dificuldades tediosas pertinentes.

A história dos registros começou em 1948, quando a grande amiga Edith Piaf (1915-1963), já famosa por La Vie en Rose, presenteou Charles Aznavour (1924-2018) com uma câmera Super 8, ainda desconhecido da maioria das pessoas, que se tornou um bem particular essencial e nunca mais a largou. Varda tinha uma trajetória dedicada ao cinema, fotografia, artes visuais e o companheiro de todas as horas Jacques Demy como elementos de amor e paixão. Aznavour filmou não só sua vida, mas o dia a dia por onde passava com seus shows no Marrocos, na extinta URSS, Ilha de Capri, Japão, China, África e as reminiscências buscadas na Armênia, a qual presta justa homenagem. Os pais do protagonista eram da geração de armênios nascidos no exílio, neto de sobreviventes do Genocídio Armênio, massacre ocorrido de 1915 a 1923, com uma estimativa de dois milhões de pessoas assassinadas pelas autoridades otomanas. Um acontecimento histórico citado e ilustrado com flagrantes análogos pelos países em que o artista passou ao longo da vida. No filme, além da modéstia revelada nas imagens, menciona a dor pelo filho de 25 anos que faleceu tragicamente. Fatos importantes como o modo fascinante no semblante do seu grande amor, a sueca Ulla, com quem se casou numa cerimônia em Las Vegas e os registros do casal de filhos brincando são cenas marcantes entre som e imagem.

Teve uma carreira de 70 anos e mais de mil canções escritas com participação em dezenas de filmes, inclusive menciona agradecido e carinhosamente a amizade com o cultuado cineasta François Truffaut, ao ter a oportunidade de fazer aparições breves em algumas das realizações do mestre francês. Embora tenha convivido com celebridades, o foco de sua câmera era filmar pessoas anônimas, desde fãs nas filas do teatro até meninos jogando futebol em campinhos de várzea sem grama. “Era esse o propósito do documentário: mostrar o seu ponto de vista como ‘homem’ e não ‘estrela’. Ele captura a natureza humana, não as aparências. Charles filma ruas movimentadas, agitados passeios de barco e, mesmo assim, ele transparece através do que escolheu retratar”, diz o cineasta em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Domenico afirma na entrevista que Aznavour não participou da escolha dos textos e das imagens da obra, mas que o realizador e o filho do cantor, Misha, convidaram o ator Romain Duris para narrar em off o documentário. Retratou com certa melancolia através de uma visão global os prismas de uma exposição dos dilemas universais apontados, ainda que timidamente e sem um aprofundamento maior, mas com a altivez do artista sempre diligente aos percalços que rondam a humanidade e suas transformações.

O longa é uma boa mostragem das observações feitas no cotidiano, a vida boêmia, os sonhos de juventude, a vida de um neófito cantor, a miséria por muitos lugares que passou, dos romances que marcaram os amores conquistados e perdidos com grandes paixões que iriam inspirar as letras de suas antológicas canções que viraram sucessos incontestáveis, tais como: La Bohème, Emmenez-moi, Hier Encore, She, For me e Formidable. “Embora não deixe de ser autobiográfico, pois são documentos de momentos presenciados por ele, o conjunto de filmes feitos por Charles oferece uma visão poderosa e original sobre ele mesmo”, diz na mesma entrevista o documentarista. Eis um filme sensível, delicioso e leve sobre o sentido existencialista, seus ensinamentos reflexivos e emoções com fino humor decorrente de uma vida significativa deste apaixonado por pessoas e sua essência humana colocada na tela. Já no prólogo, relata sua abertura de olhos, coração e mente para o que acontecia fora de Paris, ao ler o best-seller Viagem ao Fim da Noite, do controvertido escritor conterrâneo Louis-Ferdinand Céline. Aznavour por Charles é um admirável filme que contribui sobre a arte da criação musical com reflexos na cinematografia. Um documentário criado com simplicidade, amor, dedicação e dignidade sobre o emblemático artista autobiografado da cultura francesa, que gira em torno dos acasos e das situações genéricas e peculiares das idiossincrasias da vida através de suas canções inesquecíveis e seu olhar atento para a realidade do planeta.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Relatos do Mundo

Destinos Marcados

O cineasta Paul Greengrass realiza com grandes méritos seu primeiro western esbanjando sobriedade e firmeza neste magnífico Relatos do Mundo, baseado no livro de Paulette Jiles, no qual dirigiu e escreveu o roteiro em parceria com Luke Davies, que se passa no ano de 1870, pós-Guerra Civil nos EUA, tendo por consequência muita violência e o racismo reinante no Texas. Tem em sua filmografia vários longas de sucesso, entre os quais se destaca Domingo Sangrento (2002), obra que o fez ser reconhecido no cenário mundial através de sua câmera frenética pelos movimentos constantes ao retratar o massacre de civis pelas tropas inglesas na Irlanda, em janeiro de 1972. Também realizou A Supremacia Bourne (2004), O Ultimato Bourne (2007), e com o Capitão Phillips (2013), dirigiu pela primeira vez o astro Tom Hanks, que agora encarna de maneira irretocável o capitão Jefferson Kidd, personagem central da trama. A grande surpresa positiva do filme ficou por conta da jovem Helena Zengel, que interpreta impecavelmente a determinada a selvagem garotinha alemã Johanna Leonberger, de 10 anos. Embora lançado nos cinemas pela Universal no ano passado, agora está disponível na plataforma da Netflix.

A história é contada com bons artifícios já conhecidos no Velho Oeste, porém sem abusar de tiros e perseguições recorrentes em obras menores. O protagonista possui interessantes argumentos para sua saga numa época de tempos conturbados pela discriminação racial. Lutou em duas guerras, tendo perdido sua tipografia que editava um informativo de notícias jornalísticas. Sua missão atual é viajar pelo sul dos Estados Unidos e fazer leituras dos acontecimentos ocorridos no mundo encontrados nos jornais para pessoas submissas com dificuldades de acesso à realidade. São homens que trabalham para os patrões poderosos de minas de carvão e dos abatedores de animais que não respeitam o mínimo de normas que garantam o bem-estar dos empregados. Em meio à sua jornada, o capitão e ex-combatente aceita uma proposta para levar a menina até seus familiares, após ela ter seus pais mortos num ataque a tribo Kiowa. Ela foi criada com o dialeto indígena e tem dificuldades de comunicação, e por isto, apresenta um comportamento hostil. O vínculo com Kidd é inevitável, como uma relação de pai e filha, que irá forçar os dois a lidarem com as escolhas que terão de tomar no futuro.

O faroeste tem como ingredientes significativos a belíssima trilha sonora de James Newton Howard, sendo executada com perfeição como mola mestra e condutora do enredo, ditando o clímax das cenas do prólogo como no desenrolar até o epílogo. Há o respaldo de uma maravilhosa fotografia assinada por Dariusz Wolski, que rememora imagens lindas realizadas a céu aberto advindas dos antigos westerns de beleza plástica arrebatadora. Não há como esquecer a cena ameaçadora da tempestade de areia que aos poucos se dissipa e vira apenas poeira, colocando os personagens perdidos novamente em contato com a dura realidade e o reencontro com a luz solar que irá dar um novo rumo aos seus destinos. Para alguns críticos, Relatos do Mundo é uma bela homenagem a John Ford e sua obra-prima Rastros de Ódio (1956), tendo a exemplar atuação de John Wayne, com suas variações inerentes dos antigos clássicos para não deixar desaparecer este gênero ainda pouco compreendido, mas que jamais será esquecido por realizadores competentes e engajados na sua renovação e na sua manutenção como arte na essência. O realizador não buscou apenas uma refilmagem da obra de Ford, mas sua intenção era realmente fazer um grande tributo ao inesquecível mestre do western. Em momento algum se afastou dos clássicos recorrentes, mas ao filmar no tradicional cenário do Velho Oeste adere ao tom e a dinâmica cinematográfica que embalou por muitos anos aficionados deste gênero. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia, as tabernas, os julgamentos, as execuções, e o figurino estão harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade.

Relatos do Mundo tem muitas semelhanças com Bravura Indômita (2010), o exemplar remake dos irmãos Ethan e Joel Coen, no qual também a trama é conduzida pela ótica de uma garotinha de 14 anos que se junta a um agente federal justiceiro, também por uma relação de filha e pai, buscará vingar a morte de seu pai por um bandoleiro famoso. Greengrass revisita o gênero dos filmes do Velho Oeste com o intuito de repetir passos e situações para reforçar as transformações do gênero, e consegue com sobras, tendo vida e luz própria, diante de sua imaginação bem acima da média de diretores medíocres que pululam o universo cinematográfico. Basta observar seu estilo equilibrado no desenrolar da história, sem utilizar os meios para tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto. Segue o melhor estilo dos grandes clássicos, no qual nos remete para aguçar as lembranças do magistral Os Imperdoáveis (1992), de e com Clint Eastwood, onde encontramos uma gama de mocinhos velhos, decadentes, sendo que um deles com apenas um olho, também tendo que cumprir a última missão. Também lembra Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson; além do já citado pelas referências em Rastros de Ódio e No Tempo das Diligências (1939), ambos de John Ford, com construções fantásticas de personagens; mas como esquecer Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah, ou ainda Os Brutos Também Amam (1953), de George Stevens.

Embora com um desfecho até certo ponto previsível, nem tudo é bonito no fascinante cenário, como se observa na acolhida fria dos tios de Johanna na cena do reencontro e a revolta da menina silenciosa ao ser presa por um dos pés com uma corda na árvore. Uma alegoria do ranço racista ainda imperante naquela comunidade conservadora com valores ultrapassados. Os resquícios de um sistema que ainda segue com os velhos tabus sem abrir mão da liberdade, especialmente das mulheres, mesmo que seja um ente do mesmo sangue, porém visto com desdém e com ausência de carinho e fraternidade. Prevalece aprisionar quem se rebela. Os laços e vínculos irão ao encontro de pessoas desconhecidas como um ato de harmonia pela aproximação casual de civilizações brancas e indígenas contrapondo com o racismo aos negros em conflito permanente. A revelação no epílogo daquelas pessoas desconhecidas sobre seus destinos fará com que também sintam o tempo passar rapidamente. Como bem fica marcado no último ato registrado na tela, há um sopro de lucidez para o recomeço de novas vidas que estavam vendo um ciclo se escoando, que irá conduzir para a reflexão no final dos destinos marcados, como decorrência dolorida da solidão e da sombria rejeição familiar, num comovente desfecho pela emoção digno de um admirável faroeste.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Tigre Branco




 



Castas Sociais

Lançado há poucas semanas pela poderosa plataforma de streaming da Netflix, o filme O Tigre Branco traz na sua construção uma crítica social sarcástica com humor corrosivo e uma violência moderada, com um viés nitidamente anticapitalista. Já é um dos mais vistos e comentados pelos críticos e cinéfilos em busca de histórias com bom conteúdo diante do distanciamento das telonas por conta da pandemia da Covid-19. Baseado no best-seller homônimo de Aravind Adiga, ganhador do almejado prêmio Man Booker Prize de 2008, aborda a história do ambicioso motorista indiano Balram (Adarsh Gourav) que quer fugir da pobreza humilhante e se libertar da vida de escravidão dedicada aos patrões milionários, usando a astúcia para tornar-se um novo rico, precedido de uma ascensão social com decisões ilegais e antiéticas. A direção e o roteiro são do competente cineasta norte-americano descendente de imigrantes iranianos Ramin Bahrani, que tem em sua filmografia os longas A Qualquer Preço (2012) e Fahrenheit 451 (2018).

Eis um drama social indiano coproduzido com os EUA, que tem sua ação transcorrida e filmada totalmente na Índia, para retratar e contar a história do personagem central, um homem bem-sucedido que escreve para o primeiro-ministro da China, explicando como subiu socialmente alguns degraus para chegar até o topo da pirâmide de uma sociedade de castas, resumidas entre pobres e ricos no seu país. Explica que o “tigre branco” que empresta o nome ao título do filme é um animal raro que existe apenas um exemplar por geração. É uma alusão alegórica tão improvável quanto alguém que nasceu pobre no depauperado vilarejo de Laxmangarh acabar ficando rico. O filme mostra que o personagem teve uma infância dura e foi explorado por uma família com requintes de máfia suburbana de um sistema de duas distintas castas. Sobre passar da condição inferior para a superior, diz ser uma lógica inverossímil diante da corrupção reinante naquela sociedade em que o uso de expedientes nefastos são defendidos, uma espécie de “os fins justificam os meios”, celebrizado na obra O Príncipe, de Maquiavel. Desabafa com uma frase ardilosa e raivosa sobre a ascensão: “Um empresário indiano deve ser ético e antiético, crente e descrente, malicioso e sincero, tudo ao mesmo tempo”.

O Tigre Branco está sendo comparado com o cultuado drama Parasita (2019), do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e dos Oscars de Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro 2020, no qual alguns críticos entendem como igual, embora não seja, pois está aquém daquela obra que faz uma abordagem bem mais aprofundada e sem restrições sobre a ascensão social de uma família excluída que vive na miséria e todos seus membros estão desempregados. Joon-ho fez um retrato devastador sobre a busca por uma vida digna com todo seu glamour em um núcleo de uma residência composta por um casal rico, uma menina adolescente e um garotinho pré-adolescente, em que só o homem trabalha. No filme da Coreia do Sul, havia discussões amargas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano distópico. Ninguém saiu ileso desta convivência marcada por acontecimentos de alta tensão, humor e a tragédia iminente com o resultado do confronto de classes distintas e paradoxais. A sociedade contemporânea estava em pauta e o questionamento foi sobre a polarização pela desigualdade com contornos do desequilíbrio de uma cruel realidade consumista. Havia a violência não gratuita, mas quase circunstancial, pelo desdobramento do enredo com um banho de sangue apoteótico no desfecho. Ao retratar as classes sociais diferentes com personagens de lados opostos, também há uma enorme similaridade com o fabuloso Assunto de Família (2018), de Hirokasu Kore-eda, tanto pela estética como pelo foco social.

Bahrani mostra com boa dose de ironia que fugir do “galinheiro” para não ser a próxima vítima a ter o pescoço cortado como os galináceos é a metáfora que orienta e dá o norte ao protagonista como fio condutor de sua evasão da complexa favela em que as pessoas vivem amontoadas como animais sujos e submissos. A trajetória do protagonista em busca do sucesso vai evidenciar a distopia social impregnada na Índia dos ricaços com suas ostentações através de seus carrões e outros bens luxuosos contrapondo com a saga dos excluídos que se tornaram pessoas na mais ampla miséria espalhadas nos arredores e ruas pitorescas de Nova Déli. Para ter acesso aos influentes bem aquinhoados é preciso aproximar-se deles na única condição possível, a de empregado que segue o ritual da exemplar subordinação sem questionar direitos, tendo somente deveres como lema, inclusive apanhar e não contestar. Dormir numa espécie de “pocilga” no estacionamento também faz parte do manual, bem como não reclamar do horário abusivo e aguentar todos os insultos. Balram consegue se tornar motorista particular de Ashok (Rajkumar Rao), um rapaz simpático do clã milionário, casado com Pinky (Priyanka Chopra Jonas, Miss Mundo pela Índia em 2000). Logo irá ganhar a confiança de todos os membros da família do patrão e do irmão deste, o truculento Mangusto (Vijay Maurya). O casal aparenta estar feliz na Capital, embora haja alguns problemas de relacionamento, pois eles não esquecem a vida e o cotidiano de quando moraram em Nova York. Detestam a cidadania de indianos por não se reconhecerem legítimos cidadãos daquela pátria.

O filme aborda com esmero o casal que, embora despreza os pobres, aparenta uma certa amizade e empatia com os subordinados, até serem descartáveis como objetos. A cena em que Pinky dirige seu carro completamente embriagada, atropela uma pessoa e não presta socorro é tão revoltante como procurar uma espécie de “laranja” para assumir a culpa e evitar o escândalo na sociedade aristocrática imorredoura. Comprar o motorista pobre com muito dinheiro que não faz falta faz parte da estratégia da inviolabilidade. O Tigre Branco é uma antítese da produção premiada com várias estatuetas do Oscar Quem Quer Ser um Milionário(2008), do britânico Danny Boyle, quando o protagonista assevera: “Não acredite nem por um segundo que há um jogo milionário de perguntas e respostas que você pode ganhar para poder sair daqui”. A maldade em conluio com o egoísmo dos indivíduos está em perfeita harmonia para atingir uma estável situação econômica como finalidade, pela ótica de Balram através de um jogo com regras próprias, mesmo que antiéticas e criminosas. Neste sentido, com tintas pessimistas de uma realidade sem escapatórias, o realizador abre feridas e ignora os falsos moralismos de um capitalismo selvagem que deteriora a alma humana e desgasta as relações interpessoais. É uma luta de classes sombreada com a falsa ideia do empreendedorismo, onde a classe trabalhadora tenta superar suas dificuldades enraizadas com objetivo de enriquecer para também ser patrão. O diretor insinua com boa provocação e uma certeira cutucada pontiaguda nos conservadores, onde tudo se move para a ilicitude. A reflexão é proposta como conscientização da repressão de valores que aguardam a absorção de uma sociedade agonizante e com contornos trágicos na busca do poder para abandonar o triste isolamento da universal injustiça social.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Minha Irmã

Luta pela Vida

Indicado pela Suíça para competir no Oscar deste ano, o drama familiar Minha Irmã é uma agradável surpresa neste início de 2021, com direção e roteiro de Véronique Reymond e Stéphanie Chuat, que já representaram seu país na mesma competição em 2011, com o longa ficcional The Little Bedroom (2010). Um autêntico mergulho na vida de dois irmãos e o sentimento construtivo que requer grande sacrifício de um em prol do outro. Sven (Lars Eidinger) teve piorada sua saúde pela progressão de um câncer de leucemia e a trajetória crepuscular vai se acentuando cada vez mais. A irmã gêmea, Lisa (Nina Hoss- de estupenda atuação, carrega o filme nas costas), decide que ele deve retornar às suas raízes em Berlim e conviver com a mãe, também atriz, Kathy (Marthe Keller), de difícil relacionamento, o que faz com intensidade e um certo êxito. No entanto, ela terá adversidades e consequências significativas no relacionamento com seu marido, Martin (Jens Albinus), que quer voltar para a gelada Suíça com suas nevascas constantes, e levar os filhos do casal, onde administra uma escola particular de dança.

A dupla de cineastas retrata com sensibilidade o fim de uma existência e toda sua decomposição aviltante, decorrente do agravamento da doença e sua decrepitude com o passar do tempo. Lisa foi uma dramaturga renomada, mas não estava mais escrevendo, já faz algum tempo que desistira de suas ambições, pois havia se mudado para os alpes suíços com os filhos menores e o marido. Seus pensamentos continuam na capital alemã, onde se encontra Sven, um famoso ator de teatro que ensaiava Hamlet, de William Shakespeare, mas vê seu projeto frustrado pelas péssimas condições de saúde. O companheiro dele o abandona, o teatrólogo desiste da peça por falta de recursos financeiros associado à moléstia do intérprete protagonista. Mas a irmã demonstra amor e garra ao enfrentar com obstinação quase que obsessiva pelo restabelecimento da vida do irmão. No meio deste turbilhão que surgiu inesperadamente diante da doença terminal, ainda terá de digladiar como uma leoa pelas crianças que o marido tenta raptar, após tê-la abandonada, diante da suposta negligência da manutenção do casamento. Faz de tudo, o possível e o impossível, para levar Sven de volta aos palcos, com o propósito único de dar alguma esperança como motivação para que continue a lutar pela vida.

Um filme denso e instigante sobre as relações humanas e o grande elo familiar advindo da complicada situação que acaba por refletir em anseios mais profundos no despertar da personagem central e o desejo de voltar a criar e se sentir viva novamente. Embora haja um painel caótico, este soa como uma inspiração pela lucidez mantida, que irá se refletir ao reescrever João e Maria, dos irmãos Grimm, de forma arrebatadora, ao transportar o conto de fadas infantil para uma alegoria adulta e sensível. A dor lancinante mexe com o espectador e suas emoções, mesmo sem ser um drama de grandiloquência, mas que se estende com sutileza pelos caminhos transversos que conduzem para a finitude. Dentro de um clímax sombrio, embora exista uma minguada luz de esperança, apenas entrecortado pela bela cena do desfecho do quarto compartilhado entre os dois, como que ela estivesse a homenagear o irmão e a vida com a escrita do monólogo criado com denodo e devoção para que ele atue de maneira derradeira no palco. É uma batalha contra o tempo e sozinha sente o mundo desmoronando, mas que não impedirá de deixar sua contribuição e seu amor fraternal como prova de resistência, dignidade e um humanismo na essência.

A trama é conduzida com um roteiro enxuto pelas realizadoras, sem arroubos ou manifestações de pieguismos baratos pelas armadilhas do melodrama, como já antecipa o prólogo. Num cenário registrado por alguns planos-sequência com os demais em contraplanos que individualizam e marcam a dor dos personagens, diante da aproximação da iminência da morte batendo à porta. Já a mãe vive solitária e indiferente num mundo egoísta e com certo desprezo ao filho homossexual. Não são usados subterfúgios, mas sim um estilo direto e objetivo de dirigir, em uma abordagem da doença de forma nua e crua, sem recursos alegóricos. As amarras do sofrimento angustiante decorrente da moléstia devastadora e implacável que deixa sequelas e marcas profundas terão uma poética licença lírica de uma relação fraterna no epílogo do cotidiano implacável no qual o grande vínculo familiar se mostra indissolúvel.

Temas como a morte, solidão e doença já foram explorados com méritos inegáveis pelo genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957), e na incomparável e inigualável obra-prima Gritos e Sussurros (1972); ou ainda em Viver (1952), de Akira Kurosawa; bem como em Amor (2012), de Michael Haneke. Porém, há se ressaltar em Minha Irmã um naturalismo exposto como vísceras de uma dacadência humana sendo intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta, tem na forma da crueza direta e em nada comparável com a estética criativa e metafórica dos mestres inspiradores citados. Uma jornada emocional que invoca uma profunda reflexão sobre a morte, a existência e o amor abundante e infinito, que tem na vida um final que dilacera, embora haja uma reconstrução de outra vida, num contexto de grande amor e amizade como duradouros e eternos. Um drama magnífico sobre o relacionamento de dois gêmeos, que pelo destino traiçoeiro deixará marcas boas e uma saudade imensa a quem fica. Reflete sobre os métodos de carinho, ternura, sintonia, sentimentos, parceria e a defesa incondicional do fraterno amor familiar no confronto entre vida e morte e suas emoções existenciais do progressivo fim do ser humano.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

 



 











Um Grandioso Tributo

A atriz gaúcha de Campo Bom Bárbara Paz estreia na direção do comovente Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, indicado para representar o Brasil no Oscar deste ano, pela primeira vez um documentário concorre como melhor filme internacional. Venceu o Festival de Veneza de 2019 na categoria de documentários. Relata com notável sensibilidade a trajetória da vida de seu marido, o cineasta argentino oriundo de Mar del Plata naturalizado brasileiro e de ascendência judaico-ucraniana Héctor Babenco, morto em 2016, aos 70 anos, por uma parada cardiorrespiratória, depois de lutar por oito anos contra um câncer linfático. Com um poder de síntese admirável, bastaram somente 73 minutos para a diretora, que também assinou o roteiro em parceria com Maria Camargo, que começou a filmar em 2010 num hospital de Paris, para retratar a longeva carreira de 40 anos, 10 longas, do festejado realizador biografado. Iniciou por O Rei da Noite (1975) até chegar na derradeira obra autobiográfica Meu Amigo Hindu (2016), passando pela sua obra-prima Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981).

O amor profundo de Bárbara pelo companheiro é a marca principal da realização que foca no cineasta que viveu e morreu se dedicando à sétima arte, razão pela qual sua vida tinha todo o sentido da existência dele e o prazer para continuar vivendo, ainda que o destino lhe aprontasse com a doença maligna contraída quando lançava, em 1990, Brincando nos Campos do Senhor, sendo diagnosticado a ter mais alguns minguados meses de vida, mas superou e conviveu por mais 30 anos com a moléstia. Em relatos marcantes sobre as memórias, medos e anseios flagrados na intimidade do lar e suas passagens pelos hospitais, com reflexões, a inerente intelectualidade contrapondo com a frágil condição de saúde do artista, são revelações do quanto seu amor pelo cinema o fez viver por tantos anos. Impressiona a maturidade da documentarista que subverte as expectativas para um tom de ensaio documental, sem cair na tentação de enveredar por lamentos chorosos de emoções baratas que descamba para o pieguismo. A relação entre os dois é construída por uma narrativa imparcial, retratada no envolvimento equidistante, mas com características espirituosas de bom humor, afastando-se dos truques empregados de forma gratuita e apelativa visto em realizações menores e apelativas. As interações e os diálogos do casal, mesmo em uma situação marcada pela dor latejante, torna o longa palatável diante da magnífica condução que deriva para um acompanhamento sem lágrimas gratuitas.

Outro achado no documentário é a opção de transformar as cenas dos filmes originais em cores numa fotografia em preto e branco, numa sensação de uma realização literalmente orgânica. Um mosaico de imagens de uma seleção magistral que ressalta os momentos mais inspirados do biografado. Um painel organizado com muita habilidade que ganha contundência, sem depender tanto do contexto, que ganha força autônoma em diversas cenas de colagens, tais como: imagens marcantes do período ditatorial em Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977); a amamentação da prostituta interpretada por Marília Pêra na antológica sequência em Pixote, que nos remete para a arte sacra Pietá, do pintor renascentista Michelangelo; Sônia Braga na praia em O Beijo da Mulher-Aranha (1985); os detentos nus no Carandiru (2003), a cena emblemática de Bárbara cantando e dançando na chuva em Meu Amigo Hindu, além das aparições de William Hurt, numa sugestão de Babenco interagindo com astros e estrelas do cinema norte-americano, bem como sua relação próxima com a Academia de Artes e Ciências de Holywood, resumida por ele na importância do cinema: “Não sei o que veio antes, viver ou filmar”.

A neófita e promissora diretora estreante não esconde suas limitações técnicas iniciais e escancara as falhas daquilo que poderia ser um defeito. Assume a falta de experiência, cria uma metalinguagem documental com o objetivo de um ensaio que tem grandes méritos criativos. Nas cenas iniciais, com humildade, mostra Babenco a ensinando sobre a relação entre a distância do foco e o enquadramento, e as diferenças técnicas pertinentes que irão ao encontro de uma estética eficiente adotada no projeto da produção. A ausência de um foco correto, associado a um erro de fotografia, acaba por ser adotada como uma reflexão repassada no prólogo. Porém, mesmo com o domínio da câmera, desfoca intencionalmente alguns planos para dar consistência e ratificar uma realização que se propõe coesa e com o selo autônomo de sua assinatura. A água é usada como elemento primordial, que vai da lentidão das gotas do soro até se transformar numa abundante onda em movimento. Uma sacada sutil metaforicamente utilizada para dar consistência e ilustrar um estado de espírito em seus devaneios de sonhos e pesadelos até atingir a plena bonança da calmaria da lucidez que aguarda a emboscada do traiçoeiro passamento, embora o protagonista a refute com teimosia e recuse com dignidade o avanço da finitude.

O desfecho em aberto é poético e sublime ao atender o grande desejo do marido, sem articular reminiscências impróprias, quando transforma o dia da partida, que deveria ser de tristeza e lágrimas, num apoteótico jantar com seus melhores amigos reunidos para beber, comer, sorrir e reviver lembranças sobre grandes fatos históricos e pitorescos de Babenco que não aceitava meio termo na sua existência. Não ficou de fora o tango de Astor Piazzolla e sua admiração por uma atriz chinesa com o epílogo transposto para Hong Kong, com o intuito de mantê-lo permanentemente vivo na eternidade para filmar como forma de redenção ao mundo cinematográfico em consonância com a vasta filmografia de um artesão e sua forma imaginativa singular. Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é um dos mais inventivos e sensíveis momentos de talento e sutileza de uma documentarista que brilha, ilumina, dá vida e amor em sua obra recheada de dor, alegria, sutileza e finesse neste tributo justo prestado ao marido e sua trajetória com toda a essência do cinema ao qual se dedicou. Uma significativa obra que contribui neste registro importante sobre a criação na sétima arte truncada pela insustentável leveza da morte.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Pieces of a Woman

Dor Redentora

O ano começa em grande estilo com a estreia em janeiro na Netflix do drama familiar Pieces of a Woman (tradução livre: “pedaços de uma mulher”), vindo dos EUA em coprodução com o Canadá e a Hungria. Uma abordagem contundente da jornada emocional de uma mãe que acaba de perder sua bebê e os desdobramentos da dor imensurável e os resquícios da culpa ilimitada, sem que haja um alento para atenuar o sofrimento que arde como uma ferida aberta latejante. A direção exemplar é do húngaro Kornél Mundruczó, que havia dirigido anteriormente Deus Branco (2014), vencedor da mostra paralela Um Certo Olhar, do Festival de Cannes. O longa atual rendeu merecidamente o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado para a britânica Vanessa Kirby (conhecida por interpretar a princesa Margaret na primeira fase do seriado The Crown) pela impecável e convincente atuação como Martha Carson, que precisa lidar com o luto e suas fases inerentes. Começa pela negação, passa pela ira, atinge o estado de depressão profunda e finalmente a aceitação como último recurso do mistério da morte abrupta que assolou sua família.

Kata Wéber, esposa do diretor, escreveu o roteiro inspirado em fatos reais pessoais do casal. Em entrevista à AFP, o cineasta revela que eles queriam compartilhar estas experiências com o público em geral, na tentativa de que a arte fosse o melhor remédio para a dor que vivenciaram. O filme retrata de maneira digna as consequências nas relações matrimoniais da protagonista e sua ruptura gradual com o marido Sean Carson (Shia LeBeouf- envolvido numa acusação de agressão e abuso sexual na época da produção do filme) e a hostilidade enraizada pelas marcas de uma situações mal resolvidas no passado com a mãe (Ellen Burstyn), numa luta diária e permanente para que seu mundo de sonhos e ilusões não desabe completamente. Os ingredientes são tristes na trajetória de Martha, que é surpreendida com a morte inesperada da bebê recém-nascida em um parto domiciliar realizada por uma parteira profissional (Molly Parker), por opção da própria gestante. O prólogo tem angustiantes trinta minutos da preparação para o parto, com contrações, bolsa rompida, enjoos, exercícios, medo, estresse e o coração do feto batendo. Tudo com a ajuda solidária de Sean, que sai numa busca desatinada para encontrar uma ambulância para levar a parturiente para o hospital quando a situação se torna crítica. Cria-se um clímax de alta tensão, bem conduzido em plano único pelo realizador, que não cai em armadilhas melodramáticas.

Com forte influência da filmografia dos irmãos Dardenne e sua mise-en-scène, especialmente dos longas O Filho (2002) e A Criança (2005), o bom roteiro dá um salto do dia fatídico para o retorno ao trabalho da silenciosa mãe. A humilhação que ouve de conversas entrecortadas é como uma salvaguarda às avessas que encara como um resgate pelo castigo que até entende ser merecedora. A vida segue após a tragédia, as marcas são recentes e dilacerantes da perda da criança. As acusações de culpa da profissional são marteladas pelo marido e pela mãe da personagem central. O casal passeia de carro, mas as lembranças das causas e efeitos continuam como consequências da morte sendo ventiladas pelos contrastes do laudo da autópsia colocado em xeque. Cada situação nova é um dilema para embates verbais, como a negativa de Sean e da sogra em doar a criança para pesquisa médica. O conflito familiar se estabelece pela abordagem sem subterfúgios sob o efeito da raiva, do ódio e da ética sendo colocados no jogo, através do olhar maternal de uma doce inveja para outras crianças no shopping e no transporte público como elementos de pura melancolia.

No meio deste turbilhão de problemas que povoa a cabeça de Martha, ela terá de harmonizar a consciência e relembrar os motivos nefastos perturbadores que causaram seu afastamento do marido, como o desmonte do quarto da filha como forma de agressão ao pai que quer manter viva uma imagem para não esquecer o sonho roubado. O desprezo e a rejeição ao sexo são outros elementos que só agravam a crise matrimonial. Surgem as traições de parte a parte, as agressões físicas e verbais atingindo o ápice do relacionamento para o desmoronamento do vínculo ainda resistente. A reunião de família vira uma lavanderia para acusações mútuas e sugestões para tratamento psicológico. Culmina numa defesa catártica sobre os culpados pela tragédia, se é que existem, como insinua Mundruczó. São combustíveis inflamáveis para o forte impacto emocional que desestruturou razões de viver para manter um profundo remorso. O abalo sísmico familiar vai dissipando os enigmas com revelações devastadoras para renúncia à felicidade, através de tons agressivos. Há uma explosão de raiva e ódio desmesurada que aflora da dor intensa e do isolamento progressivo para o entendimento de uma situação caótica. A memória traz à tona os fantasmas do dia do infortúnio e alguns resquícios pretéritos que deixam uma agonia lancinante, através de transtornos psicológicos que marcaram definitivamente a protagonista.

Pieces of a Woman mostra as imagens que povoam um novo horizonte em reconstrução da instransponível amargura, pela derrocada do equilíbrio que assombra Martha, por espectros que ainda rondam e remoem seus pensamentos atormentados. Os atritos entre ela e a matriarca, uma espécie de resgate da infância, estão presentes nos dilemas das relações familiares nos sacrifícios indesejados que soam como elementos punitivos redentores de uma alma destroçada pela perda dilacerante. A frieza que acompanha a protagonista, uma pessoa sombria numa iminente situação autodestrutiva, está presente na narrativa imparcial sobre as causas e efeitos. O julgamento no tribunal da parteira pela acusação de culpa ao substituir a colega é o desfecho que faltava para a redenção final entre mãe filha. Distante dos clichês que infestam os melodramas fáceis, faz com que os 126 minutos passem voando num filme de anti-heróis, sem sentimentalismos piegas que possam descambar para as facilidades abomináveis em realizações encontradas em obras menores. Um retrato duro com ênfase pelo descompasso do estado físico com o psicológico, com voos rasantes desgovernados, principalmente no remorso carregado em consonância com o vínculo de um fardo insustentável e pesado com dimensões eloquentes neste painel de frustrações e vazios existenciais. O magnífico drama reserva um epílogo de esperança no futuro através da árvore da vida com suas maçãs reveladoras na relação conturbada de outrora entre mãe e filha.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2020)










Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Já é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos nos cinemas e nas plataformas de streaming em 2020 devido ao vírus da Covid-19. Também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Você Não Estava Aqui, de Ken Loach (foto acima);

02. Não Há Mal Algum, de Mohammad Rasoulof;

03. Rede de Ódio, de Jan Komasa;

04. Aqueles Que Ficaram, de Barnabás Tóth;

05. Aranha, de Andrés Wood;

06. Crimes de Família, de Sebastián Schindel;

07. Ninguém Sabe que Estou Aqui, de Gaspar Antillo;

08. Ema, de Pablo Larraín;

09. O Farol, de Robert Eggers;

10. Mank, de David Fincher.

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

 - Aos Olhos de Ernesto, de Ana Luiza Azevedo;

- Mignones (Lindinhas), de Maïmouna Doucouré;

- Democracia em Vertigem, de Petra Costa;

- Correndo Para o Céu, de Mirlan Abdykalykov;

- Narciso em Férias, de Renato Terra e Ricardo Calil.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Mank

 

Cidadão Kane Revisitado

O eficiente cineasta David Fincher conta a polêmica história do crítico de teatro e roteirista Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman- de estupenda atuação) sobre os bastidores em Hollywood da obra-prima Cidadão Kane (1941), dirigida pelo jovem prodígio do rádio e do teatro Orson Welles, aos 25 anos, em seu filme de estreia, inspirado no magnata William Hearst. Travou-se uma árdua luta pela autoria do célebre roteiro e o respectivo crédito no longa-metragem, apontado por uma grande parcela dos críticos como o maior filme de todos os tempos. Mank é uma mescla de drama com cinebiografia e foi escrito por Jack Fincher, pai do realizador David, que morreria em 2003. Desenvolveu o projeto ao lado do filho por muitos anos até ser finalmente bancado pela Netflix. Deverá ter várias indicações ao Oscar de 2021. O enredo segue com muita engenharia a tumultuada disputa de Mankiewicz- conhecido no meio cinematográfico como Mank- pela inserção de seu nome nos créditos, chegando a desistir de receber quaisquer valores previamente acertados com a produção. Eis um dos filmes mais autorais e intimistas do diretor, que tem em sua filmografia Seven (1995), Zodíaco (2007), O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) e A Rede Social (2010).

O lado obscuro de Hollywood quase sempre foi um tema abordado dentro de um exercício satírico e crítico que já rendeu obras memoráveis de diretores inesquecíveis. Assim foi com Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, Assim Estava Escrito (1953), de Vincente Minnelli e O Jogador (1992), de Robert Altman. Os mais recentes que fizeram alusão ou alguma crítica velada foram Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas, o festejado vencedor do Oscar Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância (2014), de Alejandro González Iñarritu, e Mapas para as Estrelas (2014), do veterano cineasta canadense David Cronenberg, quando satirizou de forma irônica a perversidade infiltrada no charmoso mundo de futilidades e ambições sem limites das celebridades hollywoodianas, recheado de sarcasmo para dar vida e consistência devastadora à indústria norte-americana. Recentemente tivemos Era Uma Vez em...Hollywood (2019), do cultuado Quentin Tarantino, prestando uma homenagem prazerosa à indústria cinematográfica mais famosa do mundo, ambientada em Los Angeles, no ano de 1969, em apenas três dias na vida de dois atores em decadência diante das profundas mudanças sociais e políticas convergentes no universo dos mortais.

O realizador coloca de maneira hábil e equilibrada esta perturbadora trama em que são inoculadas as verdades mescladas com mentiras relatadas através da magia das grandes fábulas naquele universo fantástico de sonhos realizados ou frustrados. A desglamourização é acentuada na inventiva subversão ficcional contrapondo com a realidade de fatos ocorridos de repercussão. Um retrato significativo de Mank, cujas tendências de esquerda são apontadas para macular o roteirista quase que marginalizado pelos discursos anticomunistas de produtores e os responsáveis dos grandes estúdios. Tachado de ser somente um inveterado alcoólatra e fanfarrão de comportamentos obsessivo-destrutivos por alguns, visto como um profissional genial por outros, em diálogos marcantes e profundos de uma narrativa em tom quase que documental. Mas está presente a ironia embutida pela atmosfera do bom humor com sutilezas nas belas imagens de um cinema elucidativo, registrado por uma fascinante fotografia em preto e branco, assinada pelo competente Erik Messerschmidt, plenamente harmonizada com a atmosfera da época, embora traga um sabor amargo de uma artificial realidade.

Méritos para Fincher que faz com sensibilidade uma revisita à Era de Ouro em Hollywood fustigada pela crise financeira e ao processo conturbado do projeto do clássico Cidadão Kane. Num cenário antigo faz um passeio ao imaginário do espectador, recriando com esmero e fidelidade através de uma produção impecável de figurinos, automóveis e prédios que nos remetem para os anos de 1930. Logo após a Grande Depressão que ocasionou uma forte recessão econômica atingindo o capitalismo internacional e terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. Uma autêntica reconexão com o passado para contar um consistente imbróglio, sem cair na armadilha de prestar falsos tributos. Um mergulho inexorável num ambiente marcado por fofocas, bizarrices, intrigas e vaidades, na qual o personagem central tinha dúvidas pelas circunstâncias afloradas nos confrontos com o então neófito diretor Orson Welles. Lança reflexões sobre os pensamentos individuais dos personagens envolvidos pelas batalhas pessoais num contexto de incertezas dos princípios econômicos em jogo. Eram os prazos se esgotando e o irmão de Mank, Joe, assumindo a finalização do roteiro para terminar a obra com sérias dificuldades financeiras, que seria celebrizada posteriormente. Havia preocupação com o povo sem dinheiro para pagar ingresso no cinema e a proposta para projetar os filmes na rua mesmo.

Mank retrata uma desconstrução de Hitler e o povo alemão é colocado em xeque, os interesses políticos em evidência, em especial a ode ao Partido Republicano dos EUA e as falsas notícias lançadas supostamente pelo Partido dos Democratas na eleição da Califórnia, em um intrincado confronto entre socialismo e capitalismo, além da relação com a eleição no Canadá do simpático candidato que agradaria aos norte-americanos. Entre os interesses políticos, há uma abordagem sobre a Associação dos Roteiristas por melhores salários em rota de colisão com os grandes estúdios da MGM e Warner, bem como as aquisições e as trocas de acionistas, além dos filmes com informações falsas (fake news) para alavancar e proteger determinado candidato sintonizado com as ideologias defendidas por poderosos estúdios. Neste contexto, se insere o casamento em ruínas, após 20 anos, de Herman J. Mankiewicz, embora o filme esteja focado no protagonista e sua fiel escudeira, a secretária e datilógrafa. Eles estão permanentemente no rancho contrastando com os bons momentos de Hollywood e sua rotina de grandes tomadas de cavalos, mocinhos e vilões em verdejantes campos imensos. Porém, o desfecho catártico é revelador pelos vômitos escatológicos simbolizando as injustiças sociais metaforicamente invocadas através do imortalizado personagem Dom Quixote no jantar de gala dos poderosos, entre os quais estava William Hearst, com os astros e estrelas hollywoodianos, em uma história complexa neste admirável filme de época a ser prestigiado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Mostra de Cinema São Paulo (Não Há Mal Algum)

 










Não Há Mal Algum

Um dos filmes mais aguardados que correspondeu à expectativa depositada é o fabuloso Não Há Mal Algum, vencedor do Urso de Ouro e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim. A direção é do festejado cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que também assinou o roteiro, emprestando credibilidade para a calorosa recepção da crítica e laureado pelo público na categoria de Melhor Filme de Ficção Internacional nesta on-line 44ª. Mostra de Cinema de São Paulo. O realizador dirigiu importantes títulos exibidos nas edições anteriores da Mostra de SP anteriores, tais como: O Crepúsculo (2003), A Ilha de Ferro (2005) e Adeus (2011), no qual levou o prêmio de melhor diretor no Um Certo Olhar do Festival de Cannes. É dele também Manuscritos Não Queimam (2013) e A Man of Integrity (2017), obra que foi premiada como melhor filme da seção Um Certo Olhar, em Cannes. Em 2010, Rasoulof foi preso, enquanto trabalhava ao lado do cineasta conterrâneo Jafar Panahi, sendo condenado a um ano de detenção e impedido de deixar seu país desde 2017.

Mesmo com todas as dificuldades de filmar no Irã, realizou este instigante drama sociopolítico em coprodução com a Alemanha e a República Tcheca para abordar uma temática pouco explorada, que é o perfil dos executores para a aplicação da pena de morte. O longa retrata a escolha de quatro homens para serem os carrascos divididos em quatro episódios. Não importa a decisão tomada, ela irá transformar os aspectos psicológicos dos verdugos e seus relacionamentos pessoais, bem como a dinâmica da vida de cada um deles, direta ou indiretamente. Nos 152 minutos, que passam rapidamente, as histórias são apresentadas como temas cruciais ao redor de questões morais e da pena capital imposta. A liberdade individual tem pouco valor e não pode ser expressa como livre expressão de vontade em um regime tirânico diante das ameaças incontornáveis como verdades absolutas e inquestionáveis, deixando traumas indeléveis em seres humanos submetidos a execuções.

O realizador usa com acidez a frase irônica “se o homem foi condenado à morte, ele deve ter feito algo para estar ali”, sendo repetida reiteradamente. Parte-se da premissa que a polícia e o judiciário não erram, por isto, pressupostamente, não há falha na engrenagem funcional, e sendo assim inexiste espaço para questionamentos sobre alguma perseguição política contrária ao conjunto de leis baseadas no Alcorão que fortalecem o regime teocrático vigente. Portanto, os pressupostos dos ditames do ordenamento jurídico determinam que o cidadão comum se não estivesse envolvido em ilicitudes que acarretam em condenações e, se foi punido, alguma coisa fez e deve ao Estado, por ser irresponsável ou criminoso. O primeiro capítulo não determina os motivos da conduta de Heshmat (Ehsan Mirhosseini), um funcionário compenetrado da classe média e aparente exemplar marido atencioso. Ele anda de carro com a mulher e a filha, depois de buscar a criança na escola, vão ao supermercado e acabam jantando num restaurante. Depois de algum vacilo em ir trabalhar, ao chegar ao local, aperta o botão friamente para revelar seu segredo e a ansiedade incontida da tarefa dolorida da execução dos condenados à forca.

No capítulo 2, “She Said: ‘You Can do It’”, há uma clara e manifesta insurreição do soldado que tentar renegar a qualquer custo cumprir sua tarefa maldita de matar. Tenta fazer um acordo e pagar um companheiro para realizar o ato determinado, tendo em vista que este necessita de dinheiro para os remédios da irmã. No episódio posterior, “Birthday", o rapaz retorna à casa da namorada para o seu aniversário e quer noivar com a garota. Durante o tempo que esteve prestando serviço militar, a família da futura noiva abriga um político refugiado. A festa sofrerá abalos com revelações importantes sobre os fatos que se sucedem. Há um choque de ideias do soldado cumpridor da lei com a situação que lá encontrou. Habilmente o cineasta, após um segredo revelado, aborda os reflexos do passado que irão contaminar uma relação de amor e paixão. Arrependimento e culpa são ingredientes colocados para uma profunda reflexão diante da catarse de mágoas e tristezas que irão marcar para sempre os personagens principais envolvidos. No último episódio, “Kiss Me”, há uma conexão como sequência do segundo, o médico em estado adiantado de uma moléstia, com um olhar distante, sem carteira de habilitação, recebe em sua residência com a esposa uma jovem da Europa. Ele cria abelhas e caça javalis e raposas. O segredo contado à hospede irá mudar seus destinos e a visão do cotidiano de abates de animais, como da raposa e seu olhar de gratidão no epílogo. Uma metáfora da perseguição sobre as mortes brutais do regime totalitário com o dia a dia no deserto que abriga um microcosmo familiar e seus problemas conjunturais do passado que refletem no presente e apontam para um futuro de poucas perspectivas.

Com um elenco de atores coesos e sem reparos nos seus respectivos papéis nas belas imagens em scope de grandes planos gerais iluminadas nos esplendorosos cenários. Destaque para a estupenda fotografia de Ashkan Ashkani, como no último episódio locado em chão batido de terras poeirentas entre montanhas, onde se consagraram Abbas Kiarostami com Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), e a obra-prima Gosto de Cereja (1997); notabilizou Mohsen Makhmalbaf com A Caminho de Kandahar (2001); bem como Jafar Panahi em O Balão Branco (1995) e O Círculo (2000). Porém, o roteiro lida com a responsabilidade ética e o arrependimento dos escalados para matar, principalmente nos três últimos episódios. Cada história apresenta os danos psicológicos dos executores construídas com cenas de exemplar naturalismo sobre as vidas e as peculiaridades dos amores e amizades de cada um e a relação com o exército. O foco do drama não é a vítima e nem a dolorosa perda da vida, porém se debruça nos dramas pessoais irreparáveis dos algozes cumprindo ordens superiores decorrentes do obrigatório treinamento no serviço militar. Aponta o diretor com lucidez e um olhar melancólico para as mortes praticadas por aqueles homens. As conseqüências são as cicatrizes que permanecem abertas neles pelos atos cometidos involuntariamente. Não Há Mal Algum é uma pequena obra-prima de uma história fragmentada e retumbante na complexidade da essência cinematográfica esmiuçada para uma aprofundada reflexão aterradora dos grotescos julgamentos dos não alinhados ao regime.