quarta-feira, 2 de março de 2022

A Filha Perdida

Maternidade em Xeque

O tema contemporâneo da maternidade parece estar na moda e vem rendendo boas e interessantes realizações com ressonância positiva nas redes sociais. Pedro Almodóvar construiu dilemas e situações bem características sobre suas figuras femininas em Mães Paralelas (na Netflix). Aborda duas mulheres que se conhecem no hospital, sendo que uma é aparentemente independente, com uma carreira sólida e alguma segurança financeira, porém não é tão bem resolvida como demonstra. A segunda é uma adolescente fragilizada, mas com pensamentos avançados teoricamente, que sofreu um estupro coletivo, tem problemas com os pais e está visivelmente assustada e traumatizada com a nova situação. No meio da trama há uma inusitada de troca das crianças no berçário. Já o diretor islandês Valdimar Jóhannsson estreou com o perturbador Lamb (disponível no MUBI), um enredo dividido em três atos com cenas de pouquíssimos diálogos. Gira em torno de um sofrido e silencioso casal de fazendeiros diante da prematura morte da filha, até o dia em que nasce um cordeiro com semelhanças e atributos humanos, que anda de pé sobre duas patas e veste um casaquinho com macacão. É batizada com o mesmo nome da bebê falecida, embora seja grotesca, anda de mãos dadas com os pais adotantes, e dorme languidamente num bercinho no quarto.

Outro sucesso com ótima repercussão de público é A Filha Perdida (em exibição na (Netflix), com a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal, que também assina o dinâmico e instigante roteiro adaptado do livro homônimo da escritora Elena Ferrante, tendo levado o prêmio na categoria de melhor roteiro no Festival de Veneza. Demonstra sensibilidade, sutileza e boas qualidades para contar uma interessante história que prende o espectador diante do olhar investigador sobre a vida da mulher que tem dupla e até tripla jornada no dia a dia. Muitas vezes as condições humanas sobrecarregadas fraquejam durante a dura jornada com a missão a ser cumprida por imposição da estrutural sociedade machista hoje ainda existente, mesmo que anacrônica. O manual comportamental dever seguido com o cumprimento rígido dos ditos bons mandamentos orientados por uma casta aristocrática já pré-falimentar. A narrativa toca o espectador, até mesmo os mais insensíveis machos alfas de alguma maneira, diante das ideias e dos sentimentos, até então ocultos ou abafados, sem ter tido um grito de liberdade que tenha ecoado com lucidez e bravura. Romper as regras e os tabus dos conservadores do mundo dominado pelos bons costumes permanentes como prerrogativas da falsa moral é uma tarefa árdua, que reina na sociedade da hipocrisia em que a mulher/mãe perfeita cozinha, limpa a casa, cuida dos filhos, do marido, tudo de forma impecável, sem reclamar das dificuldades, por ser isto que lhe é cobrado diariamente.

O enredo foi bem elaborado e a apta imaginação deu resultados satisfatórios como uma obra de muito bom foco para atingir a meta esperada sobre uma mulher que precisa se recuperar ao confrontar o presente com o passado. Apesar disso, há um excesso de flashbacks com cortes sucessivos, e, em muitas vezes o clímax distensiona involuntariamente a trajetória. As idas e vindas da protagonista, do passado para o presente, foram a nota destoante da neófita diretora, que preteriu equivocadamente uma narrativa mais segura com o uso adequado de voz em off, mas que mesmo assim não conseguiu invalidar ou tirar méritos do todo de sua proposta. Leda (Olivia Colman) é uma professora de literatura comparada e devotada na área acadêmica, de meia-idade, divorciada, com duas filhas já emancipadas, mas que quando crianças davam muito trabalho, ainda que a jovem mãe (Jessie Buckley) fosse muito dedicada e quase sempre presente, demonstra ser sentimental, tem ambição, faz sacrifícios, é explosiva algumas vezes, charmosa e sensual em outras, fica conflitada entre estar com as filhas ou ter que optar pela profissão, além da ausência constante do marido que só lhe cobra resultados do cotidiano. O envelhecimento inevitável traz as angústias do passado, inclusive uma paixão impulsiva que estava anestesiada, mas que aos poucos veio à tona, pelas lembranças pretéritas que emergem ao tirar férias numa paradisíaca ilha costeira da Grécia. Lá ela começa a se sentir mais leve e livre apesar de estar envergonhada pela sensação solitária, pois aproveitou a brecha das filhas que foram visitar o pai no Canadá, ficando com a imagem da boneca raptada por maldade ou impulso que irá ao encontro da relação ambígua na infância de suas crianças agora já adultas.

O zigue-zague do roteiro aproxima a personagem central de uma família nova-iorquina suspeita de pertencer a uma máfia, pois elementos e situações corriqueiras não faltam, como supostas ameaças e um jogo sujo de alguns integrantes daquele esquisito núcleo. Leda se identifica e demonstra um certo fascínio incomum pela jovem Nina (Dakota Johnson), uma espécie de alter ego na frente de seus olhos reflexivos, que lançam luzes novas para um resgate, quase como um fantasma, que martela sua cabeça naquele lugar aprazível e redentor. Tudo é muito semelhante, até mesmo o desaparecimento da filha pequena na praia, rendendo uma procura incessante por todos nos arredores, até chegar ao ápice que é a iminente traição ao marido ameaçador (Oliver Jackson-Cohen). O vínculo e a amizade se estabelecem para elas interagirem com confissões recorrentes que irão construir um forte vínculo diante do atual momento das duas com as inerentes adversidades do cotidiano intenso de caminhos tortuosos. Mas prevalece a intensidade com o denodo do instinto maternal, embora as reações amorosas por ausência de afeto de seus pares sejam uma realidade profunda e mesmo não sendo descartadas as paixões de outrora, marcam corações, almas e mentes infinitamente, deixando feridas abertas com lacunas doloridas. A frase da famosa filósofa francesa feminista Simone de Beauvoir resume tudo: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.

Nem tudo é só lazer no passeio turístico na vida de Leda, que encontra naquela estranha família coincidências que a faz lembrar dos períodos conturbados e as penitências que teve de absorver como mãe, que lhe vem instantaneamente como memórias recuperadas que passam como um filme antigo, ou nem tanto. Traz uma reflexão comovente sobre entrar nos meandros mais sombrios e inexplorados da maternidade, individualidade e culpa implícita ou explícita do que mais poderia ter feito e não realizou, principalmente o sufoco para a criação intelectual. Tanto como mãe ou como mulher com seus desejos sexuais por paixões efervescentes da juventude. Ou os grandes amores frustrados ou colocados em prática. Há uma teia de aranha envolvendo as lembranças, os esquecimentos e alguns devaneios interrompidos repentinamente com elipses corriqueiras no desenrolar da trama. Talvez a protagonista pudesse ser mais ousada, quem sabe respirar o lado feminino muitas vezes despedaçado em fragmentos que são empurrados para uma linha tênue de seus limites, tanto do cansaço físico como da opressão emocional. São perguntas latentes que ficam no epílogo em aberto para abrir muitas possibilidades interpretativas de cada pessoa na dicotomia apresentada da condição feminina e sua empatia ao trazer um olhar inovador ao questionar a maternidade com todas as complexidades inerentes neste admirável drama familiar.

terça-feira, 1 de março de 2022

Lamb

Revolta da Natureza

A Islândia está em alta em suas realizações e brinda os espectadores com ótimos filmes. A Ovelha Negra (2015), do diretor islandês Grímur Hákonarson, venceu a Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, em 2015, e foi indicado para representar o país no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. Retratava de forma comovente a relação estremecida de dois irmãos septuagenários, que não se falavam por 40 anos, correspondiam-se por mensagens em bilhetes escritos à mão, sendo levados ao destino por um cachorro, uma espécie de pombo-correio. Surge uma violenta determinação do governo para a eliminação de todo o rebanho de ovinos da família, após ser constatada uma doença contagiosa nas respectivas fazendas deles e de alguns vizinhos criadores da espécie, onde a população de ovelhas é maior que a dos seres humanos em todo território islândico. Como um prosseguimento da realização anterior, embora menor, Hákonarson cria uma atmosfera tensa em A Resistência de Inga (2019), diante da iminente falência do sustento familiar de uma fazenda e traz como reflexão literal o monopólio de uma cooperativa de criadores de bovinos.

Agora chega à plataforma MUBI o perturbador Lamb, do diretor estreante Valdimar Jóhannsson que já se credenciou com grande potencial, vencedor do prêmio de originalidade da mostra Um Certo Olhar, em Cannes, no ano passado, também venceu o prêmio máximo do Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, e ainda foi escolhido para representar a Islândia na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar de 2022, e esteve na programação da Mostra de Cinema de São Paulo no ano de 2021. Há elementos suficientes para uma primorosa história contada com simplicidade, ternura e situações típicas do cotidiano de uma bucólica aldeia de pastores de ovelhas. Ali encontraremos a ruptura e a reaproximação forçada para uma reintegração da união familiar estremecida neste suspense com variações para uma fábula adulta de terror com pitadas de fantasia sensorial. Proporciona uma rara oportunidade de se conhecer alguns estilos de vida diferentes dos habituais que desfilam nas telas dos cinemas, como os aspectos pitorescos arraigados de uma cultura pouco difundida.

A trama é dividida em três atos com cenas de pouquíssimos diálogos e gira em torno do casal de fazendeiros Ingvar (Hilmir Snaer Guönason) e Maria (Noomi Rapace, atriz sueca famosa por protagonizar Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de 2011) que vivem numa fascinante planície isolada de uma região muito fria com frequentes nevascas. Sofrem com a morte prematura da filha pequena, até o dia em que um suposto milagre na noite de Natal proporcionaria o nascimento de um cordeiro com semelhança, forma e atributos humanos, que anda de pé sobre duas patas e veste um casaquinho com macacão. É batizada com o mesmo nome da bebê falecida, Ada, sendo uma figura grotesca que anda de mãos dadas com os pais e dorme languidamente num bercinho no quarto como se fosse natural. O realizador dá asas à imaginação ao transformar um drama familiar aparentemente simples mergulhado num luto profundo, quando o roteiro, também escrito pelo diretor, dá uma guinada na envolvente história, com significativa mudança de rumo para um surrealismo sutil e de boa narrativa numa construção alegórica que beira a inverossimilhança.

O casal ao abraçar este presente que teria caído como uma dádiva superior dos horizontes celestiais, jamais imaginaria que estivesse infringindo algumas regras claras da natureza, como humanizar um cordeiro, que seria de Deus ou do demônio? Mesmo que para isto houvesse o sacrifício da verdadeira mãe em forma de execução dentro do processo de luto. Neste meio tempo surge o irmão do protagonista, Pétur (Björn Hlynur Haraldssson), um homem forasteiro e descompromissado, com um passado nada íntegro, que dá em cima da cunhada, mas mostra-se sensível ao tentar aceitar a aquela criatura nada convencional. O trator que enguiça na estrada e os sinais que surgem durante a trajetória do longa são evidências e acenos de que a natureza acusou o golpe das armadilhas que lhe foram impostas. O ritmo lento da tensão pelo silêncio constante leva para um grau de imprevisibilidade permanente, conduzindo o espectador para uma surpresa que está por acontecer a qualquer momento.

A fotografia de Eli Arenson traz sequências com grandes planos abertos de uma região vazia, porém bela e envolvente, que trará uma intensidade relevante para a narrativa que cresce com a evolução do enredo. Tudo conduz para um desfecho catártico ao ser humano, porém com o viés redentor e significativo do conjunto de elementos do mundo natural advindos das montanhas, árvores, animais decorrentes do ecossistema, diante dos desmandos e irracionalidades coercitivos do egoísmo e da intransigência fruto de uma melancolia enraizada pela perda da filha. A maternidade ficou fragilizada com resquícios doentios para uma sobrevivência com um mínimo de qualidade, ainda que o preço seja muito alto, e ao ir de encontro das forças da natureza, a vingança pode demorar mas virá como um prato frio pelas mãos e/ou patas do além.

Lamb é um filme contagiante e traz na sua essência o lado sinistro de um certo mistério no bojo da narrativa, por isto prende o espectador que cria uma interessante perspectiva de visão para o desenlace, toda vez que observa a fisionomia daquela criatura aparentemente meiga que carrega algo sobrenatural. A simbiose da paz e da felicidade que poderia lacrar uma união abalada pela perda inesperada é negada. A própria criatura que solta seu balido ecoante no prólogo irá se socorrer da espécie que sai em sua defesa pelo tom da fábula mitológica reveladora. Uma magnífica reflexão sobre as consequências diante da interferência da dita civilização em situações aberratórias que buscam na excentricidade, como se vivêssemos num universo com características de um grande hospício. Qualquer ação violenta com uma retirada abrupta haverá uma resposta de punição à humanidade pela revolta da natureza agredida de maneira egoísta, sórdida e pusilânime. As referências do vínculo familiar, independente de espécie, ficarão ali marcadas pelo tempo e pelas adversidades inevitáveis nesta estupenda obra com tintas fortes de tragicidade, que mexe com o mais distraído dos espectadores no epílogo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Mães Paralelas

Resgate do Passado

O cultuado cineasta espanhol Pedro Almodóvar está de volta com Mães Paralelas, 23º. longa-metragem, em cartaz na Netflix, para construir dilemas advindos das figuras femininas como pretexto para um filme de resgate sociopolítico. Embora sem se reinventar totalmente, o bom domínio estético narrativo que o consagrou nestes mais de 40 anos de carreira segue sendo sua marca pessoal. Na sua penúltima obra, Dor e Glória (2019), retratou uma autoficção intimista do próprio realizador, um diretor homossexual no ocaso da carreira, alter ego de seu criador, com tintas autobiográficas melancólicas do declínio profissional. Encerrou a trilogia espontânea sobre o projeto focado em desejo e ficção cinematográfica mesclados com a vida real de dores e paixões inerentes como sustentação de personagens masculinos que dirigem na sétima arte, sendo que antes vieram A Lei do Desejo (1986) e Má Educação (2003). Seguiu o mesmo caminho de vários artistas em crise ou próximos do fim da existência, transformando a trajetória como um legado histórico da arte, como visto recentemente no documentário da legendária Agnès Varda, que fez um inventário de sua vida e carreira em Varda por Agnès (2019); ou ainda a realização Maria Callas- Em Suas Próprias Palavras (2017), dirigido por Tom Volf, sobre a grande diva da ópera do século 20, a bela e talentosa Maria Callas, uma das mais consagradas cantoras e intérpretes da história da música, teatro e cinema.

Almodóvar dava sinais de estar terminando a carreira, mas retorna com seu clássico estilo de filmar e o rigor característico formal, com o uso de cores fortes tendo a predominância do vermelho. Inova desta feita ao abordar as cicatrizes do passado da era do general Francisco Franco, com este melodrama sobre a maternidade de duas mulheres que não planejaram a gravidez. A protagonista Janis (Penélope Cruz) é uma mulher aparentemente independente, com uma carreira sólida que dá certa segurança financeira, porém não é tão bem resolvida como demonstra. Tem como amiga a estranha e segura Elena (Rossy de Palma); o namorado é o antropólogo casado Arturo (Israel Elejalde); e a distante mãe Brigida (Julieta Serrano). No hospital conhecerá a outra personagem central, Ana (Milena Smit), uma adolescente fragilizada, mas com pensamentos avançados teoricamente, que sofreu um estupro coletivo. O pai sequer deu alguma atenção, e ainda tem sérios problemas de relacionamento com sua mãe, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), que está focada unicamente na carreira de atriz de teatro. Se Janis entende estar preparada e eufórica para ser mãe, Ana está visivelmente assustada e traumatizada com a nova situação.

O diretor dá vida para as duas futuras mães que esperam pela chegada de seus filhos, passeiam pelos corredores do hospital, trocam informações, confissões, e fazem fortes desabafos. Dão à luz no mesmo dia e no mesmo local, dividem o mesmo quarto, bem como irão construir um forte vínculo de amizade diante do momento de transformação das duas, com as inerentes situações de dor, tanto do parto como do cotidiano intenso de seus caminhos atribulados, onde prevalece a bravura do instinto maternal. Diante das reações amorosas por ausência de afeto profundo em que elas interagem como forma de confissão, há uma derrapada pouco comum em se tratando de Almodóvar, no affair surgido de inopino e colocado fora de contexto por ser desnecessário e interromper o clímax da realização. Ficou vago e estranho ao cortar, até então, a bem elaborada narrativa da troca das crianças no berçário. As desconfianças e as buscas pela verdade emergem de uma realidade que ficou silenciosa por um bom tempo, mas que os fatos novos viriam clarear com o passar do tempo. Embora sem a mesma imaginação para abordar a temática do festejado cineasta japonês Hirokasu Kore-eda, no perturbador drama Pais e Filhos (2013), inspirado em casos reais de bebês trocados que serviram para que fosse contada a comovente saga. Ou ainda no belo filme brasileiro na mesma esteira de um dos episódios de O Que se Move (2012), de Caetano Gotardo, sobre um fato real acontecido em 2002, mais conhecido como Pedrinho de Goiânia, diante do roubo de uma criança da maternidade, e somente aos 16 anos iria encontrar seus pais biológicos.

Dá para dizer que é mais uma produção com a grife Almodóvar, que transparece como uma evidente tentativa de resgatar as feridas pretéritas, embora seu propósito tenha ficado no meio do caminho. Afastou-se do discurso inflamado para dar um viés contido embasado pelas lembranças afetivas e dos fantasmas que habitam as memórias nas cabeças, mentes e almas dos que efetivamente tiveram familiares e amigos trucidados. Há referências aos fatos de modo que a ficção pode se confundir com o passado sem haver uma grande revelação final, um grande conflito caótico, com a escavação que recupera os restos mortais de parentes, através do antropólogo no desfecho. O resultado se confunde com um projeto mais vigoroso por uma obra sem contundência deste fabuloso artesão em fase de declínio, dando mostras de pouco ânimo para o presente. Focaliza as personagens femininas pelas suas confissões e angústias mostradas como para purificar a própria alma pelos eventuais equívocos praticados. Eis um enredo peculiar e cinzento, através de um olhar de clemência lançado sobre o passado pelos sentimentos atormentados das transformações emocionais na construção psicológica do sofrimento humano do outrora sangrento regime opressor que irá se conectar com a maternidade pelo drama familiar.

Mesmo sendo um filme menor, sem fisgar plenamente o espectador por não empolgar, mas que não chega a decepcionar, fica num plano intermediário ao se estabelecer a relação com obras anteriores arrebatadoras como A Pele que Habito (2011); o brilho e a eloquência em Abraços Partidos (2009); o sempre lembrado Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988); o notável Fale com Ela (2002); Volver (2006) como a ode máxima ao feminismo; assim como em Ata-me (1990); De Salto Alto (1991), Carne Trêmula (1997) e a obra-prima Tudo Sobre Minha Mãe (1999). Ainda assim, está acima de realizações medíocres que infestam as salas de cinema e os streamings que pululam na grande maioria as diversas plataformas. Apesar disso, ainda há críticas rasas de acusações levianas de bobagens escritas com o viés de uma militância engajada na defesa de velhos clichês, entre as quais de que o cineasta trouxe ao cinema uma misoginia inédita. Almodóvar pode ser acusado de qualquer coisa, até de realizar uma obra de forma preguiçosa com uma narrativa sonolenta e sem a essência do cinema que lhe é peculiar. É evidente que Mães Paralelas não se aprofundou no estupro, na maternidade, na trocas de bebês, no luto, na ausência dos pais, na ditadura protagonizada por Franco na Espanha com as consequências nefastas dos inocentes que perderam suas vidas por um ideal. Misoginia, jamais! Há, sim, o olhar atento de um cineasta que ainda tem boa lucidez para contar uma relevante história.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Eduardo e Mônica

 

Elegia do Amor

Assim como no longa-metragem Abismo Prateado (2011), do diretor cearense Karim Aïnouz, que foi baseado na canção Olhos nos Olhos de Chico Buarque de Holanda, que compôs e gravou em 1976, Faroeste Caboclo (2013) também se inspirou numa música, que empresta o nome ao título do filme, lançada em 1987 pelo grupo Legião Urbana e composta por Renato Russo. Foi uma adaptação livre para o cinema do diretor estreante na época René Sampaio, sem se preocupar com a fidelidade absoluta da letra, acabou por se dar bem no resultado final de uma alegoria sobre a corrupção e os escândalos no Distrito Federal, embora com algumas obviedades no roteiro sobre a vingança e a raiva de um negro pobre, sem se aprofundar, permanecendo mais na superficialidade das contradições. Em seu segundo longa-metragem, com lançamento previsto inicialmente para 2020, mas adiado por conta da pandemia, Sampaio segue o mesmo caminho anterior, ao adaptar para a telona a cultuada música Eduardo e Mônica, também de Russo, de quatro minutos e meio para duas horas. O roteiro segue fielmente o desenrolar da letra com a assinatura por dez mãos, de Matheus Souza, Claudia Souto, Michele Frantz, Gabriel Bortolini e Jessica Candal. Conta a história de uma relação improvável de um grande amor incondicional e o sofrimento de um casal que precisa superar as diferenças de idade, social e cultural.

A trama é ambientada em Brasília, no ano de 1986, quando do lançamento do disco da banda brasiliense Legião Urbana, com homenagens e eventos emblemáticos de um período pós-ditadura (01 de abril de 1964 até 15 de março de 1985). Em um dia atípico, uma série de coincidências leva Eduardo (Gabriel Leone- apenas aceitável, pois cantando esteve melhor que interpretando) a conhecer Mônica (Alice Braga- numa atuação arrebatadora, ilumina a tela com seu sorriso e o fascínio magnético de uma grande atriz no auge da carreira com todos os seus recursos técnicos, em um de seus melhores papéis), tendo como pano de fundo uma festa da diversidade. Um amor despertado nos dois, embora completamente diferentes, eles se apaixonam e não se desgrudam mais. Além da discrepância de idade entre os dois, com gostos diferentes, tudo se encaminha para uma relação incompatível que deveria durar poucos meses. Ele não tem muito objetivo de vida, não é muito chegado nos estudos e no trabalho, mas tenta passar em engenharia no vestibular, não pretende sair do Planalto Central, onde mora com o avô (Otávio Augusto), um ex-militar conservador, homofóbico, que sente saudades e tece loas ao regime ditatorial. Ela é uma médica residente que sonha em trabalhar e morar no Rio de Janeiro, que tem como severa professora na faculdade, a própria mãe (Juliana Carneiro da Cunha).

O cineasta, que está bem mais maduro e criativo neste seu segundo filme, e já promete uma terceira adaptação musical para fechar a trilogia, aborda com delicadeza e sensibilidade esse amor que precisará amadurecer e aprender a superar os contratempos das diferenças nos encontros e desencontros amorosos que permeiam esta admirável comédia romântica. O casal ainda terá que lutar contra o preconceito etário visto pelos outros, bem como transpassar o discurso e as atitudes do avô. O rapaz mergulha em um intenso processo interno de descoberta existencial para tentar lidar com seus sentimentos marcados por uma educação rígida de outrora. As diferenças culturais distintas entre dois são retratadas no painel da atmosfera criada desde o encontro inusitado. São os mecanismos de manipulação e a culpabilização arraigados que passam despercebidos, no qual a turbulência se estabelece marcada por uma educação típica de um microcosmo familiar que entra em choque diante de revelações e experiências nunca vividas num relacionamento de pessoas opostas.

Eduardo e Mônica é um filme que trata do romantismo com sutilezas, discussões e debates pelos espaços de cada um que não devem ser invadidos. Sem se afastar das questões sociais e culturais, enquanto a canção fala que Eduardo sugeriu uma lanchonete e Mônica queria ver o filme do Godard, no belo diálogo dos dois, ela pede para irem numa Mostra de filmes da Nouvelle Vague, mas ele com sua ingenuidade pergunta se estão passando novelas no cinema. Os diálogos estão no ponto certo sem histeria, distante das velhas comédias anacrônicas de lirismos exacerbados que descambam para o intragável pieguismo. Sampaio conduz com equilíbrio os dias marcados por desatinos e transtornos do casal, embora haja poucas esperanças de um happy end, o filme é levado com um bom clímax de expectativa até o agradável epílogo. Os quatro minutos e meio da belíssima canção cantada no epílogo com os créditos são o complemento necessário e delicioso da obra, e faz com que o espectador permaneça até o letreiro final sair da tela ouvindo: “E quem um dia irá dizer, Que existe razão, Nas coisas feitas pelo coração?, E quem irá dizer, Que não existe razão?”. O desfecho deixa um bálsamo acalentador nos corações dos espectadores em tempos tão duros de negacionismos com ameaças de retrocesso institucional proporcionado pelo conservadorismo grotesco, como forma de reflexões pertinentes e provocativas da energia e do magnetismo de um amor intenso e efervescente.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O Festival do Amor

 

As Escolhas

Woody Allen reaparece no início deste ano em sua trajetória de comédias de costumes dramáticas, mantendo-se fiel no sarcasmo e na sutil ironia fina como marcas registradas de sua extensa filmografia, por ser um dos melhores cineastas em atividade no mundo. O Festival do Amor é o 51º. longa-metragem do diretor e roteirista que nos remete para a lenda do vinho: “Quanto mais velho, melhor”. Reprisando elementos dos filmes anteriores: Roda Gigante (2017), Café Society (2016) e Homem Irracional (2015), novamente não atua, mas mantém o vigor e a capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do cotidiano e a análise dele mesmo através desta boa história de amores e desamores contextualizada no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha, nesta linda cidade turística na Baía de Biscaia, no montanhoso País Basco. Mescla elementos de pessimismo com algum otimismo, passando uma realidade distante com devaneios que desembocam em pesadelos, pela narrativa de relacionamentos extraconjugais que acabam influenciando a dinâmica do casamento do casal protagonista. Em meio das tensões românticas com traições e descobertas, o longa explora um debate sobre os caminhos do próprio cinema e suas manifestações políticas indo ao encontro da arte, com posições e divergências dos personagens acerca da temática.

A penúltima realização deste incorrigível cineasta romântico-nostálgico foi Um Dia de Chuva em Nova Iorque (2018), onde focava um casal de jovens que planejou uma viagem à Nova Iorque. Ao chegar lá, os planos mudam, pois a moça descobre a possibilidade de fazer uma entrevista com um famoso cineasta, e o rapaz acaba encontrando a irmã de uma antiga namorada. Durante o passeio, eles descobrem novas paixões e oportunidades únicas de vivenciarem fortes emoções contidas. Agora, em O Festival do Amor, transparece quase que uma espécie de continuação do tema retratado anteriormente. Mort Rifkin (Wallace Shawn), alter ego de Allen, é um ex-professor de cinema especializado nos clássicos, e escritor frustrado que não termina nenhum livro. Ele acompanha a esposa Sue (Gina Gershon), uma assessora de imprensa a serviço das estrelas no festival para o lançamento do novo filme do jovem e promissor diretor francês Philippe (Louis Garrel). O envolvimento cada vez mais próximo de sua mulher acarreta em ciúmes e desconfiança de que os dois estão tendo um caso, faz com que se distancie. Procura a médica espanhola Jo Rojas (Elena Anaya), casada com um pintor traidor e amalucado, Tomás (Enrique Arce), arruma pretextos absurdos para marcar sucessivas consultas com a profissional. Logo, o envolvimento é inevitável entre os traídos e uma relação de amizade e amor platônico fica estreita com pitadas de flertes.

Numa visita à filmografia de Allen, Zelig (2003) é uma de suas das obras-primas; bem como se vislumbra uma retomada do inesquecível A Rosa Púrpura do Cairo (1985), talvez seu maior filme, naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película para fugir do martírio de sua vida sem graça. Porém, O Festival do Amor, assim como as realizações anteriores, tenta se aproximar de suas melhores obras ao focar nas perturbações existenciais do escritor em crise de criação, hipocondríaco e neurótico. Critica o cinema atual pelos favorecimentos à indústria cinematográfica decorrente de uma forte influência econômica de transformação do mercado. Defende e imagina em devaneios a gradiloquência dos mestres europeus a quem faz tributos, tais como: Fellini em Oito e Meio (1963), John Ford em Rastros de Ódio (1956), Orson Wells em Cidadão Kane (1941) e Luis Buñuel em O Anjo Exterminador (1962), da Nouvelle Vague francesa como Godard em Acossado (1960) e Truffaut em Jules e Jim- Uma Mulher para Dois (1962), ou ainda as obras existenciais sobre a morte e velhice que inspiraram Allen, do genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957), O Sétimo Selo (1957) e Persona (1966). Uma amostragem da crise e dos contrastes de interesses que geram abismos, mas que não isenta sequer Allen de fazer uso e lançar um olhar sobre o turismo das lindas praias paradisíacas da Espanha.

Uma comédia deslumbrante visualmente pelo fascínio da fotografia do italiano Vittorio Storaro três vezes vencedor do Oscar: O Último Imperador, Apocalypse Now e Reds, já havia feito parceria com Allen em Café Societ e Roda Gigante. Ressaltar a beleza da cidade espanhola que serviu de locação para mostrar o contraste do mar distante romantizado com a linda arquitetura, todo um conjunto para as reflexões do protagonista. Quase uma fábula sobre pessoas sonhadoras e a impossibilidade da felicidade desfeita pelas circunstâncias periféricas que rondam os destinos marcados através dos diálogos nos encontros e desencontros. Habilmente é formado um quadrilátero amoroso, outra marca do cineasta, onde os desejos giram e a verdade tomará contornos na essência dos vínculos afetivos diante das desilusões. Os corações vacilam na paixão, como de Sue que tem um romance não tão secreto. O painel de elementos neuróticos e de fracassos do cotidiano irão formar motivos forjados para as fantasias serem superadas pela sombria realidade do distúrbio familiar. Reflete as esperanças e as desilusões dos destinos cruzados que irão aos poucos formatando o imbróglio de situações e enroscos que se apresentam na urdida trama. Explora os meandros da alma nesta contribuição interessante para o cinema voltado para os acontecimentos rotineiros da paixão desenfreada, os destroçamentos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas, pelo olhar profundo deste assumido realizador bergmaniano. Ironiza a vida pelos vestígios eivados de perturbações latentes reveladas, mas isso não é o todo, apenas um resultado através da busca do seu significado.

O Festival do Amor tem uma harmonia paradoxal na essência existencial, mas principalmente na felicidade rompida do sonho pela realidade traiçoeira do destino. É difícil apontar, ou achar, algum defeito deste veterano de 86 anos que constrói mais um filme revelador, através de planos longos com aproximações e afastamentos da câmera no ponto certo para observar os personagens inquietos pelas andanças e desatinos do cotidiano. Um mergulho de boa profundidade nos relacionamentos despudorados, nas traições com método de sedução convencional ou não. As relações interpessoais e os romances fracassados servem de alicerce para explorar uma narrativa densa e presente como uma fórmula repetida que deu certo. Os personagens de Allen muitas vezes são reescritos, às vezes com razoáveis resultados, e em outros se superam. Mais uma vez parte dos desajustes do amor e da paixão para ingressar na melancólica solidão do amargo romance, como no desfecho que o coração direciona o caminho da agridoce desilusão amorosa, decepções e sofrimentos do sonho. Regado com apreciável sutileza e ironia a analogia pertinente nas colocações para armadilhas lançadas com primazia no enredo, como típicas características da sensibilidade do velho mestre.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima

Negacionismo do Ocaso

Adam McKay, 53 anos, é um diretor de méritos minguados em sua filmografia despontada com comédias insignificantes como O Âncora (2004) e Quase Irmãos (2008). Deu uma guinada na carreira para abordar assuntos com mais seriedade, tais como economia e política, através de uma narrativa com ritmo alucinado e ao mesmo tempo didático por demais. Fez sucesso com A Grande Aposta, eleito pela Associação dos Produtores de Hollywood como o melhor filme de 2015, além de cinco indicações ao Oscar, com uma descrição linear da história de investidores financeiros que tiraram vantagem do colapso da economia mundial de 2008, levando à bancarrota bancos, instituições financeiras e diversos empreendimentos imobiliários nos EUA e na Europa. A temática seguiu na esteira do ótimo O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese, que contou a autobiografia de um canastrão e sedutor jovem aspirante a corretor da bolsa de Nova Iorque, O Capital (2012), de Costa-Gavras, e o feroz ataque ao capitalismo de David Cronenberg em Cosmópolis (2012). Depois veio Vice (2018), sobre a biografia do controverso Dick Cheney, vice-presidente dos EUA entre 2001 e 2009, recebendo oito indicações ao Oscar. Ultimamente esteve envolvido com a produção e a direção do primeiro episódio da série Succession (2018), sobre uma sucessão de um conglomerado da mídia que acabou ganhando nove Emmys.

No apagar das luzes de 2021, a Netflix lançou a polêmica comédia satírica de ficção científica Não Olhe Para Cima, que despertou muitos debates e discussões acirradas nas redes sociais desde seu lançamento em dezembro passado, através de memes e postagens numa clara alegoria com a pandemia da Covid-19. Conta a história improvável de Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), dois astrônomos que fazem uma descoberta inusitada e preocupante, com a ajuda prestimosa do doutor Oglethorpe (Rob Morgan), de um cometa que está em órbita dentro do sistema solar e em iminente rota de colisão com a Terra. Seria o fim do mundo, mas ninguém dá muito crédito para a revelação bombástica dos cientistas desta ameaça apocalíptica que amedronta a humanidade e sua extinção. Os protagonistas vão até um famoso programa de televisão comandado por dois jornalistas (Cate Blanchett e Tyler Perry) para alertar a população de que em apenas seis meses haverá a tragédia anunciada. Tentam de maneira frustrada ganhar a atenção do público obcecado pelas mídias sociais antes que seja irremediável. Os espectadores estão mais interessados no término do namoro entre uma cantora (Ariana Grande) e um rapper (Kid Cudi). Acabam, por sorte ou azar, sendo recebidos pela presidente Orlean (Meryl Streep- numa clara alusão ao presidente Donald Trump, até o bonezinho é igual) e de seu filho, Jason (Jonah Hill), que também não se comovem com o fato surreal.

O filme se esforça para mostrar, mas falta talento ao realizador, embora haja muita sátira e cenas tragicômicas, de como os governos são controlados e amarrados aos globalistas de plantão nas políticas de influência das mídias que por sua vez fazem da população refém do que interessa. Um dos méritos da obra é o interessante espelhamento da sociedade satirizada no exercício da troca do cometa pelo aquecimento global ou pela Covid-19, facilmente identificáveis nos grandes movimentos do negacionismo, obscurantismo, terraplanismo e outros inverossímeis “ismos” que pululam no conservadorismo universal reinante de nosso planeta tão descuidado e massacrado. A cegueira é manifesta e se faz presente em nome dos interesses econômicos evidentes que visam impedir a lucidez atrofiada, como no caso do proprietário de uma rede de telefonia buscando lucros e interesses financeiros próprios. Ou o herói americano que vai para o espaço e retorna, mas afirma com sua arma em punho de forma quixotesca que não será apanhado vivo, para demonstrar sua sordidez em prol de uma nação que se acha imbatível em todos os aspectos, até mesmo pela força da natureza. É a mediocridade derrotando as cabeças lúcidas pensantes que defendem a ciência desmoralizada pelo ostentoso espetáculo dantesco de um governo que prima pelo negacionismo sob a batuta de um narcisista no poder.

O cineasta e David Sirota escreveram o roteiro original antes do surgimento da pandemia. Entretanto, durante o período da doença que tomou conta do universo, eles voltaram à trama para realizar modificações substanciais para torná-la mais próxima da realidade atual da tragédia iminente do desastre anunciado da destruição planetária. Faz uma analogia com a entrevista coletiva de Trump sugerindo uma injeção de desinfetante no combate da Covid-19. Vemos as previsões sendo concretizadas e um pequeno grupo privilegiado fugindo para outro planeta e o fracasso da missão liderada pela presidente dos EUA tendo um final inimaginável. McKay aponta o dedo ao disparar contra alguns empresários gananciosos e sem escrúpulos como Mark Zuckerberg e Elon Musk, mais preocupados no lançamento de aplicativos, além dos negócios de investimentos com a presidente do país mais importante do mundo, em uma das raras cenas a serem elogiadas. Peca pelo remexido enredo sem um clímax que beira ao artificialismo que tem um elenco avolumado, em que vão se encaixando personagens pouco convincentes, como do skatista de família evangélica de caráter duvidoso pela estupidez da falsa pregação do heroísmo.

Em um mundo distópico das vidas pela sua preservação estão os anti-heróis astrônomos e o médico, frequentemente submetidos pelos todos poderosos à lavagem cerebral com tentativas de suborno e corrupção. O cineasta se deixa levar pelo catastrofismo barato, que beira a afetação trágica planetária. A obra fica fragilizada, como por encantamento aos filmes americanos A Estrada (2009), de John Hillcoat; Gozdzilla (1998), 2012- O Fim do Mundo (2009), O Dia Depois de Amanhã (2004) e Independece Day (1996), todos do medíocre diretor Roland Emmerich. Ficou bem distante do admirável Melancolia (2011), de Lars von Trier, que começava com um prólogo que antecedia a história em dois atos que viriam no corpo da narrativa, com oito minutos na trilha operística de Tristão e Isolda, de Wagner, deixando como elipses no roteiro o clímax da explosão devastadora e apocalíptica. Em Não Olhe para Cima falta uma análise aprofundada para uma melhor reflexão, fruto de uma direção pálida decorrente de uma visão menor e sem arrojo de uma perspicácia da função do cinema como alerta de denúncias louváveis. Como essência cinematográfica ficou a desejar por ausência de aptidão de um realizador apenas mediano, que pouco inovou na construção, deixando seus personagens e roteiro soltos em comiseração. Dá mostras da sensação de se estar diante do déjà vu nos padrões de Hollywood. Está longe de uma obra completa e eloquente, mesmo que se considere como provocadora, tem pouca consistência na construção e desenvoltura do enredo para diálogos frios e um final desnecessário de dois pós-créditos.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2021)

Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Já é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos nos cinemas e nas plataformas de streaming em 2021 devido à pandemia. Também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Meu Pai, de Florian Zeller (foto acima);

02. Druk- Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg;

03. Ataque dos Cães, de Jane Campion;

04. Bagdá Vive em Mim, de Samir;

05. Vera Sonha com o Mar, de Kaltrina Krasniqi;

06. Nomadland, de Chloé Zhao;

07. Pieces of a Woman, de Kornél Mundruczó;

08. Jogo do Poder, de Costa-Gavras;

09. Agente Duplo, de Maite Alberdi;

10. O Tigre Branco, de Ramin Bahrami.


Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

 - De Volta Para Casa, de Wayne Wang;

- Marighella, de Wagner Moura;

- A Mão de Deus, de Paulo Sorrentino;

- Minha Irmã, de VéroniqueRaymond e Stéphanie Chuat;

- Relatos do Mundo, de Paul Greengrass.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A Mão de Deus

 

Tributo Felliniano

Paulo Sorrentino obteve reconhecimento internacional com Le conseguenze dell'amore (2004), porém ao ganhar diversos prêmios e concorrer à Palma de Ouro ficou conhecido por Il Divo (2008), uma apreciável cinebiografia do ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti (1919- 2013). No filme A Grande Beleza (2013), possivelmente sua obra-prima, realizou um drama de reverência à beleza estonteante e os encantos de amor para Roma, a cidade eterna que foi a protagonista em Roma de Fellini (1972) e A Doce Vida (1960), ambos de Federico Fellini. Tinha um cenário no terraço luxuoso com vista para o Coliseu, onde a elite estava reunida para falar de superficialidades: um empresário que vende brinquedos para a China, a rica escritora engajada, um colecionador de artes e uma editora anã. Falavam deles mesmos e as conquistas pessoais, os projetos e a situação do país, bem como a ironia aos turistas. Depois veio A Juventude (2016), que buscava a construção de seu personagem central resgatado no universo felliniano do clássico Oito e Meio (1963), na caracterização com o visual de Marcello Mastroianni. Já em Silvio e os Outros (2018), aborda o ex-primeiro- ministro italiano Silvio Berlusconi sentindo a ausência do poder ao ser derrotado na última eleição por 25 mil votos, veio integrar a oposição e está bastante incomodado com o ocaso momentâneo.

Agora chega pela Netflix o magnífico A Mão de Deus, indicado ao Oscar de 2022 pela Itália, venceu o Grande Prêmio do Júri no 78º. Festival de Veneza. É uma espécie de homenagem ao gênio Fellini que tanto é admirado e reverenciado pelo realizador em todos seus filmes. Conta a história do menino Fabietto (Filippo Scotti), na conturbada Nápoles dos anos 1980, foi inspirado nas experiências pessoais da adolescência de Sorrentino. Soa como traços marcantes de uma autobiografia repleta de alegrias inesperadas, como o anúncio e a tão aguardada chegada do ídolo do futebol argentino Diego Armando Maradona, que trará esperanças para o Napoli, clube de amor e paixão da família retratada no longa-metragem. O título do filme é uma alusão ao gol com a mão na final da Copa do Mundo de 1986, ocorrida no México, entre Argentina e Inglaterra, que seria o simbolismo da vingança dos argentinos aos britânicos pela fatídica Guerra das Malvinas. Há várias referências ao atleta entre 1984 e 1991, que ocupa considerável parcela do enredo para entrelaçar com a carreira do craque tachado de "o melhor jogador de futebol de todos os tempos” no prólogo, apresentando a fase da inocência que acaba desarmando uma situação desastrosa familiar. A narrativa poética mostra a veneração do protagonista pelo ídolo que irá impedir uma tragédia surpreendente ainda maior, diante do circunstancial envenenamento por monóxido de carbono da lareira, caso tivesse ficado em casa com os pais (Toni Servillo e Teresa Saponangelo).

A estrutura da realização mostra momentos da vida do adolescente que encontra um amigo contrabandista inesperado num dia de jogo; as reuniões de família com brigas, lágrimas, traições; perda da virgindade com a transição para a fase adulta; o desejo de ser cineasta por tomar suas próprias decisões, mesmo sendo influenciado por todos os acontecimentos inerentes de sua vida. O cineasta cria nesta comédia dramática seu painel com o jovem ingênuo, e observa várias personalidades excêntricas locais que se comportam de forma absurda, onde a bizarrice é uma constante. Inspiração esta buscada no inesquecível Amarcord (1973), do mestre Fellini. Começa com a tia Patrizia (Luisa Ranieri) visitando o misterioso pequeno monge, depois é bolinada e desperta a fúria do marido ciumento, toma banho de sol pelada em público, provoca o sobrinho que a vê como sua musa, mas pela ousadia e estar muito à frente do tempo acaba num hospício, possivelmente internada como louca pela sociedade machista. Tem também a matriarca desbocada, a vizinha baronesa e seus invasivos palpites, o pai comunista, a mãe que gosta de fazer suas peraltices com os parentes e telefonar para a vizinha se dizendo assistente do diretor Zefirelli, o irmão (Marlon Joubert) que troca de namorada como de camisa, o velho tio (Renato Carpentieri) que nutre uma paixão incondicional por Maradona, o modo desprezível e cruel dos familiares rindo do namorado da tia, um sujeito manco e que usa um microfone de laringe para falar.

Se em A Grande Beleza era uma gratidão à Itália com a Roma sagrada e profana mostrada, sob os auspícios da bela trilha sonora erudita, com temas baseados em músicas religiosas, passando pela contemporânea e desembocando num som eletrônico, tendo as assinaturas de Arvo Pärt, Vladimir Mastynov, Zbigniew Preisner, John Tavener e Henryk Górecki. Em A Mão de Deus foca no destino que desempenha um papel fundamental para o futuro do protagonista, de Nápoles para Roma, através de uma história intensa e muito pessoal do realizador, pelo personagem com seus próprios pensamentos à procura de um significado para seus desejos e motivações existenciais. Com uma estética primorosa que transita de uma alegoria extravagante para um poema lírico com mares, casas, cenografias maravilhosas e uma cuidadosa locação de objetos e figurinos em momentos fascinantes de uma fotografia ímpar. A descrição sem excessos está convincente na estruturação de seus personagens resgatados do universo felliniano. Reacende uma enlouquecedora paixão por um ídolo, diante das lembranças do presente remetendo para o passado, em que foi avivado depois da agonia da descoberta na razão do rompimento por novos horizontes.

Eis um passeio cultural e histórico nesta viagem de regresso a Nápoles por Sorrentino, vinte anos depois, com o glamour ao melhor estilo do mestre inspirador, como o fabuloso Oito e Meio (1963), bem caracterizado na obra. O passado de incertezas encontrará respaldo na morte trágica que chegará para separar uma trajetória. Há meditação sincera sobre o avanço da idade com leveza sutil, diante dos percalços. Uma redenção diante de uma situação de amor inocente que ficou para trás irremediavelmente neste retrato fiel do reencontro de um homem com seu passado e suas memórias com o sentido prazeroso de viver, diante de suas divagações reflexivas. A sensibilidade conduz para absorver os infortúnios e buscar a retomada dos encantos que a vida oferece, numa narrativa com tom de sátira sarcástica sobre o painel familiar excêntrico e tragicômico com situações surreais. É comovente e arrebatador no aspecto psicológico construído com primazia sobre o ser humano depurando as angústias num epílogo de amor em êxtase, apontando como referência ao título numa consequente suavidade. Provoca estímulos pela emoção e a crença de que o cinema está em flagrante resistência para manter a chama acesa pela efervescência cultural inesgotável da arte que permanecerá como legado.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Ataque dos Cães

Desconstrução dos Mitos

A cineasta Jane Campion, aos 67 anos, realiza com grandes méritos seu primeiro western esbanjando sobriedade, formalismo e firmeza neste admirável Ataque dos Cães. Concorrerá e é forte candidato em doze categorias ao Oscar de 2022, entre elas: melhor filme, direção (ganhou neste ano o Leão de Prata no Festival de Veneza), ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora, está disponível na Netflix. É o retorno da festejada diretora doze anos depois de seu último longa-metragem, Brilho de Uma Paixão (2009). Baseado no livro de Thomas Savage, publicado em 1967, no qual ela escreveu o roteiro que se passa no ano de 1925, ambientado em Montana, um Estado que fica ao oeste dos EUA, foi rodado nas lindas paisagens dos verdes prados da Nova Zelândia, país de origem da realizadora. Cria com sensibilidade e muita sutileza personagens fortes e marcantes numa história de faroeste crepuscular para desconstrução do mitológico caubói macho alfa invasivo e agressivo. Tem em sua filmografia vários sucessos como a série policial Top of the Lake (2013-2017), Cada Um Com Seu Cinema (2007), Retrato de Uma Mulher (1996), e sua obra mais aclamada ainda é O Piano (1993), quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original.

A história é contada em atos com bons artifícios conhecidos no Velho Oeste, porém sem abusar de perseguições recorrentes em obras menores, opta pela ausência de tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto e lugares inimagináveis. Há na trilha sonora cativante do guitarrista e compositor britânico da banda Radiohead, Jonny Greenwood, sendo executada com perfeição, como uma mola mestra condutora vai ditando o clímax de suspense das cenas. Os cenários são grandiosos e caracterizadores do gênero, onde os cavalos estão sincronizados pelas frondosas árvores, montanhas, rios, ranchos, neve e de um pôr do sol esplêndido e por vezes revelador de um novo dia, magistralmente captados nas lentes da fotógrafa australiana Ari Wegner. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia e o figurino estão harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade. Segue o melhor estilo estético dos grandes clássicos. Lembra o inesquecível Os Imperdoáveis (1992), de e com Clint Eastwood; remete para Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson; como não poderia deixar de ter referências em Rastros de Ódio (1956) e No Tempo das Diligências (1939), ambos do genial John Ford, com construções fantásticas de personagens; mas como esquecer Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah; ou Os Brutos Também Amam (1953), de George Stevens; e mais recentemente Bravura Indômita (2010), dos irmãos Ethan e Joel Coen, e Relatos do Mundo (2020), de Paul Greengrass.

A narrativa é bem urdida sobre Phil (Benedict Cumberbatch- a melhor interpretação de sua carreira) e George (Jesse Plemons- discreto e eficiente no papel), dois irmãos ricos e proprietários da maior fazenda da região. Enquanto o primeiro é um homem duro, cruel, homofóbico e arrogante, ainda que seja formado em filosofia, leva a vida de vaqueiro por opção, inspirado no ídolo do passado Bronco Henry, que exerce uma figura quase que paterna, mas com ilações de uma relação secreta mais íntima. Já o segundo é uma pessoa gentil, quieta, educada, que não demonstra muito interesse nesta vida de cowboy, embora esteja mais preocupado com a família, preza a justiça. A relação dos dois azeda de vez quando George se casa com a viúva alcoólatra, Rose (Kirsten Dunst), por quem o irmão mais novo nutre um desprezo pelo filho dela, ao humilhar Peter (Kodi Smit-McPhee). Faz brincadeiras grosseiras àquele jovem que estuda medicina e tem gestos e maneiras delicadas de se comportar. A abordagem reflete o poder, a inveja, a solidão e os desejos reprimidos por força de um tóxico ambiente machista na sua essência, onde é preciso manter uma postura de masculinidade intensa como dita a sociedade conservadora, sem que as fragilidades apareçam, beira a ignorância e o recalque do protagonista em relação aos demais. A realizadora retrata com profundidade rara as sutilezas e simbologias por trás de personagens psicologicamente debilitados, em especial, Phil que vai sendo desmascarado aos poucos, e o dócil Peter de aparente ternura, mas com a vingança sendo arquitetada no contexto diário de aspereza.

Ataque dos Cães teve o título baseado num trecho bíblico extraído do Salmo 22, que profetiza o seguinte: "Livra-me da espada, livra a minha vida do poder do cão". Servirá como uma espécie de aviso de que o perigo está rondando, sendo iminente as trágicas consequências. As cenas que remetem para as montanhas com as supostas gravuras de ataques caninos, deixam o espectador vigilante e atento para a realidade ou as superstições que aflorarão. O silêncio recorrente que fascina, os gestos e os olhares que falam, e progressivamente revelam as carências decorrentes daquelas aparências contraditórias num ambiente fortemente contextualizado pela hostilidade. Campion traz à baila e coloca em xeque a masculinidade através de um pseudofóbico para mirar seu foco nas fraquezas retumbantes das relações e os seus vínculos afetivos sendo demolidos com refinada delicadeza, através de pequenos detalhes, diálogos e simbolismos, no qual os desejos são anestesiados ou a homoafetividade é sufocada. Tema este que foi bem retratado no western O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee, na qual a repressão aparece de forma contundente como uma luz lançada para a aceitação de como são os indivíduos pelas suas criações e educações familiares.

Eis uma alegoria do ranço homofóbico imperante numa comunidade conservadora com valores ultrapassados. Os resquícios de um sistema que ainda segue com os velhos tabus sem abrir mão da liberdade, especialmente das minorias, mesmo que seja um ente próximo, porém visto com desdém e com ausência de carinho e fraternidade. Os laços e vínculos irão ao encontro de pessoas desconhecidas como um ato de harmonia pela aproximação casual nos conflitos permanentes, embora haja um sopro de lucidez para o recomeço de novas vidas que estavam vendo um ciclo se fechar, que irá conduzir para a reflexão dos destinos marcados, como decorrência dolorida da solidão e da sombria rejeição pela escolha da sexualidade. A cineasta utiliza a morte sendo reverenciada no epílogo até com alguma suavidade, tendo na condição do ora suposto amigo, vendo o tempo se escoando, conduz para o tema da vingança no final por uma reviravolta surpreendente e sombria do instigante roteiro, com o exorcismo dos fantasmas do cotidiano. É a contingência do desaparecimento nos percalços da vida que passa rápido, fica um outro mundo de reminiscências e uma melancolia enternecedora, num grande final com emoção e digno de um fabuloso faroeste.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Deserto Particular

As Transformações

O cineasta brasileiro Aly Muritiba, nascido em Mairi, no interior da Bahia, radicado em Curitiba (PR), aos 42 anos, tem uma carreira de admiráveis filmes em sua filmografia, tais como: Para Minha Amada Morta (2015), vencedor em sete prêmios, incluindo Festival de Brasília, de Montreal (Canadá) e San Sebastián (Espanha); Nóis por Nóis (2017); Ferrugem (2018) levou o Kikito de melhor longa brasileiro em Gramado; Jesus Kid (2021) ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Gramado deste ano; e, recentemente, da festejada série documental sobre o Caso Evandro (2020), em exibição no Globoplay. Pretende filmar no próximo ano Barba Ensopada de Sangue, baseado no livro do escritor Daniel Galera. Em outubro, teve seu último filme, Deserto Particular, pré-selecionado para representar o Brasil na disputa por uma vaga entre os cinco indicados na categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2022, ao contar uma história de amor em tempos de ódio com a recorrente intransigência brutal de nossos dias atuais, na qual a sensibilidade e a ternura deveriam falar mais alto.

O enredo tem no protagonista Daniel (Antonio Saboia) um policial cumpridor de seus deveres, até cometer um erro grave que o coloca numa situação constrangedora e de iminente risco na carreira, além do abalo de sua honra. Solitário, inseguro e introvertido, filho de um também policial aposentado que agoniza uma demência irreversível, divide os cuidados do pai com a irmã. Sua única diversão com alguns momentos de alegria é o romance virtual com Sara pelo WhatsApp, que mora em Sobradinho, interior da Bahia, até ela deixar de responder as mensagens e atender suas ligações. Há uma reviravolta no roteiro, quando abandona tudo em Curitiba, onde reside, para implementar uma viagem por uma busca frenética da amada. Sai do Sul do país e vai para o Nordeste de carro, num longo caminho inverso realizado pelo diretor em seus movimentos da sua própria vida. Mergulha em um intenso processo interno de descoberta de sua existência para tentar lidar com seus afetos marcados por uma educação rígida de outrora. São os mecanismos de manipulação e a culpabilização arraigados que passam despercebidos, no qual a confusão se estabelece marcada por uma educação típica de um microcosmo familiar que entra em choque diante de revelações e experiências jamais vividas em relacionamentos que cruzam do hétero para homossexual.

O drama social com pitadas políticas se faz necessário e é importante em um Brasil dividido momentaneamente, sobretudo pelo enredo construído para narrar um episódio do cotidiano, mas que pretende transformar a aspereza de duas pessoas em suas vidas como pano de fundo. O roteiro de Henrique Dos Santos e Muritiba tem o objetivo de desconstruir em doses homeopáticas a rudeza do protagonista e, ao mesmo tempo, mostrar as diferenças e contradições de uma sociedade machista e conservadora. Uma espécie de metáfora de nossos tempos difíceis do enraizado reacionarismo de um futuro cada vez mais sombrio, onde a harmonia está mais distante por conta de um permanente estereótipo advindo de um mundo tirano do patriarcalismo. Daniel é derivado de uma estrutura estabelecida na corporação policial, que moldou sua personalidade e as atitudes menos amistosas oriundas da violência, causa do afastamento das suas funções profissionais e elemento de construção psicológica do personagem e as relações supervenientes tratadas nas questões sociais e políticas.

As diferenças culturais entre dois polos distintos retratadas no painel da atmosfera criada entre as duas regiões brasileiras ficam visíveis nesta aventura road movie, que são bem captadas pela câmera da bonita fotografia de Luis Armando Arteaga. Também há registro do envolvimento na construção da história de amor através dos contrastes de cores e alguma melancolia na temática principal. No encontro dos personagens desencontrados pelas circunstâncias, surge a mulher trans Robson (Pedro Fasanaro), criada pela avó, diante do pedido do pai, para tentar uma cura gay numa igreja evangélica pentecostal. Trabalha durante o dia num centro de distribuição de alimentos, sonha em por o pé na estrada e se libertar das amarras pelos grilhões que o prendem àquele ambiente retrógrado; à noite se transmuta e vive um outro mundo da fantasia, o de Sara, a mulher que mora dentro dele. Tema polêmico no atual governo brasileiro, que divide as pessoas por sexo e não gêneros, numa míope percepção de uma prática anacrônica de ideias e imposições ultrapassadas. Muritiba coloca com sutileza a empatia e pede tolerância no improvável relacionamento amoroso de duas pessoas antagônicas, mas com capacidade de mudança pela transformação em suas vidas distintas.

O cineasta não é engajado na causa gay, também não faz apologia de relacionamentos típicos como centro de uma proposta "homo", "bi" e "hétero", embora pregue o amor, ainda que o desfecho seja previsível, deixa a desejar como uma obra mais reflexiva, e talvez, devesse ser mais comprometida com uma análise mais aprofundada. Porém, Deserto Particular traz no seu propósito principal a transformação interior das pessoas diante dos medos e anseios na vida com as conexões e experiências acumuladas no tempo, onde o amor transgride e a mudança interior é o elemento buscado diariamente nos encontros inesperados que aproximam emoções. Aponta para um sistema atrasado fruto da violência pertinente com situações tóxicas contrastando com o afeto e o carinho dos excluídos nesta espiral de sofrimento de vidas infelizes. Dá asas a imaginação para as escolhas dos indivíduos que lutam para serem livres de suas prisões ao almejarem uma felicidade distante e quase que utópica neste contexto.

Eis um sensível drama universal das relações humanas de um mundo melhor nos paradoxos da existência com os conflitos interiores que passam a conviver com os fantasmas que dilaceram almas. Inevitáveis os rumos diferentes tomados pelos protagonistas, mas na realidade nunca se afastam totalmente, pois o vínculo improvável da união é mantido nesta metamorfose. Há uma realidade de idas e vindas, construção e rompimento dos personagens e suas peculiaridades que refletem um misto de inconsciência e dúvida aparentes surgidas na trama, mas a convicção pela transformação é inegável. Inexistem facilidades demagógicas para problemas complexos como a força do desejo sendo mais forte do que os laços de amor e de amizade. Uma luz lançada para a aceitação de como são os indivíduos pelas suas criações e educações familiares, tanto na esfera hétero como as advindas do universo LGBTQIA+, na qual o amor modifica vidas e liberta as pessoas. Uma interessante abordagem sobre as diversidades sociais e culturais na busca de um futuro mais tolerante e menos opressivo com as diferenças.