sexta-feira, 13 de março de 2020

Você Não Estava Aqui



Ética e Dignidade

Defensor ferrenho e inarredável das causas sociais em que estão envolvidas quase sempre as classes operárias oprimidas e pisoteadas pelo sistema, o diretor inglês Ken Loach, de 83 anos, nada mais é do que um humanista por natureza, e pelo seu penúltimo longa-metragem, Eu, Daniel Blake (2016), ganhou pela segunda vez a Palma de Ouro. Fez um retrato crítico e fiel sobre o controverso sistema previdenciário da Grã-Bretanha estampado como poderosa denúncia de impasse burocrático naquele fabuloso drama social sobre a perversa reforma com mudanças radicais na Previdência Social. O título foi mais uma parceria com o roteirista indiano Paul Laverty, com quem realizara A Canção de Carla (1996), O Meu Nome é Joe (1998), Ventos da Liberdade (2006), À Procura de Eric (2009), entre tantas realizações da bem-sucedida e inseparável dupla. Anteriormente, já havia arrebatado o troféu em 2006 com Ventos da Liberdade, em Cannes.

Em uma espécie de continuidade do filme anterior, Loach está de volta com este magnífico Você Não Estava Aqui, novamente escrito por Laverty, para abordar o tema da moda: o empreendedorismo. Mas nem tudo soa como algo positivo, pois se escancara a falácia da servidão pelo falso milagre do negócio próprio como solução para o desemprego no mundo capitalista. São debatidas situações pouco divulgadas como a capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos e serviços. A iniciativa de implementar novos negócios ou mudanças com alterações na rotina do empregado envolvem inovação e risco. Os conflitos históricos e opostos entre direita e esquerda como os princípios inerentes de divergências que irão ao encontro indubitavelmente do serviço e sua importância como meio de sustento e pilar basilar de sustentação do ser humano. A valoração moral e ética estão colocadas em xeque no drama humanista do realizador sobre o trabalho que deve dignificar o homem e não humilhá-lo como forma de destruição dos alicerces do microcosmo familiar.

A obra aponta que a informalidade não traz a recompensa prometida, e aos poucos os membros familiares entram em choque e passam a ser jogados uns contra os outros, numa catártica situação em que o cotidiano das pequenas coisas irá demonstrar pela ausência e solidão dos personagens em frangalhos focados pelas contingências da conjuntura caótica predominante. A trama é ambientada em Newcastle, norte da Inglaterra, quando o pai, Ricky Turner (Kris Hitchen), após ter passagens pela construção civil e jardinagem, resolve ser patrão de si mesmo e diante da circunstância financeira precária, decide adquirir uma van, na intenção de trabalhar com entregas de grandes empresas do comércio digital, aceitando não ter a carteira de trabalho assinada. Abdica do plano de saúde, folgas semanais, férias, horas extras, seguro e demais direitos trabalhistas legais. Assina um contrato em que se compromete a ser multado caso não cumpra com os horários preestabelecidos, pois o que interessa é “a satisfação do cliente”, alerta o rigoroso gerente Maloney (Ross Brewster). Para adquirir o veículo que fará as entregas, acaba vendendo o automóvel, que era utilizado pela esposa, Abby (Debbie Honeywood), nos deslocamentos como cuidadora profissional para atender idosos e doentes em locais distantes da residência.

A narrativa em tom naturalista pela espontaneidade de puro realismo dramático causa indignação e constrangimento no espectador atento às coisas do cotidiano na triste saga dos pais lutadores pela dignidade e sustento dos filhos: o adolescente rebelde, Sebastian (Rhys Stone) e a meiga pré-adolescente, Liza Jane (Katie Proctor). Com a ausência dos pais, o garoto passa a cometer pequenos furtos, brigas constantes na escola, com pichações em muros, até ser suspenso pelo diretor da instituição de ensino. Já a menina tem problemas para dormir, começa a sofrer de incontinência urinária, embora tente estabelecer um elo de vínculos e aproximações entre o pai e o irmão que partem para as vias de fato, acaba errando no método, tudo sob a supervisão da mãe conciliadora e dedicada, mas submissa por vezes. São causas e efeitos do desemprego batendo à porta diante da precarização do trabalho e os resultados pragmáticos e sub-humanos da “uberização”, em que o autônomo leva o pomposo nome de empreendedor franqueado. Ricky recebe uma garrafa de plástico para urinar e um bipe dispara, caso ele se afastar por mais de dois minutos do veículo, pois é monitorado pelo contratante por sofisticados programas computadorizados. Também não pode ausentar-se do trabalho para resolver problemas graves na família, exceto se deixar um motorista entregador em seu lugar, sob pena de ser multado e perder ainda as melhores rotas.

O veterano Loach demonstra vigor na condução da sua realização, embora sombria e sem grandes perspectivas para um olhar mais promissor nas relações trabalhistas futuras, nesta temática universal abordada com sensibilidade sobre a intensidade da correria do dia a dia para o sustento. As imagens do epílogo inusitado são apropriadas e desmistificadoras na tela. Cada vez mais as coisas se complicam e a explosão de raiva do filho pela passividade do pai que não reivindica seus direitos e se submete às humilhações são reveladoras da raiva contida contra o sistema vigente de demonização do trabalhador e a ruptura marcante e devastadora no núcleo familiar. Habilmente o cineasta conduz o drama com contornos de inverossimilhança pelas circunstâncias apresentadas. Você Não Estava Aqui apresenta conjunções não resolvidas colocadas como um libelo ao poder econômico pela discriminação de quem depende da oportunidade de emprego num clímax de tensão que cresce e mergulha no desespero da perda iminente da dignidade ao se encaminhar para um desfecho insolúvel.

Cria-se com extrema magia cinematográfica um doloroso painel de improbabilidades, sem fazer concessões aos envolvidos, com contundência pelas cenas de uma realidade amarga das vicissitudes advindas da causa pela sobrevivência. Há uma construção rica de elementos dentro de um roteiro enxuto e direto sem retóricas, afastando as grandes armadilhas que poderiam levar para uma história apelativa. Um drama intenso sobre a perversidade que enobrece o cinema, através de um enredo emocionante sobre os dissabores dos agentes honestos e com fibra, leva para o desequilíbrio dos que têm menos poder de reivindicação na sociedade. O conflito é fruto de um sistema instável e selvagem que vira as costas para os menos favorecidos quando estes precisam, para lançar um olhar reflexivo, através de tintas fortes e marcantes sobre os poucos aquinhoados. Um filme eloquente sobre a ausência de dignidade e ética pelas nefastas manchas por condutas reprováveis e desumanas, como assevera o gerente ao corrigir o futuro franqueado: “Contratação não, você se torna nosso colaborador”.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Dois Papas



Bastidores do Vaticano

Depois de Cidade de Deus (2002), O Jardineiro Fiel (2005), Ensaio Sobre a Cegueira (2008) e 360 (2012), o festejado cineasta brasileiro Fernando Meirelles está de volta com o drama Dois Papas, que irá fazer parte de sua respeitável filmografia. Um projeto ambicioso em uma coprodução do Reino Unido, Itália, Argentina e EUA, bancada pela Netflix. Não chega a causar temor no Vaticano, ao realizar uma obra sobre os bastidores da cúpula do Catolicismo, assim como ocorreu com Nanni Moretti no contundente Habemus Papam (2011), uma criação com ironia fina na eleição papal; ou na sátira à igreja através de um complicado padre da periferia de Roma em A Missa Acabou (1985). O roteiro dinâmico e abrangente de Anthony McCarten (de A Teoria de Tudo e O Destino de Uma Nação) tem respaldo na sua experiência para dar vida aos diálogos ferinos dos protagonistas, em tom sutil com refinada finesse de humor em situações tensas e difíceis sendo respaldadas por conversas e olhares reveladores do cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce- excelente atuação e uma semelhança física incrível) com o papa Bento XVI (Anthony Hopkins- de atuação magistral e irretocável).

O longa-metragem retrata a insatisfação do jesuíta humilde Bergoglio, que viria a se tornar o papa pop Francisco que assovia Dancing Queen, do grupo musical Abba, mas antes estava decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre a forma como o litúrgico alemão Joseph Ratzinger - eleito em 2005 como Papa Bento XVI, após a morte de João Paulo II- vinha conduzindo a Igreja com extremo conservadorismo. Com a passagem já comprada para Roma, o argentino é surpreendido com o convite do próprio papa para visitá-lo. Em uma conversa pouco amistosa, iniciam um duelo áspero de pensamentos para debaterem não apenas os rumos do catolicismo, mas o passado e o presente que os envolvem para vislumbrarem novos horizontes que os fiéis tanto aguardam. Abordam algumas peculiaridades da personalidade de cada um, embora haja ausência no roteiro da polêmica participação na Juventude de Hitler durante a adolescência de Ratzinger. Porém, a juventude de Bertoglio em Buenos Aires foi dissecada, inclusive que estava prestes a se casar, tendo abandonado a noiva em nome da religião, bem como sua omissão no período da Ditadura Militar na Argentina, deixando alguns padres em maus lençóis e entregues aos governantes do período de anos de chumbo, acaba por fazer uma sincera autocrítica com direito ao arrependimento.

Além da abordagem que passa pelas eleições realizadas entre os cardeais, o drama foca os santos padres e suas hesitações em manifestarem-se para os fiéis que o esperam na Praça de São Pedro. Meirelles conduz com elegância as angústias e diferenças de ideias entre os dois e lança uma hipótese provocativa, ou seja, caso vacilassem e desistissem da missão de Deus de conduzirem os homens na terra, como seria o futuro e a fé dos cristãos? O filme retrata homens falíveis. Francisco demonstra ser uma pessoa angustiada com um novo desafio pela frente, pensa em abandonar a posição de cardeal e retornar para sua cidade natal, para refazer suas reflexões diante dos destinos que a Igreja adota, como não se aprofundar nas denúncias dos reiterados assédios e das repetidas acusações de pedofilia. Demonstra grande insatisfação com o escândalo dos documentos confidenciais vazados antes da estrondosa renúncia de Bento XVI. A aflição dogmática pela conjuntura da engrenagem no Vaticano deixa o intenso cardeal argentino preocupado com os destinos futuros do catolicismo. Em um dos diálogos faz críticas à própria Igreja ao alfinetar: “Nada é estático na natureza, nem mesmo Deus”. Também arremata em tom de desabafo ao indagar: “Jesus construiu muros?”

A leveza das discussões cômicas se justificam nos bastidores entre os protagonistas e soam como um período de transição para o comunicado da renúncia que viria impactar o mundo e em especial os católicos. Ao juntar-se com os mortais pelas ruas, Francisco demonstra sua proximidade com as comunidades carentes na periferia de Buenos Aires simbolizando a América Latina pobre contrapondo com a riqueza e a ostentação da Europa. Reflete a informalidade dos latinos pela acessibilidade, descontração e a paixão pelo tango e o futebol, identificado como torcedor fanático do clube argentino San Lourenzo de Almagro. Mas a crise estabelecida no Vaticano o leva para os caminhos que parecem encurtar e jogá-lo num labirinto de dúvidas e barreiras instransponíveis, que sequer imaginava, vem à tona e o coloca de frente com uma realidade obscura e complexa de um futuro incerto e cheio de antagonismos. Agora como Papa terá que enfrentar os fiéis, quando chegar a hora de falar e levar uma palavra de devoção e religiosidade àqueles que o esperam ansiosos, além da imprensa faminta por informações e sequiosa de uma publicação nas páginas dos jornais e revelar a identidade do eleito. Tudo é muito rápido na vida dele e o grande momento lhe aguarda. O mundo parou para vê-lo, a fumaça branca chegou nas chaminés, porém sua convicção pela modernidade será testada no posto máximo.

François Ozon, no arrebatador drama Graças a Deus (2019), muito bem demonstrou na corrosiva denúncia diante de uma suposta intransigência deturpadora e inverossímil entre os destinos do clero católico, onde as soluções pragmáticas são colocadas para mascarar escândalos como a estúpida pedofilia que paira nos subterrâneos das igrejas por conta da hipocrisia e o medo do escândalo religioso sobre a irracionalidade bestial. Meirelles opta pela sutileza em tom de humor cáustico sobre o encontro dos papas, para retratar a crença e a coragem como demonstrações que não podem faltar pelos aficionados cristãos. Apesar do final de enganosa aparência politicamente correta, aponta e fustiga as diferenças entre os dois personagens centrais retratados e simbolizados como o novo e o ultrapassado. São os compromissos e convicções pessoais que se chocam com as atitudes da simplicidade de um que é adepto à abertura do diálogo próspero indo de encontro à pompa autoritária em consonância com a política interna seguida pelo outro, que defende ardorosamente ideias conservadoras reveladas pela inaptidão e falta de habilidade para conduzir situações do cotidiano. Transparece ao espectador o conflito de ideologias pelo ideal da fé religiosa manifestada como demonstração fragilizada e decadente da Igreja Católica neste agradável drama humanista de princípios opostos.

terça-feira, 3 de março de 2020

Democracia em Vertigem



Perigoso Retrocesso

A cineasta mineira Petra Costa é neta do fundador de uma grande construtora brasileira envolvida na Lava-Jato. Portanto, é uma mulher rica, que lhe legitima abordar por seu ângulo a crise da nação brasileira no documentário Democracia em Vertigem. Narrado em off, num tom sombrio, entediado e pessimista com o destino das fragilidades democráticas que cercam o País. As peripécias que passam o povo e o seu futuro incerto são carregados pela subjetividade ao colocar em lados opostos membros da própria família, em que seus avós defendem a extrema-direita contrapondo com os pais ativistas de esquerda, num relato sincero e destemido sobre os rachas existentes no âmbito familiar. A mãe da realizadora, uma militante presa pela ditadura, é uma das personagens no encontro com a ex-presidente Dilma Rousseff, nos tensos momentos da queda pelo processo de impeachment, atribuído como golpe das forças conservadoras e o auxílio prestimoso do ex-presidente Michel Temer, à época então vice-presidente. Há a inserção de vários discursos de políticos renomados, onde são enumerados vários fatos com imagens reveladoras para provocar o espectador a tomar uma posição sobre os acontecimentos históricos quer marcaram a transição dentro do governo.

Petra vem precedida dos prêmios de melhor documentário pelo júri popular, melhor direção, montagem e arte no 45º. Festival de Brasília de 2012, menções especiais no Festival Internacional de Guadalajara e no Festival de ZangrebDox, com seu festejado longa de estreia, Elena (2012). O documentário foi uma grata surpresa no aspecto da beleza estética formal que refletiu a preocupação do cinema autoral, sobre a memória reconstruída pela diretora que aos 7 anos viveu um grande drama pessoal com a morte prematura de sua irmã mais velha, de apenas 20 anos, em Nova Iorque, ao seguir o sonho convulsivo que poderia tornar-se realidade em ser atriz, tal qual sua mãe imaginava contracenar com Frank Sinatra. Deixou no Brasil uma infância vivida na clandestinidade, devido à Ditadura Militar implantada naqueles repressivos duros anos de chumbo. Duas décadas depois, embarcou também para os EUA atrás da irmã, tendo como pistas apenas algumas cartas, diários e filmes caseiros, com imagens que se fundiam com as palavras mencionadas em formato poético sobre a perda e o luto de um inventário realizado para exorcizar um passado. São relatos de dor e a tristeza numa realização melancólica de nunca mais poder ver e ter em seu convívio aquela moça sonhadora, de uma vontade louca pelo estrelato, que se desilude, deixando a morte a levar por uma composição de remédios e álcool.

Democracia em Vertigem é um interessante documentário em uma estrutura contado na primeira pessoa, sem ser definitivo e nem cair em recorrentes obviedades, retrata não tão somente o impeachment de Dilma por não ser o foco central, mas os caminhos da intrincada política brasileira, em que o protagonista é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, retratado na cena de abertura e ganhando destaque no desfecho. A documentarista aborda os primeiros passos da trajetória política desde sua iniciação como metalúrgico e presidente do sindicato no ABC paulista até sua prisão pelas acusações decorrentes do envolvimento na operação Lava-Jato. Torna-se o líder sindical que simbolizou a ascensão da classe trabalhadora até chegar à Presidência da República, bem como as alianças nefastas que o levaram ao poder e a consequente condenação. O filme é pontilhado por passagens políticas de figuras proeminentes como Aécio Neves, Eduardo Cunha, Juscelino Kubitschek e o papel preponderante das redes sociais na eleição de Jair Bolsonaro. Embora tenha uma linha própria em sua estética, há similitude em conteúdo com os documentários nacionais: Santiago (2007), de João Moreira Salles; Diário de Uma Busca (2010), de Flávia Castro; ou ainda em Uma Longa Viagem (2011), de Lúcia Murat.

No filme intimista anterior, Elena, a realizadora não deixou escapar a política brasileira nos anos de 1980 e sua geração que abandonou o país na ânsia da liberdade à procura de novas oportunidades. Enfatizou os elementos psicológicos bem caracterizadores e envolventes que registravam com rara qualidade uma obra marcante no cenário nacional. Agora com Democracia em Vertigem lança um olhar de preocupação e angústia com as iminentes fragilidades de nosso sistema político corroído por um conservadorismo galopante que pode desconstruir e levar ao retrocesso institucional a tão combalida democracia brasileira. Petra faz uma leitura bem pessoal das últimas décadas, como na cena de seu aniversário em 1984, período marcante pelas “Diretas Já”, no célebre movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais com a votação da proposta de Dante de Oliveira na Emenda Constitucional pelo Congresso.

O documentário não é conclusivo sobre os rumos da política brasileira, embora seja uma proposta com tintas ambiciosas sobre a grande engrenagem que envolve os meandros intrínsecos e extrínsecos que norteiam o destino do Brasil como um Estado democrático. O respaldo por uma sustentação sólida na abordagem socioeconômica, deixa com clarividência as fragilidades preocupantes que rondam este painel difuso. O próprio partido do PT sofre críticas bem consideráveis na sua essência, pela diretora, nos lampejos de imparcialidade cobra uma autocrítica dos membros do partido. O filme não é folhetinesco como apregoa a parcela conservadora, embora haja a identificação pelo engajamento, ao optar pela não isenção. Também não se filia contrário à causa das minorias de classe. Há uma preocupação da cineasta em tentar sempre colocar imagens dos dois lados nas manifestações e passeatas, tanto a favor quanto contrárias aos governos petistas. Eis um relato significativo e relevante por seu aspecto histórico de um convalescente regime que verga da democracia para o perigoso estado de exceção sob o manto do autoritarismo. Fica o alerta para a necessária reforma política ampla em detrimento de candidatos demagogos e suas promessas vazias reiteradas na história das eleições como reflexão do passado e do presente de uma nação moribunda institucionalmente.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Farol



Tragédia Grega

O jovem cineasta norte-americano Robert Eggers fez sucesso com seu filme de estreia, A Bruxa (2015), ao vencer o Festival de Sundance. Um longa de pós-terror realizado para não causar sustos e sim impactar a plateia em situações perigosas com certo requinte de maldade, com ambientação na região da Nova Inglaterra, na década de 1630. Lá, um casal levava uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por divergência de fé da permitida pelas autoridades. A família foi morar num local isolado, nas proximidades de um bosque, sofrendo com a escassez de comida. Porém, num certo dia, o bebê recém-nascido desaparece misteriosamente sem deixar rastros. Ficaram latentes muitos questionamentos aos pais: a criança teria sido devorada por um lobo ou sequestrada por uma suposta bruxa oriunda da floresta, como rezava a lenda. O realizador focou as respostas nos membros familiares, enquanto estes buscavam alguma explicação verossímil, enfrentavam todo tipo dos piores medos inerentes no ser humano e de seus lados mais abomináveis possíveis.

Eggers retoma a ficção na mesma Nova Inglaterra com O Farol, porém agora foi ambientado no início dos anos 1880, em uma ilha na costa do Maine nos EUA. A história é centrada em Thomas Wake (Willem Dafoe), responsável por zelar com tenacidade o farol de uma ilhota isolada no fim do mundo entre as rochas. Vive com ausência total de comunicação e distante da civilização. É o típico capitão bêbado, frustrado e agressivo, que se tranca dentro do local de trabalho com seus segredos, à noite, completamente nu, emite alguns gemidos de prazer, abusa da flatulência em suas noitadas pós-porres homéricos. O outro zelador é o novato Ephraim Winslow (Robert Pattinson), que veio para substituir o ajudante anterior e colaborar nas árduas tarefas diárias de uma jornada dura, cansativa e de muito esforço físico. Visivelmente explorado pelo chefe, também esconde alguns enigmas do passado e ostenta um suposto comportamento estável, embora seus limites sejam desafiados ao extremo.

Uma narrativa repleta de sugestões de violência e erotismo hétero e homossexual, pois o enredo vai deixando dúvidas sobre aqueles dois homens à beira da loucura, com a lucidez se esvaindo cada vez mais. Presume-se que logo um matará o outro, tendo em vista os abusos e o descontrole insano advindos do isolamento humano devastador que cresce geometricamente. Por vezes, dançam bêbados e quase se beijam, insinuando uma relação sexual à flor da pele. Em meio aos distúrbios comportamentais, surgem os delírios da solidão alicerçados pela loucura que encontram guarida na erotização com a sereia que encanta o personagem jovem com suavidade e doçura para magnetizar os ouvidos e a percepção sensorial do rapaz já cansado das mentiras das histórias do antigo marinheiro. Tudo gira para a compleição física e o contato no cotidiano, principalmente pelas recorrentes brigas, quase sempre decorrentes de bebedeiras noturnas após os estafantes trabalhos forçados. O cenário é exageradamente escatológico naquele local fétido como uma pocilga abarrotado pelas fezes, urinas, sangues, vômitos e espermas das masturbações memoráveis dos personagens com o ar infestado de gases flatulentos.

Um retrato de dois homens em estado de choque e em rota de colisão. O auxiliar de faroleiro que quer ganhar muito dinheiro fácil ali, está obstinado para conhecer a magia do acesso intransponível ao fálico farol ereto, na metáfora do símbolo do poder gerador da natureza carregada nos antigos festivais em honra a Dioniso, mantido hermeticamente fechado, o que faz aguçar sua curiosidade daquela misteriosa lanterna naquele recinto privado. Os fenômenos estranhos da natureza começam a pulular ao seu redor. Como na cena em que o personagem estraçalha uma gaivota para deixar fluir sua raiva e indignação catártica do cenário claustrofóbico sem saída, diante das tempestades de chuva e vento e a impossibilidade de apanhar um barco e ir buscar a liberdade no mar revolto e assustador. O contexto conduz para a teoria da loucura e a neurose em estado de ebulição de homens amalucados pela ausência da sociedade e dos vínculos rompidos da distante civilização. A intensa realização vai do silêncio para os longos diálogos exacerbados por acusações e delírios etílicos de personagens oprimidos pelas circunstâncias do imaginário e os motivos que ainda restam do sentido da existência humana.

O Farol é um filme rodado num formato de tela quadrada, com uma clássica fotografia em preto e branco, contrastada numa textura antiga de predominância em tom escuro. Tem o marcante uivo atordoante da sirene pela ressonância melancólica que inebria e registra as peripécias dos personagens perturbados pela desolação e seus flertes com o imponderável, advindos da induzida falta de lucidez que se esboroa. Mas a natureza invadida se vinga do homem no desfecho, quando os pássaros entram em ação para comer a carne que deverá ser regenerada como na mitologia dos gregos que ensina sobre Prometeu sendo punido ao ter seu fígado comido pelas águias para eternizar a tortura por ter roubado o fogo dos deuses. O realizador cria um clima hostil e pouco saudável, misturando o realismo com o imaginário, num exercício mental delirante, claustrofóbico, escatológico e tresloucado dos limites propostos da ficção para um tensionado e abrangente drama mesclado com suspense que deriva para a tragédia grega. Os insultos fulminantes atingem o alvo que está carregado de um ódio destroçante que soa como uma antecipação alegórica do flagelo anunciado prestes a explodir. São sinalizações indicadas ao espectador numa linguagem de cinema num panorama excessivamente teatral para os espaços ambientados do imóvel rodeado por gaivotas, o mar pouco amistoso, a sereia e as lendas contadas pelo marujo decrépito. Embora haja equívocos de um roteiro pelos excessos verborrágicos e nauseosos, não invalida a obra de méritos inquestionáveis e reflexivos.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Aqueles Que Ficaram



As Perdas

O ano começa em grande estilo com a chegada de Aqueles Que Ficaram, digno representante da Hungria entre os 10 pré-finalistas do Oscar de melhor filme internacional de 2020. Com direção e roteiro do promissor Barnabás Tóth, um cineasta de 42 anos, que teve sua carreira de ator e diretor voltada para seriados de televisão, documentários e vários curtas, faz sua estreia em longa-metragem com este magnífico melodrama ambientado em 1948, após o fim da Segunda Guerra Mundial. A narrativa é desenvolvida com um rigor formal, que nos lembra os grandes clássicos do cinema para contar a história de dois sobreviventes do Holocausto, que tentam a reconstrução de suas vidas pela magia do amor. Uma realização marcante que teve inspiração no romance de Zsuzsa F. Várkony, instiga para causar uma admirável sintonia com o espectador, através de uma abordagem direta e sem grandes artifícios pirotécnicos, ao enfocar de maneira criativa e sensível fatos terríveis de conflitos que deixaram traumas inesquecíveis em Budapeste.

Um filme singular do pós- guerra com uma beleza estética fascinante, tanto na direção de arte como na linda fotografia, amparado por um elenco enxuto e irretocável, tendo no casal de protagonistas interpretações convincentes e sem reparos. Há muitas similitudes da temática equivalente com o recente drama russo Uma Mulher Alta (2019), do diretor Kantemir Balagov, que retravava sua trama em duas jovens mulheres que buscavam novas vidas com alguma esperança e um certo significado para continuarem vivendo em meio às lembranças do passado deixadas em seu país como cicatrizes abertas, na sitiada Leningrado, um dos cercos mais aterrorizantes da história mundial. Balagov enfatizava a recomposição perseguida pelas personagens que passaram por momentos de grande tensão, dor e tristeza, advindas das sequelas pelas mortes decorrentes das perdas irreparáveis. Tóth segue o mesmo caminho para conduzir seus personagens na tentativa melancólica da busca do sentido da vida após as tragédias familiares deixadas como legados. A instabilidade emocional tem um clima de angústia e indecisão nos sentimentos aflorados que irão oscilar entre a ternura e o ciúme nos embates reveladores sendo decifrados no desenrolar da história.

Aqueles Que Ficaram é focado em meio ao fim da guerra, no qual Aldo (Károly Hajduk), um ginecologista de 42 anos irá conhecer Klara (Abigél Szõke), uma adolescente de 16 anos numa consulta no orfanato acompanhada da tia-avó, sua tutora. Ele perdeu a esposa e as filhas; ela teve o pai preso, sendo que a mãe e a irmã mais nova morreram nos conflitos bélicos. A realização não descamba para o dramalhão barato e recorrente em obras pouco imaginativas, deixando a leveza e a sensibilidade fisgarem a plateia na relação idílica improvável. O panorama estreito entre os dois se apoia no vínculo da solidariedade mútua numa relação entre pai e filha para mudar o destino deles. Embora, por vezes, haja alguns fatores que possam levar para cruzar a tênue linha divisória do amor fraternal para o de um homem e uma mulher com as libidos emergidas, como nas cenas em que dividem a mesma cama na casa do médico, após a fuga da jovem da residência de sua tutora. Tóth conduz com extrema habilidade o enredo, sem cair nas armadilhas do velho clichê da exposição casual num clímax propício, driblando com méritos o magnetismo da atração fatal pelos impulsos sexuais decorrentes dos instintos vitais do comportamento humano.

Uma obra que contém a delicadeza em consonância com a sutileza e a harmonia dos encontros de olhares de apegos enciumados de ambos para com os novos parceiros que se incorporaram no desfecho da trama. É reveladora e bem retratada a cena do epílogo, no salto do roteiro para três anos adiante, ao demonstrar as tristezas e os relatos sombrios que deveriam ter ficado para trás, mas que ainda assombram e registram o passado atormentador dos dois protagonistas aniquilados pelos fantasmas intermitentes e infinitos que rondam suas memórias destroçadas pela guerra. Um filme que mantém uma remanescente poesia da vida dentro de um contexto melancólico de recordações infortunadas de um tempo pretérito aterrador. O drama celebra as perdas com contundência irônica e sem desfaçatez e reverencia a dor universal através do luto dos personagens centrais. São as imagem assustadoras que acompanham os sobreviventes que sofrem mais que os familiares mortos ou presos, como enfatiza a garota no desabafo entristecido no prólogo da realização.

Eis um retrato contundente sobre as vítimas do genocídio da guerra, sendo que Klara ainda guarda no fundo do coração e da alma uma escassa esperança do retorno de um dos familiares perdidos nos campos de concentração. Mas os efeitos do fim de uma guerra histórica deixam as marcas indeléveis que irão perdurar para sempre neste relato silencioso, com desdobramentos de um resgatador sopro de luz para um novo horizonte nas novas famílias que se formarão naquele painel de sofrimento que parece não querer parar. A cena de pessoas buscadas à força em suas casas por delações de compatriotas esmaga os sentimentos humanos das vidas inocentes sendo ceifadas numa realidade repulsiva. Porém, os novos elementos redentores irão surgir como pacificadores para um novo olhar da humanidade dentro de um panorama opressivo que não cai na caricatura fácil e nem no maniqueísmo de algumas realizações pífias. Aqueles Que Ficaram soa como um poema amargo com transição para reconstruções de vidas que acreditam no amor como forma de libertação. É o alento da tentativa de burlar o mistério da morte encravada para uma nova chance de viver, embora eternamente atormentados pela partida precoce dos entes queridos da família, diante da constante capacidade de sobrevivência para reflexão nesta fabulosa obra húngara.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2019)



Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Como é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos em 2019, também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05  Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Parasita, de Bong Joon-ho (foto acima);

02. Assunto de Família, de Hirokasu Kore-eda;

03. Dogman, de Matteo Garrone;

04. Era Uma Vez em…Hollywood, de Quentin Tarantino;

05. A Vida Invisível, de Karim Aïnouz;

06. Graças a Deus, de François Ozon;

07. O Bar Luva Dourada, de Fatih Akin;

08. Uma Mulher Alta, de Kantemir Balagov;

09. Em Trânsito, de Christian Petzold;

10. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.


Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

- Varda por Agnès, de Agnès Varda;
- A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan;
- Guerra Fria, Pawel Pawlikowski;
- Vermelho Sol, de Benjamin Naishtat;
- Yomeddine- Em Busca de um Lar, de Abu Bakr Shawky.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Uma Mulher Alta



Vidas Reconstruídas

Vem da Rússia o instigante Uma Mulher Alta, do jovem diretor, roteirista e montador Kantemir Balagov, de apenas 30 anos, em seu segundo longa-metragem, antes realizara Tesnota (2018). Está credenciado pelos prêmios de melhor direção e prêmio da crítica na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2019. Este é um daqueles filmes marcantes, que causa uma ótima impressão pela abordagem direta e sem grandes artifícios pirotécnicos, ao enfocar de maneira criativa e sensível fatos tristes na massacrada cidade de Leningrado, em 1945, decorrentes do término da Segunda Guerra Mundial. Principalmente pelo rigor formal da narrativa, nos lembra os grandes clássicos cinematográficos. Foi inspirado livremente no romance A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da vencedora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch.

Um drama de guerra magistral com uma beleza estética rara, tanto na direção de arte como na linda fotografia, amparado por um elenco coeso, tendo nas estreantes atrizes protagonistas interpretações irretocáveis. Há alguma similitude de uma temática equivalente no filme Uma Casa com Torre (2012), da ucraniana Eva Neymann. Balagov retrata a história centralizando a trama em Iya (Viktoria Miroshnichenko- de sóbria atuação, não se destacou somente pela altura) e Masha (Vasilisa Perelygina- soberba em seu papel), duas jovens mulheres que buscam uma nova vida com alguma esperança e um certo significado para continuarem vivendo em meio às lembranças do passado deixadas em seu país como cicatrizes abertas. Depois que a sitiada Leningrado, um dos cercos mais aterrorizantes da história mundial, chegou ao fim, a reconstrução perseguida pelas personagens centrais passa por momentos de grande tensão, dor, tristeza, advindas das mortes e dos traumas decorrentes das perdas. É a tentativa desesperada pelo sentido da vida após as tragédias que as inglórias batalhas deixaram como legados. Não à toa, a instabilidade emocional das duas mulheres tem um clima de angústia e indecisões nos sentimentos que irão oscilar entre ternura e raiva, afeto e vingança, em embates reveladores para o espectador.

O promissor cineasta coloca com admirável delicadeza os efeitos do fim de uma guerra histórica, porém as marcas indeléveis que ela deixa irão perdurar para sempre. Os silêncios marcantes de várias cenas são estímulos à reflexão desta narrativa melancólica, com desdobramentos de um resgatador sopro de luz das personagens femininas para um novo horizonte de liberdade, com o intuito de quebrar o pessimismo oriundo do domínio machista envolvido nos destinos belicistas. Magnífica a cena em que a mãe de Sasha (Igor Shirokov), o rapaz que quer namorar Masha, habilmente tenta proteger a pretensa nora, nos ásperos diálogos frios entre elas, alertando sobre o que é ser vítima de homens dominadores que devastam suas companheiras em um cenário estúpido, diante da submissão da mulher e o seu papel de inferioridade naquela sociedade aristocrática e fútil, simbolizada pela majestosa mansão. A procura da sobrevivência está em jogo e os traumas são intermináveis pelo despropósito aterrador que danifica e esmaga os sentimentos humanos de vidas inocentes sendo ceifadas. Os horrores das batalhas causam marcas implacáveis e doloridas para os soldados sequelados, como na cena do reencontro da família com o herói mutilado que precisa ser sacrificado diante da falta de condições financeiras da esposa para ajudar o marido, em que a eutanásia é o paradoxal destino menos cruel, tendo em vista que há um filho pequeno a ser sustentado na realidade sombria.

Uma Mulher Alta retrata os efeitos dos combates num cenário de intensa nevasca, em que as tragédias se sucedem, tais como a enfermeira voluntária que mora em um hospital militar para ajudar os veteranos mutilados, tem uma paralisia catatônica que se manifesta em qualquer ocasião, carrega o trauma psicológico pela morte do filho da melhor amiga, em que era guardiã. São mostradas as sobras de guerra, como se pessoas fossem animais sem importância, diante da falta de melhores cuidados para os sobreviventes. Há uma carência afetiva de um calor humano praticamente ausente naquele ambiente horripilante, embora se possa compreender pelo contato diário com vítimas destroçadas, jogadas e amontoadas no que restou daquela situação em um país convalescente pelas perdas do extermínio banalizado advindo dos campos de atrocidades com referência pelo descaso às vidas. Mas há uma busca de um futuro melhor nos sentimentos, ternuras e tristezas entre as protagonistas desesperançadas rumo ao céu ou o inferno que querem deixar para trás aquela herança maldita. A obsessiva intransigência de uma delas para ter um filho a qualquer preço, no início soa como vingança, traição e culpa, mas com o desenrolar da história novos elementos redentores irão surgir como pacificadores de um novo olhar da humanidade.

O diretor acerta a mão em cheio na aproximação das jovens em suas trajetórias por novos caminhos num país em ruínas evidentes, dentro de um panorama angustiante que não cai na caricatura fácil e nem no maniqueísmo contumaz de algumas realizações pouco consistentes. Balagov dá uma aula de sutileza e sensibilidade ao demonstrar os efeitos nefastos de uma guerra com seus registros marcantes pelos vestígios permanentes de pouca perspectiva de recuperação. Tanto no cenário desolador do hospital simbolizando vidas destruídas ainda existentes, porém apáticas, bem como na pequena esperança daquelas criaturas agoniadas pelo tédio da amargura do passado, exceto as duas guerreiras imbuídas de algumas fibras para sobreviverem dignamente. Um grande amor é lançado das sombras de um tenebroso conflito com seus efeitos destruidores que irrompe como um vulcão adormecido naquele demarcado espaço machista, hostil e acachapante. É a busca do significado da existência remanescente de novos horizontes renascendo que irão aflorar para seguir em frente nos seus sonhos iluminados como um afago do destino. Até então muito duro e cruel, dando licença para uma reviravolta de um poema amargo com transição para um gosto mais palatável pela doçura explosiva catártica da paixão, afastando a dor latente adormecida das rupturas do sistema. Eis um fabuloso drama de reconstruções de vidas profundamente humanista, que se insere entre os melhores lançamentos do ano.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A Resistência de Inga



O Monopólio

O drama A Ovelha Negra (2015), do diretor islandês Grímur Hákonarson, venceu a Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, em 2015, e foi indicado para representar a Islândia no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. Retratava de forma comovente a relação estremecida de dois irmãos septuagenários, que não se falavam por 40 anos, correspondiam-se por mensagens em bilhetes escritos à mão, sendo levados ao destino por um cachorro, uma espécie de pombo-correio. Surge uma violenta determinação do governo para a eliminação de todo o rebanho de ovinos da família, após ser constatada uma doença contagiosa nas respectivas fazendas deles e de alguns vizinhos criadores da espécie, onde a população de ovelhas é maior que a dos seres humanos. Num relato comovente do modo de sobrevivência de um povo, que sugeria e remetia para uma alegoria daquele país decorrente da avassaladora crise financeira mundial de 2008, que abalou várias nações europeias e nas Américas, deixando um rastro de desemprego como poucas vezes visto.

Como um prosseguimento da realização anterior, embora menor, Hákonarson cria uma atmosfera tensa em A Resistência de Inga, diante da iminente falência do sustento familiar de uma fazenda e traz como reflexão literal o monopólio de uma cooperativa de criadores de bovinos. Inga (Arndís Hrönn Egilsdóttir- de estupenda interpretação) é uma fazendeira de meia-idade em uma pequena comunidade, que após a morte de seu marido Reynir (Hinrik Olafsson), onde ele é o responsável pela administração do patrimônio. A corajosa mulher irá sacrificar seu sustento para dar um basta na corrupção que campeia livre e na injustiça do trabalho dos cooperados num drama humanista de denúncia, destemor e com confrontos radicalizados. Toma frente da gestão de seus negócios de maneira decidida para começar uma nova etapa em sua vida, pois os filhos emancipados moram em outra cidade. Sabe que é uma luta difícil por ter pessoas poderosas no comando da única cooperativa daquele condado. Mas não desiste de brigar pela Dalsmynni, a fazenda de gado leiteiro familiar de muitas gerações, como em manusear sozinha um parto complicado de um bezerro. Enquanto o marido era vivo, as dificuldades financeiras já eram enormes, pois não tiravam férias há três anos, numa rotina de cansaço permanente. À noite, trocavam algumas palavras e iam dormir para despertarem cedo no outro dia de intenso trabalho.

A morte de Reynir no acidente de caminhão na estrada em condições duvidosas e nunca esclarecidas, com alguma probabilidade de um suposto suicídio, foi brutal para Inga. As revelações de que ele era um delator para a cooperativa, dedurando quem não vendia leite e quem não comprava os insumos, por ser vítima de coação, numa forma de pressão sem saída, sob pena de ver a falência e o despejo de sua fazenda serem uma realidade pelas dívidas acumuladas. Estas circunstâncias agiram como ingredientes para uma combustão de rebeldia que explodiu e fez da protagonista buscar justiça em uma cruzada contra as forças detentoras do poder sufocante e opressor com requintes de crueldade nas perseguições, ameaças e terror pelos dirigentes daquela entidade. A concorrência não era estimulada e a oposição era ameaçada, até que Inga começou a publicar no Facebook as falcatruas existentes daquele sistema corrupto e violento, comparando com a máfia italiana corroída pelos seus mentores desonestos. Foi um duro golpe desferido no monopólio pela viúva dissidente, que desencadeou em outros episódios a perda de controle como elementos contundentes retratados de uma realidade estúpida, como na reveladora cena do trator levando toda a produção de leite para jogar no chão e nas paredes do prédio dos cooperados, muito bem construída pelo realizador. A imprensa é atraída para aquele lugar conflitado, de uma aparente falsa calmaria, para retratar de maneira imparcial a cobertura midiática televisiva diante dos desdobramentos e as ligações do fato para uma batalha com retaliações à criadora simpática e inofensiva em uma inimiga do povo do condado, pela ótica dos detentores do poder. A criação de uma segunda cooperativa somente para os criadores de vacas leiteiras é refutada veementemente pelo monopólio e outra luta com farpas e divisões são estabelecidas em um clima de guerra, num duelo de Davi e Golias.

Um vigoroso drama com uma trilha sonora adequada e condutora do epílogo surpreendente, para um desfecho com certo otimismo naquele ambiente perverso ali encravado. A cultura rural enraizada ligada ao espírito do nacionalismo em choque com os valores tradicionais explorados pelo Capitalismo estão evidenciados. Mas há uma luz no fim do túnel surgindo das perdas patrimoniais para uma virada de um novo horizonte pela perseverança e bravura de uma guerreira no empoderamento feminino de uma nova mulher, sob o prisma de um destino promissor que se desenha pelo grito de liberdade individual e econômica como fatores colocados com rara sensibilidade. Mart Taniel é o responsável pela fascinante fotografia, em que mostra os contrastes da beleza do inverno com as nevascas nos campos contrapondo com resíduos e insumos do árduo trabalho no celeiro, mesmo que a ordenha fosse robotizada pelos avanços tecnológicos para produzir mais leite, porém as despesas também dispararam e a dívida cresceu. O isolamento da personagem central cansada, com os cabelos desgrenhados, e um olhar perdido no infinito da noite silenciosa, para ter uma decisão realista de quem já perdeu quase tudo, resta a dignidade humana sem arroubos triunfais a ser salva.

A Resistência de Inga proporciona uma rara oportunidade de se conhecer alguns estilos de vida diferentes dos habituais que desfilam nas telas dos cinemas, como os aspectos pitorescos arraigados de uma cultura pouco difundida. O roteiro dá uma guinada na envolvente história, com significativa mudança de rumo diante dos ânimos acirrados, após um novo episódio na trama que retrata o impacto das perdas marcantes de uma comunidade dependente da essencial criação leiteira, como forma de sustento e o meio de vida socioeconômico na região. A crise se agrava e torna o ambiente mais inóspito e impróprio para aventuras financeiras, repassando ao espectador o clímax tenso e hostil que estão presentes. O cineasta faz um belo relato social das sutis armadilhas, com elementos suficientes para uma primorosa história contada com simplicidade e situações típicas do cotidiano de uma bucólica aldeia. Eis uma realização requintada num panorama de brigas permanentes dos personagens envolvidos no dilema. Há uma intensidade relevante para a narrativa que cresce com a evolução do enredo para o final redentor e significativo diante dos desmandos e irracionalidades coercitivos pela intransigência monopolista.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

A Vida Invisível



As Irmãs

Karim Aïnouz tem uma filmografia voltada para a solidão, as perdas, a opressão feminina, o abandono e os encontros inusitados. Estas temáticas são encontradas no bom e dinâmico Madame Satã (2001); no excelente O Céu de Suely (2006), alcança seu apogeu e brilha com o drama sobre a classe pobre brasileira, na qual a protagonista tenta rifar seu próprio corpo para conseguir dinheiro suficiente e comprar passagens de ônibus, ir para bem longe e iniciar uma nova vida com seu filho; em codireção com Marcelo Gomes realizou o controvertido Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009), em que o foco está na saudade da esposa e da família deixada para trás; em O Abismo Prateado (2011), há a criatura abandonada e a epopeia para encontrar o caminho de volta para a lucidez, colocar a cabeça no lugar após o trauma violento do desprezo inexplicável com o rompimento do vínculo do amor; já no magnífico Praia do Futuro (2014), é o olhar com maturidade sobre a relação homoafetiva pelo vínculo amoroso estabelecido entre um salva-vidas com um turista alemão, em uma estrutura impecável e sem superficialidades, diante de lacunas entremeadas pelo silêncio para atingir um fascinante resultado inspirado no cinema de Rainer Werner Fassbinder, como o próprio diretor assumiu ser um admirador de suas obras.

Vencedor na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano e indicado para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2020, superando o cultuado Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, A Vida Invisível, último longa-metragem de Aïnouz, é um melodrama familiar pujante na sua essência. Foi adaptado do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da autora pernambucana Martha Batalha, tendo como cenário o Rio de Janeiro, dos anos de 1950 até os dias atuais. As protagonistas são as irmãs inseparáveis Eurídice (Carol Duarte), uma jovem pianista talentosa, de 18 anos, mas muito introvertida e reprimida sexualmente, que tem como referência e projeção Guida (Julia Stockler), de 20 anos, a irmã mais velha, o oposto dela, por ter um temperamento extrovertido e com uma mente mais aberta. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal de educação atrelada ao moralismo exacerbado dos ditos bons costumes, em que o pai (António Fonseca) não tolera a desobediência e a liberdade buscada pelas filhas. Diante do impasse conservador determinante, irão trilhar dois destinos diferentes por caminhos inimagináveis que abalarão seus futuros para sempre. Guida foge de casa com o namorado, um marinheiro grego, em busca da felicidade; enquanto isto Eurídice se esforça para tornar-se uma renomada pianista, viajar para a Áustria, e fazer testes em um famoso conservatório. Casa-se de maneira abrupta com um homem tosco e ciumento (Gregório Duvivier), com o objetivo de realizar seu sonho e ser afortunada na música.

O realizador lança tintas fortes e dá uma virada no dinâmico roteiro escrito por ele em parceria com Murilo Hauser e Inés Bortagaray. O casamento sem amor e a insistência do marido em ter filhos de imediato, o que poderia atrapalhar a carreira de Eurídice na maternidade não planejada, e com a volta iminente ao Rio, são ingredientes novos mesclados com o retorno repentino de Gilda para casa, um ano depois, grávida e decepcionada com o namorado. Sem a compreensão do austero pai e com a subserviência da mãe, a filha mais velha irá acabar numa espécie de albergue comunitário, em que a responsável cuida das crianças para que as mães trabalhem. O filme é conduzido com rara sensibilidade e sutileza na construção de uma trajetória melancólica dos destinos inversos traçados pela intolerância paterna, com resultados nefastos e devastadores naquele microcosmo familiar dilacerado por caprichos hostis arraigados nos ditames truculentos de uma época de costumes machistas, ainda remanescentes nos dias de hoje, embora em grau um pouco menor. Há uma exposição de fragilidades das irmãs vitimadas pelos absurdos advindos de hábitos antiquados em que as duas tentam se reencontrar. São as tentativas de uma procura inglória e devastadora. Mas as cartas escritas que nunca chegaram à destinatária trarão novas luzes como um sopro de resgate pela dignidade quando reveladas de maneira nada convencional no desfecho emocional. Para isto haverá a aparição na soberba interpretação de Fernanda Montenegro, no papel de uma das irmãs envelhecida, mesmo que por poucos minutos, iluminará a telona.

O resgate da liberdade alcançado por uma das personagens, depois de anos bem distantes da juventude, instiga a manutenção ainda vigente daquele vínculo inseparável entre elas. Distante do meio conservador e repressor da origem dos conflitos, há revelações perturbadoras sobre a mulher humilde que acolheu Lídia e a amparou com dignidade, compaixão e sem censura nos tristes episódios que se sucederam e colocaram em xeque toda uma situação anômala do reacionarismo. Foi a forma de emancipar-se das amarras do passado e seus fantasmas, ainda que corresse os riscos inerentes na saga da estranha trajetória até o esquecimento e do abandono familiar. As mortes reveladas no epílogo surgem como as tristes perdas existentes, um tema recorrente na filmografia do cineasta com seus personagens revestidos de grande humanismo como elementos essenciais, apresentando suas dores, medos e ansiedades. Numa marcante imagem de uma tomada estupenda no prólogo se decifra no desfecho a aniquiladora solidão mesclada com a busca da independência presente somando-se às dores pretéritas que ficaram para trás, registradas pela linda fotografia da francesa Hélène Louvart e ao som da significativa trilha sonora do alemão Benedikt Schiefer.

A reflexão passa também pelo destemor e fragilidades das irmãs com a clarividência do propósito no futuro como ingredientes de subsídios para a iniciativa da dura realidade autônoma, após os transtornos dos percalços oferecidos pelo destino. As perdas são reflexos de um contexto de diferenças, mas que vão se encaixar e tornar uma relação madura e consistente, já com a presença de uma das personagens como símbolo do passado na ausência transformadora da rotina. São causas e contrastes por extensão, após o baque pessoal de uma falsa notícia da morte da desaparecida. O tempo dá um salto para uma outra realidade, com a sugestão da emoção motivadora da existência, diante da sensação de vazio e isolamento. Eis uma abordagem marcante e intensa com uma atmosfera singular sobre a natureza do universo feminino e sua luta diária no meio machista, num retrato sobre a gravidez não programada, a prostituição como sobrevivência, faz com que o drama tome contornos impactantes para um desfecho duro e amargo. A Vida Invisível é o filme mais profundo, equilibrado e abrangente de Aïnouz. Por ser complexo e eloquente na meditação sobre o conservadorismo familiar, o castramento da liberdade individual pela opressão, o estupro conjugal como forma de propriedade do corpo da mulher pelo marido e a procriação como elemento fim, sufocante e angustiante em sua plenitude, torna-se a obra-prima do diretor.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Parasita



Arrasadora Injustiça Social

O Festival de Cannes de 2019 premiou com a Palma de Ouro o filme da Coreia do Sul Parasita, com uma abordagem aprofundada e sem concessões sobre a tentativa de ascensão social de uma família excluída que vive na miséria e todos seus membros estão desempregados. É a busca por uma vida digna com todo seu glamour em um núcleo de uma residência composta por um casal rico, uma menina adolescente e um garotinho pré-adolescente, em que só o homem trabalha. Há discussões amargas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano. Ninguém sairá ileso desta convivência marcada por acontecimentos de alta tensão, humor e a tragédia iminente com o resultado do confronto de classes distintas e paradoxais. A sociedade contemporânea está em pauta e o questionamento é lançado pelo olhar atento do festejado cineasta Bong Joon-ho. Este drama social que transita do suspense para o terror é o representante coreano para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2020, sendo ainda laureado como o melhor filme escolhido pelo público na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ocorrida em outubro deste ano.

O realizador sul-coreano já havia surpreendido com O Hospedeiro (2006), tratando seus monstros com seriedade numa civilização dos homens, tendo por cenário a beira do rio Han poluído ao extremo. Lá, uma família dona de uma barraca de comidas no parque é aterrorizada por um animal gigantesco que emerge do fundo do rio e leva a neta do patriarca. Os monstros se confundem com os humanos e os demônios são exorcizados. Já no episódio Shaking Tokio, dentro do longa Tóquio (2008), onde dividiu espaço com Michel Gondry e Leos Carax, aborda um dos mais melancólicos e devastadores relatos de solidão humana contados no cinema, no qual um rapaz está enclausurado em sua própria casa há mais de dez anos, isolado do mundo e das pessoas, exceto quando recebe o entregador de pizzas num mundo claustrofóbico de distanciamento com o ser humano. Em Memórias de um Assassino (2003), brinca com o público espectador, pois uma jovem brutalmente assassinada num lugar convence a polícia tratar-se de um serial killer, mas os fatos se repetem em outras localidades, deixando aturdidos os detetives, começa então uma investigação minuciosa e interessante, demonstrando influência forte do mestre Alfred Hitchcock. Depois veio Mother- A Busca Pela Verdade (2009), na aproximação do realismo com o fantástico para desqualificar o possível culpado, buscando no jogo de valores sua visão crítica.

Assim como nas realizações anteriores, o irrequieto diretor retrata o processo civilizatório se brutalizando com os atos convergindo para o confronto da explosão social se acirrando, contrapondo com o processo de destruição já invocado nos longas O Hospedeiro e Mother- A Busca Pela Verdade. Os animais selvagens e irracionais de Joon-ho são bem identificados e estão entre aqueles que destroem e violentam a humanidade. Em Parasita, a situação se altera quando o filho mais velho (Choi Woo-sik) consegue emprego de professor de inglês na bela mansão com uma arquitetura moderna, repleta de espaços vazios pertencente à família dos Park. A farsa burlesca será um ingrediente astuto para os planos bem bolados para colocar os demais integrantes naquele cenário convidativo: o matreiro pai (Song Kang-ho), a sóbria e dedicada mãe (Chang Hyae-jin) e a esperta filha (Park So-dam). O retrato da polarização pela desigualdade terá contornos pelo desequilíbrio de uma cruel sociedade consumista. O fio condutor narrativo chega até a violência não gratuita, mas quase circunstancial, pelo desdobramento da trama do roteiro dinâmico. Embora com um banho de sangue apoteótico no desfecho, ao melhor estilo de Tarantino, quer sacudir e mostrar quem são os incivilizados e desmedidos de nosso planeta, assim como já o fizera no conjunto das obras antecessoras.

A desenvolvida sociedade coreana cultural e tecnológica serve de ponto de reflexão para a contundência crítica do cineasta, em que nada fica estático. Tudo se move para a ilicitude, como a armação artística dos depauperados na busca forçada do convívio harmonioso na família abastada que esconde suas maneiras desumanas de um digno convívio social. O contexto é arrebatador e faz sentido, como a oca do menino americanizado que pratica suas bizarrices no jardim, por estar traumatizado ao ver um fantasma emergindo do bunker construído no porão que guarda um segredo da ex-governanta e que virá à tona numa noite chuvosa, enquanto os ex-patrões estão ausentes. A festa com a simulação do embate dos índios alegoricamente importado da América do Norte irá se tornar real e a grande catarse explodirá como redenção no epílogo. É o confronto dos desiguais entre eles, remanescendo para os iguais com os desiguais, em que uma família paupérrima que mora numa sub-habitação abaixo do nível da calçada na periferia. Mas do grande golpe arquitetado pela sobrevivência melhor, haverá a noite fatídica de uma grande enxurrada de água da chuva torrencial que inundará os bairros periféricos, origem da família protagonista da gambiarra, com o lixo se espalhando e invadindo as pequenas residências. Durante a tempestade premonitória, a ojeriza do patrão pelo cheiro dos empregados relacionados aos pobres usuários do metrô é reveladora para a vingança redentora diante da dor humilhante. É o ingrediente dilacerante como forma de discriminação que faltava e marca com tintas fortes. Mas há o sonho do filho em estudar e que vira obsessão para resgatar o pai do autoexílio.

Ao retratar as classes sociais diferentes com personagens de lados opostos, há uma similaridade com o notável Assunto de Família (2018), de Hirokasu Kore-eda, tanto pela estética como pelo foco social. Parasita é comovente e fisga pela sobriedade de seu realizador na busca de apontar os erros graves de seu país pelo capitalismo desenfreado advindo dos EUA. Mas não poupa a Coreia do Norte e seu ditador, na alegoria do celular que registra os equívocos da farsa montada, ao fazer a similitude da mensagem a ser enviada pela ex-empregada com o dedo do tirano Kim Jong-un do país vizinho para disparar o botão da bomba atômica e explodir o mundo. Uma realização singular por ser convincente na sua proposta sem concessões e com o objetivo de perturbar e tirar da zona de conforto o espectador com uma representação mordaz e contundente. Ninguém fica alheio aos caprichos sem compaixão dos corretos transformistas cidadãos aristocráticos, ou ainda da malandragem dos alijados pela boa convivência social harmoniosa para viver em solidariedade espúria, enquanto tentam uma rede gratuita de wi-fi dos vizinhos. A reflexão é proposta e os monstros se multiplicam, à espera da conscientização oprimida pela repressão de valores que aguardam a absorção, como metáfora de uma civilização doente e em vias de extinção através de uma fábula adulta com contornos trágicos na busca do topo da pirâmide para abandonar o triste isolamento da injustiça social. Emociona por ser intensa e complexa, madura e completa, instigante e impactante, que atinge o patamar de a obra-prima da carreira de Joon-ho. Sem dúvida, até agora, o melhor filme do ano.