segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Os Fabelmans

 

Ode ao Cinema

Lincoln (2012), um épico de acontecimentos históricos que mexe na vida dos norte-americanos, na luta incansável do Presidente republicano reeleito para aprovar no Congresso a abolição da escravatura e The Post: A Guerra Secreta (2017), paradigmático estudo das teorias do jornalismo contemporâneo, no qual um repórter do jornal The Washington Post farejou algo de gravidade e iniciou uma investigação sobre a invasão de cinco homens na sede do Partido Democrata, que deu origem ao escândalo Watergate, foram as últimas duas realizações com méritos indiscutíveis de Steven Spielberg. Experiente em blockbusters como Tubarão (1975), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Indiana Jones e Templo da Perdição (1984), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) e Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (1993), entre tantos. Seus últimos longas, Jogador nº. 1 (2018), Amor, Sublime Amor (2021) e The Kidnapping of Edgardo Mortara (2021), são filmes que pouco acrescentaram. Porém, cabe ressaltar suas obras marcantes, como a bela e profunda amizade de uma insuperável solidariedade entre um jovem e um cavalo puro sangue em Cavalo de Guerra (2011); do fascinante O Resgate do Soldado Ryan (1998); da dramaticidade eloquente de A Lista de Schindler (1993); do inesquecível e pujante drama racial em A Cor Púrpura (1985); do encantamento terno de E. T.- O Extra Terrestre (1982); e o suspense psicológico intenso em Encurralado (1971), foram realizações importantes na fértil criação de sua filmografia.

No primeiro grande lançamento de 2023, Os Fabelmans é o último longa de Spielberg e foi indicado com muita justiça em sete categorias ao Oscar deste ano, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Michelle Williams e Melhor Ator Coadjuvante para Judd Hirsch. Venceu como Melhor Filme Dramático e Direção no Globo de Ouro. Chegou a vez do lendário cineasta passar para a telona, nesta imaginativa mescla de ficção e realidade, numa autobiografia que revela sua exaltação ao cinema, com base em suas lembranças do passado num passeio intimista familiar, e a origem da paixão com a iniciação na sétima arte, nesta primorosa realização. Recentemente, outro diretor que buscou o caminho da autobiografia foi Alfonso Cuarón, com o premiado Roma (2018). A trama conta a história do jovem Sammy Fabelman (Gabriel LaBelle) que cresceu no Arizona pós-Segunda Guerra Mundial, se apaixona pela invenção cinematográfica depois que seus pais o levam para ver O Maior Espetáculo da Terra (1952), de Cecil B. DeMille. O protagonista que se recusava a assistir o filme fica fascinado pela grandiosidade da ficção e encontra na fantasia infantil o encanto pelas câmeras.

Uma paixão arrebatadora que leva aquele menino para um propósito, e mais tarde sua válvula de escape como refúgio. Inicialmente teve o incentivo do pai, Burt (Paul Dano), um engenheiro de computação que seguidamente troca de cidade por determinação da poderosa multinacional IBM, voltada para a informática; já a mãe, Mitzi (Michelle Williams- de estupenda atuação, num dos melhores papéis das sua carreira), é uma mulher frustrada por não conseguir colocar em prática seu talento de pianista. Foi apelida de Arthur Rubinstein por um tio (Seth Rogen), um artista devotado do circo. Ela incentivava o filho a realizar seu sonho, enquanto que o pai via apenas como um passatempo, queria que ele seguisse uma carreira promissora e com garantias como a dele. Então, Sammy decide explorar o poder da criação de filmes na ajuda de ver a verdade de uns sobre os outros e, por consequência, sobre nós mesmos e os mais próximos nas relações humanas. Soa como traços marcantes de uma autobiografia repleta de alegrias inesperadas e tristezas camufladas como o devastador segredo que guarda dos pais. A traição é uma marca forte no microcosmo daquela família, captada involuntariamente em uma das filmagens realizadas por Sammy em um vídeo caseiro, numa reverência ao mestre italiano Michelangelo Antonioni, no notável drama Blow Up – Depois Daquele Beijo (1966), sobre um rolo fotográfico revelado que pode ter documentado, sem querer, um assassinato.

Novamente há o reencontro de Spielberg com o antigo parceiro John Williams, de 90 anos. Autor da maioria das trilhas sonoras da vasta filmografia do cineasta, em que mais uma vez dá aula de como criar uma atmosfera fascinante sem ser invasivo no desenrolar da trama, respeitando o momento da pausa e do silêncio, para os momentos em que a música deve estar presente. O dinâmico roteiro escrito pelo diretor em parceria com Tony Kushner, que nem faz sentir os 151min de projeção, além de retratar a adolescência de Sammy, alter ego de Spielberg, mostra os colegas de classe fazendo bullying através de sintomáticos ultrajes pelo antissemitismo que vivenciou o cineasta em lugares conservadores dos EUA. Até uma namoradinha devota fervorosa do Cristianismo fez pressão para que ele aceitasse Jesus Cristo, mas lhe virou as costas com o primeiro problema conjugal apresentado pelos pais do jovem. Uma redenção diante de uma situação de amor inocente que ficou para trás neste retrato do reencontro de um homem com seu passado e suas memórias com o sentido prazeroso de viver, diante de suas divagações reflexivas.

O trem é a mola propulsora do personagem central, desde a cena do descarrilamento na obra de DeMille, numa justa homenagem aos Irmãos Lumière, quando uma locomotiva vai de encontro à câmera e causa um frisson na plateia que assistia a primeira sessão organizada pelos inventores do cinematógrafo, em 1895. Outra cena inesquecível é o encontro do protagonista com John Ford (interpretado pelo cultuado diretor David Lynch), que lhe dá uma dica importante para sua carreira, quando menciona que o enquadramento do horizonte deve estar acima ou abaixo na cena, nunca no meio, pois seria enfadonho. O epílogo retrata o encontro de Spielberg, que realmente aconteceu, com o velho artesão mitológico, seu maior ídolo, realizador de No Tempo das Diligências (1939), As Vinhas da Ira (1940), Depois do Vendaval (1952) e Rastros de Ódio (1956). Presta um tributo inestimável de puro amor ao cinema e sua essência de forma admirável.

Spielberg se reencontra com a pura arte genuína do cinema e a sensibilidade de conduzir para absorver os infortúnios e buscar a retomada dos encantos que a vida oferece. Uma narrativa com tom de reminiscências pretéritas e os motivos fundamentais que o levaram para o pódio dos grandes realizadores. Um passeio sobre o painel familiar com situações do cotidiano, no qual as idiossincrasias se apresentam com suas peculiaridades inerentes, profundamente específicas, autêntica e dolorosas, às vezes. Não há acontecimentos surreais ou estratosféricos. Comove e cativa nos aspectos psicológicos construídos com primazia sobre o ser humano depurando as angústias num desfecho de amor em êxtase intimista, apontando como referência uma trajetória digna e humana numa consequente suavidade pelo amadurecimento. Provoca estímulos pela emoção e a crença de que o cinema está em flagrante resistência para manter a chama acesa pela efervescência cultural inesgotável da arte que permanecerá como legado, nesta admirável homenagem em Os Fabelmans.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Aftersun

 

Pai e Filha

Vem do Reino Unido em coprodução com os EUA o cultuado drama familiar Aftersun, título que pode ser traduzido literalmente como “Depois do sol”. Escrito e dirigido pela escocesa Charlotte Wells, num panorama repleto de sutilezas para mostrar um choque de realidade dentro de sonhos idealizados, mas com nuances de perdas e conquistas diárias. Com relação aos sentimentos dos personagens e da relação dos dois personagens centrais, pouco se sabe, diante do enredo pontuado por uma certa melancolia de lembranças e recordações da adolescência de uma jovem. O filme traz a história sem muitos detalhamentos que irão se desenrolar como um novelo na trama de um roteiro enxuto, mas que elucida aos poucos os enigmas apresentados no prólogo e no seu contexto com marcas sintomáticas de um amor incondicional para ser saboreado a cada cena. Vai desde o ponto de partida até o epílogo num ritmo angustiante que tanto cala, afasta e aproxima dois seres humanos sedentos de ternura, e acerta em cheio uma plateia enjoada de violência explícita. Disponível no MUBI.

A história se passa no final da década de 1990, quando Sophie (na versão infantil é vivida por Frankie Corio, uma grande revelação; Celia Rowlson-Hall está na versão adulta), de onze anos, e seu pai Calum (Paul Mescal- indicado ao Oscar para Melhor Ator) que passavam as férias em um clube na costa da Turquia. Os dois tomam banho no mar e na piscina, jogam bilhar, cantam à noite em karaokês, tomam bebidas deliciosas coloridas, contam piadas, e desfrutam da companhia amigável um do outro. Quando a menina está sozinha, ela faz amigos e tem novas experiências e aos poucos as descobertas são desfraldadas. Um resgate dolorido de um passado de 20 anos, buscado por uma filha em relação ao seu pai e o namoro com sua mãe que não foi adiante. Traz as memórias de acontecimentos pretéritos que ganham um novo significado, enquanto tenta reconciliar o genitor que conheceu com o homem que não conhecia. A saudade mesclada com imaginações e fantasias de um tempo perdido que não mais será recuperado, mas que terá valor inestimável pelo afeto entre eles. Um filme hábil que manipula sentimentos com elementos humanos e dignos, através de delicados quadros e composições que eram cultuadas na época como Macarena. Sem didatismo ou apelação para lágrimas fáceis, afastando-se completamente de pieguismos, méritos para a cineasta que conduz com criatividade o espectador a acompanhar sem lamentar o destino dos personagens, contagia na essência cinematográfica.

Aftersun ganhou prêmios no Festival de Cannes, em Palm Springs, na Mostra Internacional de São Paulo, teve indicações ao Oscar deste ano e ao BAFTA de Cinema, entre tantas outras. A trama gira em torno da filha adulta que surge nos reflexos de espelhos ou na tela de uma TV, com cenas gravadas por uma filmadora caseira, outras por frestas ou fechaduras transformando o espectador quase em uma espécie de voyeur. A realizadora habilmente coloca o sentido da existência que tanto a garota procura para atenuar sua dor que remói para desvendar o passado que será aos poucos descortinado, para que se sinta como uma expoente da vida na ânsia de almejar a felicidade que tanto idealiza. A veneração que sente pelo pai e do sentimento de doçura dele para com ela são ingredientes que ilustram as cenas da bonita história contada do passeio de entretenimento das férias no passado revelador. Eles se admiram com estonteante prazer que darão a alegria de continuar existindo, a amizade solidificada e um indício promissor daquele ambiente tão magnífico vivenciado pela dupla, ou seja, o prazer e o aroma da vida.

Neste redemoinho está encaixada a filha que nutre uma beleza interior, deixando transparecer todo apreço e sua altivez em suas atitudes. Os contornos pacificadores irão se estabelecer nas relações entre os dois, com as revelações maduras sobre as memórias com fissuras dos primórdios de um passado distante, em que ela está aprisionada. Seu fascínio pelo pai soa metaforicamente como o sentido de seu enclausuramento psicológico, diante do fato pretérito causador da curiosidade e de sua amargura que busca entender. Porém, há profundidade no contexto do momento em que o amor paternal é alicerce para sua lucidez que tomam contornos inimagináveis para uma aproximação com a vida marcada pela distância entre eles, cada um morando em países diferentes. O filme busca alternativas pragmáticas para lidar com as dificuldades advindas do cotidiano, através de opções apresentadas como fórmula do bálsamo da convivência civilizada. Um drama atual e exemplar, no qual a narrativa está inserida na linguagem do cinema em toda sua extensão que não cai na mesmice de roteiros complexos e confusos vistos em muitas realizações estéreis, ao dar vazão para um mergulho no imaginário do público.

Para isto é dado o tom certo do clímax que desencadeará no desfecho que trará luz para um futuro difícil, mas com um toque de otimismo nesta admirável obra de valores profundos e marcantes numa atmosfera de amor e melancolia de uma realidade tão presente. Eis uma interessante busca de uma criança que foi um dia, mas que agora adulta precisa reatar os laços de afinidade familiar. Os sentimentos que são necessários para reconhecer a conexão abalada, quase fraturada, que se estabelece entre os protagonistas. Uma abordagem com profundidade sobre os aspectos das intrínsecas querelas familiares. Um drama que consiste em um mergulho psicológico para criar personagens consistentes, fortes ou frágeis, vencedores ou vencidos, não importa. Mas todos com alma e coração quase sangrando. São fatos do cotidiano que gravitam no painel construído por Wells nas ações do tempo que mudam gradativamente e o espectador acompanha a transformação, através de um cenário que corta o silêncio dolorido. Há no desenrolar da história um aprofundamento intenso nos diálogos e nas imagens implacáveis, pela maneira elegante da condução, com um toque de classe seco com extremo realismo de uma infância desnudada e apresentada com sabor agridoce.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2022)

 

Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Já é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos nos cinemas e nas plataformas de streaming em 2022. Também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

 01. Drive My Car, de Ryüsuke Hamaguchi (foto acima);

02. A Felicidade das Pequenas Coisas, de Pawo Choyning Dorji;

03. Ennio, O Maestro, de Giuseppe Tornatore;

04. Lamb, de Valdimar Jóhannsson;

05. O Acontecimento, de Audrey Diwan;

06. Um Herói, de Asghar Farhadi;

07. O Truque da Galinha, de Omar El Zohairy;

08. A Noite do Fogo, de Tatiana Huezo;

09. A Filha Perdida, de Maggie Gyllenhaal;

10. Marte Um, de Gabriel Martins.

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

- Argentina, 1985, de Santiago Mitre;

- Tre Piani, de Nani Moretti;

- O Perdão, de Maryam Moghadam;

- O Festival do Amor, de Woody Allen;

- Elvis, de Baz Luhrmann.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Argentina, 1985

 

O Julgamento

Ganhador do prêmio da Federação Internacional dos Críticos de Cinema (Fipresci) no Festival de Veneza e indicado pela Argentina ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Argentina, 1985, quarto longa-metragem do cineasta Santiago Mitre, busca o tricampeonato na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 2023, como fez a seleção de futebol na Copa do Catar neste ano. A História Oficial (1985), de Luis Puenzo, e O Segredo dos Seus Olhos (2009), de Juan José Campanella, foram os primeiros vencedores do Oscar. O cineasta é reconhecido pelas abordagens dos problemas sociais, econômicos e políticos de seu país. O diretor estreou em O Estudante (2011), ano marcado por convulsões sociais nos EUA, Chile e na Europa, tendo abocanhado mais de 20 prêmios em festivais pelo mundo. O segundo longa, Paulina (2015), foi laureado com o troféu principal da Semana da Crítica em Cannes, retratou a temática da violência contra a mulher de uma maneira pouco convencional, contextualizou a trama e jogou luz à história, tendo como subtema a justiça a serviço dos interesses pessoais de poderosos. Misto de drama político com familiar, A Cordilheira (2017), terceiro longa, é um instigante painel sobre os bastidores da política mesclado com os problemas pessoais de um chefe da nação abordados com esmero, bem construídos os personagens fictícios, mas facilmente identificáveis no cenário da época.

Mitre, de 42 anos, foi também roteirista dos filmes Leonera (2008), Abutres (2010) e Elefante Branco (2012), todos realizados por Pablo Trapero. Agora se debruça sobre os horrores da ditadura militar que deixou sequelas e marcas para sempre em seu povo. Dividiu o roteiro com Mariano Llinás, assim como já o fizera nas últimas duas realizações. Baseado em fatos reais, Argentina, 1985, disponível para assinantes do Amazon Prime Vídeo, se inspira na história de dois promotores públicos com uma equipe de jovens assistentes neófitos que terão a improvável missão de processarem os militares que comandaram e serviram ao duro regime de exceção estabelecido no país vizinho, de 1976 a 1983. O famoso Julgamento das Juntas, de meados de 1984 a setembro de 1985, foi o primeiro no mundo por um tribunal civil contra comandantes militares que tinham estado no poder. Ocorreu no governo de Raúl Alfonsin (1927-2009), eleito como primeiro presidente da fase da redemocratização. O personagem central Julio Strassera, chamado de “Louco” (1933-2015), brilhantemente encarnado pelo cultuado ator Ricardo Darín, em mais uma interpretação irretocável, tem na dócil esposa, Silvia (Alejandra Flechner) e no casal de filhos adolescentes, sua base familiar de sustentação.

Strassera tem dificuldades para montar sua força-tarefa, diante das negativas recorrentes de seus colegas experientes. Ou por medo ou por estarem alinhados ao nefasto regime sanguinário com indisfarçáveis tendências fascistas, com o velho e surrado discurso de eliminarem os comunistas. Encontra respaldo e apoio no assistente Luís Moreno Ocampo (Peter Lanzani- de boa atuação), um filho de militar que tem a mãe uma admiradora do sistema, inclusive ela frequentava as missas com integrantes da alta cúpula militar. Seu mentor, Alberto (Norman Briski), traz palavras de sabedoria, embora muito debilitado. O diretor teatral, Carlos Somigliana (Claudio Da Passano), faz uma dobradinha interessante para a defesa oral do protagonista no tribunal. A dupla de promotores manda a equipe formada de jovens advogados e estagiários a pesquisarem os processos com as respectivas provas para tentar colocar na cadeia os principais líderes da Ditadura Militar. Os promotores sofrem ameaças e pressões políticas e militares a pararem com as investigações. Mas o julgamento, finalmente, aconteceu em 22 de abril de 1985, com cerca de 530 horas de audiência, 850 testemunhas, sendo 709 casos julgados e sentenciados pelos juízes León Arslanian, Ricardo Gil Lavedra, Jorge Torlasco, Andrés D'Alessio, Guillermo Ledesma e Jorge Valerga Aráoz.

O drama político aborda com clareza e boa didática os depoimentos das vítimas do regime, com relatos escabrosos de estupros e pessoas desaparecidas. Mitre conduz com discernimento para contar esta triste história que traz marcas indeléveis de um passado tingido pelo sangue, marcado pela desumanidade e o rompimento com os direitos humanos. Entre os acusados, sentaram no banco dos réus os comandantes do Exército, tenente-general Jorge Rafael Videla; da Marinha, o almirante Emilio Eduardo Massera; da Aeronáutica, o brigadeiro-general Orlando Ramón Agosti; e o presidente da República no período de 22 de dezembro de 1981 a 18 de junho de 1982, general Leopoldo Galtieri. Embora todos condenados, o sucessor de Alfonsín, Carlos Menem (1930-2021), concedeu indulto aos militares, que foram anulados posteriormente. Videla, que nunca se arrependeu do que fez, acabou sendo novamente julgado e preso, tendo morrido aos 87 anos na prisão, em 2013. As vítimas eram mencionadas como culpadas pelo descalabro político e social que vivia o país, na visão de seus algozes travestidos de salvadores da pátria. Jogavam pesado com a bandeira da corrupção sendo desfraldada, através de artimanhas e malefícios advindos dos porões palacianos e dos quartéis, tudo a serviço da grande farsa da patriotada.

A construção narrativa é dinâmica e exemplar, dosada com momentos de emoção, seriedade e um espaço para humor com leveza. As revelações do passado vêm à tona e explodem como cataclismos de uma convulsão social pelos segredos guardados como fantasmas enjaulados e amordaçados. No meio do turbilhão dos processos que se desenvolvem nos tribunais, aparece a degradação humana que campeava nas cúpulas diretivas de alianças de direita com um governo ditatorial e genocida, onde mais de 30 mil pessoas desapareceram e milhares foram mortas. Um ambiente de tensões e desdobramentos escusos onde os mortais ficaram à mercê e sequer imaginaram os resultados e o quanto lhes custariam. Abafar os horrores ocorridos seria mais tenebroso ainda. A Argentina e o Brasil têm muitas semelhanças nos capítulos mais brutais de sua história, mas a justiça brasileira está longe de adotar o lema “NUNCA MAIS’ para aprender com seus erros.

Mitre não menciona o perdão judicial de Menem por pressão das Forças Armadas com leis sendo promulgadas para beneficiar os militares presos, o que revela uma falha ou opção grosseira no roteiro, embora não invalide a obra. O longa cumpre seu papel de apresentar as abjetas violações e torturas de um regime autoritário dos mais cruéis que se tem notícia. Disposto a eliminar a oposição por se autointitular infalível e eterno no comando, mas que a História apontará a verdadeira realidade dos ditadores e suas derrocadas, mais cedo ou mais tarde. Os julgamentos e as condenações perpétuas para alguns dos acusados são um bálsamo de energia, com a esperança no desfecho da sentença: “Nunca Mais”. Fica a visão doentia dos homens obcecados pelo poder e seus envolvimentos com situações escabrosas, dignas de repugnância pelos seus atos hostis e irascíveis numa sociedade calada pela censura e as barbáries cometidas nos porões para calar uma sociedade carente de líderes verdadeiros. Um drama contundente na sua conjuntura temática das causas e efeitos pelas imagens e diálogos com força de grande expressividade, com rostos e olhares de certa perplexidade diante de algumas surpresas escondidas pelos militares argentinos em seus crimes hediondos contra a humanidade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Nada de Novo no Front

 

Encurralados

Indicado ao Oscar pela Alemanha e considerado um dos favoritos para abocanhar a estatueta de Melhor Filme Internacional, Nada de Novo no Front, em cartaz na Netflix, conta uma impressionante história da saga do protagonista Paul Bäumer (Felix Kammerer, de atuação comovente), que falsifica a autorização dos pais para embarcar e lutar com seus amigos. Eles se alistam voluntariamente no Exército “pelo Kaiser, por Deus e pela pátria”, diante de uma fervorosa onda patriótica, que logo faz com que os futuros anti-heróis caiam na realidade brutal de uma guerra que nada tem de glamourosa, sequer leva para os caminhos da glória. Os preconceitos sobre os ditos inimigos e os acertos e erros do conflito se desequilibram, no entanto, em meio à contagem regressiva da desejada volta. Paul continua lutando até o fim para satisfazer os generais do alto escalão com discursos fáceis e palavras bonitas, convencem os rapazes a arriscarem suas vidas por ideais para tentar acabar com a batalha, na tão sonhada ofensiva vitoriosa alemã contra a resistência francesa. O cenário patético nada mais é do que as insalubres trincheiras lamacentas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A direção é do alemão Edward Berger, que também resgata o roteiro original de um best-seller da literatura, o livro homônimo escrito em 1929, das lembranças do soldado Erich Maria Remarque, imediatamente celebrado pelo seu olhar pacifista para retratar as experiências de jovens trucidados pela perspectiva do confronto sem limites, através de uma narrativa de vários personagens que estavam a serviço de uma sentença de morte injustificável. Foi adaptado no ano seguinte para o cinema e lançado no Brasil com o nome de Sem Novidade no Front. Uma mistura de épico com ação que foi considerado um marco da sétima arte, tornando Lewis Milestone um dos principais diretores de sua geração, à época, pela visão antibelicista. Venceu naquele ano os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, além de ter sido indicado para Melhor Fotografia e Roteiro Adaptado. Berger segue a surrada inclusão de lugares-comuns na construção dos velhos clichês do gênero no longa-metragem atual. Inspirado no clássico de 1930, esta é terceira versão, que tem um cuidado técnico bem apurado, tanto na bela fotografia, como na fascinante trilha sonora, embora haja muita repetição de cenas, ainda assim faz os espectadores repensarem os motivos verdadeiros e as mentiras da Primeira Guerra Mundial.

O drama de guerra faz um retrato interessante da falta de provisões e de água potável, das dificuldades de recuperação dos feridos, a estratégia errada do local para os combates, além da preferência pela retirada pseudoestratégica dos militares alemães, com algumas pitadas fortes de crítica social aos governos da época, tanto da Alemanha como da França. Questiona sobre os filhos que morrem no front por culpa de quem os empurra para lá, ainda que bem distante do arrebatador discurso feito em tom de protesto na excelente realização Frantz (2016), de François Ozon. Um país derrotado solenemente em terras estrangeiras com um saldo gigantesco de vítimas dos dois lados soa como uma proposta objetiva de um libelo contra o armamentismo e seu espírito belicoso. Estampa-se a dor das perdas e a derrota nos rostos dos sobreviventes na máxima: “A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam, por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam.”

Embora o filme dê uma sensação de déjà vu à trama, há o encadeamento dos dramas pessoais como estratégia para a construção de um discurso pacifista. O protagonista representa a essência da tragédia de uma guerra ensandecida pelos homens. Como fio condutor, revela outras realidades e expectativas frustradas semelhantes às suas fantasias ao contrariar a celebração dos heróis para continuar alimentando a máquina das armas e dos conflitos bélicos. Remete para outras obras similares como Dunkirk (2017), do britânico Christopher Nolan, inspirado na história verídica da Operação Dínamo, na qual houve o resgate histórico no início da Segunda Guerra Mundial, para salvar cerca de 400 mil homens das tropas aliadas. Acabam encurralados contra o Canal da Mancha pelas forças do Exército e Aeronáutica nazistas de Hitler na Praia de Dunquerque, no Norte do território francês. Também há analogia com o drama humano da Segunda Guerra Mundial retratado no dinamismo de Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan (1998), que segue a fonte de inspiração da abordagem pela paz. Também há uma aproximação com Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick, quando em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, um general francês ordena um ataque suicida. Porém, nem todos os seus soldados cumprem a decisão insana do militar. Então ele exige que sua artilharia ataque as próprias trincheiras. O pedido absurdo não é obedecido, por isto resolve pedir o julgamento e a execução de todo regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia.

Nada de Novo no Front tem alguns méritos pela eloquência e boa verossimilhança narrativa ao retratar soldados acuados e sem uma perspectiva de fugir daquele lugar inóspito, um buraco sem saída, com a morte rondando a cada minuto. Reitera a ideia do absurdo de mandar inocentes morrerem como animais de pouca importância, decorrente de caprichos dos militares com suas estratégias. A origem é a ambição geopolítica das nações com suas fragilidades e os atropelos exercidos pelas arbitrariedades dos comandantes com vidas alheias vistas como joguetes descartáveis. Enquanto os jovens extasiados pelos sonhos vendidos a eles passam fome e se alimentam com restos de comida, frio dilacerante e bebem água fétida para saciar a sede, os altas patentes, distante do front, participam de banquetes regados com os melhores vinhos e sobremesas suculentas, e ainda reclamam da qualidade que não está no ápice para seus paladares apurados. Uma ignomia recorrente, com uma triste mistura de lodo, sangue, bombas, punhais, tiros, mortes, discursos militaristas e arranjos nos gabinetes. Demora um pouco, mas logo os personagens se cruzam em suas peripécias de luta num roteiro flexível e complexo pelo clímax neurotizante sem tempo para delongas, deixando o fervor do cenário se diversificar. A reflexão fica estampada na carnificina doentia pela estupidez humana com resultado aterrador imposto ao olhos das testemunha dos fatos. Uma obra admirável que funciona quando retrata as individualidades e nas causas políticas e econômicas que pairam da loucura dos conflitos coletivos da chacina pela irracionalidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O Perdão

 

Arrependimento e Vingança

Vem do Irã em coprodução com a França o contundente drama O Perdão, que escancara o absurdo inominável da pena de morte. Um retrato digno da saga de uma mulher que luta corajosamente para exigir o reconhecimento da justiça, ainda que as autoridades se desculpem timidamente e ofereçam uma compensação financeira, pelo brutal erro cometido que levou seu marido, Babak, a ser executado. Além de dirigir e interpretar a viúva Mina, personagem central, Maryam Moghadam também assina o dinâmico roteiro ao lado de seu companheiro, Behtash Sanaeeha, e Mehrdad Kouroshniya. Abordagem contagiante da força feminina advinda da persistência para mostrar a todos que houve uma tenebrosa injustiça a um inocente, que por força das circunstâncias acabou confessando um crime que não praticou, mas que não tem volta, mesmo após ser descoberto o verdadeiro assassino. Uma obra corajosa que aponta o dedo para a questão da pena de morte e suas consequências trágicas e irreversíveis, que atingem a esposa da vítima e sua filha de oito anos, surda e muda, e seu fragilizado comportamento no colégio. Atualmente, estima-se que mais de 500 pessoas são executadas por ano.

O casal de cineasta coloca com precisão toda a tortura psicológica que sofrem as mulheres no Irã, especialmente por ter ainda que conviver com a segregação de gênero devido à condição de não ter nascido homem, bem focado no assédio sexual do inescrupuloso cunhado. Há uma boa similaridade nesta temática com o drama social egípcio O Truque da Galinha (2021), do diretor Omar El Zohairy. Por receber a visita masculina que se apresenta como um suposto amigo do marido, a protagonista é expulsa do apartamento que morava. Seu crime foi ter dividido o mesmo ambiente com uma pessoa do sexo oposto, a portas fechadas. Sofre as agruras da viuvez prematura ao tentar alugar um imóvel para residir com a filha. Um filme silencioso com um olhar feminino, de poucos diálogos, em que as imagens são reveladoras - principalmente após as manifestações recentes contra o atual regime teocrático do Irã, diante da morte da jovem Mahsa Amini, de 22 anos, presa e morta pela autoritária polícia dos costumes por não estar usando corretamente o véu na cabeça- torna o filme O Perdão atual e obrigatório a ser conferido. Foi amplamente noticiado pela imprensa os protestos em diversas ruas de Teerã e em outras cidades iranianas.

O desenrolar da trama é eloquente pela altivez da sensibilidade de focar a chaga maligna enraizada no seio de uma sociedade preconceituosa deste tema universal sobre a condição humana da mulher subserviente que busca seu espaço, e no filme, não desiste nunca de lutar pela honra enxovalhada do marido. Para isto, sobrou uma invejável força interior e uma resiliente capacidade emocional daquela mãe e esposa, que jamais se desequilibrou, mesmo que os transtornos se multiplicassem. Não se afasta do seu intuito, embora a vingança exceda os limites do bom senso diante do agente do sistema judiciário arrependido, visto como algoz, para buscar a redentora justiça, suscite uma discussão sobre o ato de perdoar contrapondo com a culpa não assumida expressamente. Polemiza a excrescência da pena de morte, figura jurídica incompatível com a possibilidade da reparação do erro. Esta realização nos remete para outra pequena obra-prima iraniana, Não Há Mal Algum (2021), vencedora do Urso de Ouro e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim, do festejado diretor Mohammad Rasoulof, preso em 2010, enquanto trabalhava ao lado do conterrâneo Jafar Panahi, sendo condenado a um ano de detenção e impedido de deixar seu país desde 2017. Foi laureado pelo público na categoria de Melhor Filme de Ficção Internacional na 44ª. Mostra de Cinema de São Paulo, abordou um tema pouco explorado, que é o perfil dos executores na aplicação da pena de morte ao transformar os aspectos psicológicos dos verdugos e seus relacionamentos pessoais, bem como a dinâmica da vida de cada um deles, direta ou indiretamente, além das questões morais e da pena capital imposta. Uma história fragmentada e ressonante na complexidade da essência cinematográfica dos grotescos julgamentos dos não alinhados ao regime.

A liberdade individual tem pouco valor e não pode ser expressa como livre expressão de vontade em um regime tirânico diante das ameaças incontornáveis como verdades absolutas e inquestionáveis, deixando traumas indeléveis em seres humanos submetidos a execuções, apontou Rasoulof. Ficou marcante a frase dita com acidez e ironia: “Se o homem foi condenado à morte, ele deve ter feito algo para estar ali”, sendo repetida reiteradamente. Parte-se da premissa que a polícia e o judiciário não erram, por isto, pressupostamente, não há falha na engrenagem funcional, e sendo assim inexiste espaço para questionamentos sobre alguma perseguição política contrária ao conjunto de leis baseadas no Alcorão que fortalecem os regimes teocráticos. Já os realizadores Moghadam e Sanaeeha enfatizam a frase repetida várias vezes à exaustão: "foi a vontade de Deus" para acabar com a discussão sobre as perversidades do regime tomadas para punir sem respeitar o estado de direito democrático, totalmente ausente. Assim foi também no último filme de Asghar Farhadi, Um Herói (2021), na melancólica impressão de perplexidade diante de uma realidade às avessas de uma sociedade de valores tradicionais, com alguns flertes com a modernidade, impacta com a opção de continuar preso um anti-herói devedor a um agiota à margem da lei.

Tanto no prólogo como no desfecho deste admirável drama O Perdão, estão presentes as cenas estranhas com a leitura enigmática de uma citação vinda do Alcorão, sobre a passagem da Al-Baqara, A Sura da Vaca, onde Moisés menciona a reparação pela morte de um homem. O pedido explícito para sacrificar uma vaca estática no pátio de uma prisão, para convencer o povo e os desígnios do profeta como motivo controverso a ser salvo ou sacrificado? Seria o passaporte para matar ou executar um transgressor da lei? Os dilemas controvertidos da vida e da morte como resposta a tudo? São enigmas a serem decifrados sobre o destino do animal ou do homem condenado pouco importando. O copo de leite redentor na última cena estaria decifrando o jogo de xadrez proposto. Ficam as imagens para reflexão dentro do contexto da opressão às mulheres simbolizada metaforicamente com a surdez e a fala inexistente da garota na sua passividade como elementos de instrumentos sub-reptícios do sistema vigente dominante pelo fundamentalismo encontrado nos tribunais de inquisição contemporâneos. São as particularidades da engrenagem judicial do país que chamam a atenção pela burocracia e parciais métodos duvidosos com o alijamento da ampla defesa. Mas há uma cumplicidade com o silêncio de outros personagens, onde as mentiras são desculpadas com facilidade para esconder a barbárie da triste realidade na injusta execução. Os absurdos são mantidos por uma sociedade completamente dominada pelo fanatismo do pensamento religioso e amordaçada pela burocracia oficial.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Ennio, O Maestro

Um Gênio Reverenciado

Empolgante com emoção à flor da pele, assim é o documentário Ennio, O Maestro que conta a vida e a carreira artística do lendário maestro italiano Ennio Morricone (1928-2020). O artista se tornou um dos mais conhecidos compositores de trilhas sonoras de filmes, especialmente os faroestes clássicos, além de dramas e sagas históricas. O diretor é o conterrâneo Giuseppe Tornatore, para quem trabalhou em Cinema Paradiso (1988) e A Lenda do Pianista do Mar (1998), bem como escolheu para realizar sua cinebiografia, filmar e entrevistar o biografado, com o apoio de inúmeros cineastas e parceiros próximos, por cinco anos, até 2019, um ano antes de falecer, em decorrência de uma queda em casa, onde fraturou o fêmur. Trabalhou até o fim para a inauguração da nova ponte, em Gênova, numa peça em memória das vítimas do desabamento da antiga que desabou e matou 43 pessoas, em 2018. Uma excelente amostragem das observações feitas no cotidiano, a vida que iniciou com um presente do pai na juventude, um trompete para se tornar músico, embora pretendesse ser médico. Gostava de inovar, porém jamais traiu sua origem da música clássica, em especial Stravinsky, que aprendeu com Goffredo Petrassi, o compositor, professor e principal mentor de Morricone. Mas, aos poucos foi migrando para a música da sétima arte, buscando inspiração em Johann Sebastian Bach e Beethoven.

O diretor apresenta com elegância e seu estilo peculiar o maestro no processo criativo, autor de mais de 500 faixas de música para cinema, televisão e obras clássicas. Abocanhou por duas vezes o Oscar. O primeiro como honorário pelo conjunto da obra, e o segundo com Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino, denominado como “hiperbólico” pelo seu exagero contumaz, ao se derramar em elogios a Morricone. As entrevistas e os depoimentos com artistas renomados passam pelo já mencionado Tarantino, Sergio Leone, Quincy Jones, Bruce Springsteen, John Williams, Liliana Cavani, Sergio Corbucci, Clint Eastwood, Paul Anka, Wong Kar Wai, Marco Bellocchio, Dario Argento e Bernardo Bertolucci, entre tantos outros. Também traz outros fatos não revelados sobre o compositor e arranjador, como seu amor por xadrez, que ajudou em suas composições, seu pensamento e motivos por trás de cada faixa. Para um dos entrevistados, o maestro era "geométrico, matemático"; para outro, era "espiritual, transcendental". O personagem central assistiu duas versões, uma com 6h40min; a segunda, com mais de 4h; mas o longa foi finalizado com uma duração de 156minutos, que passam voando, com gosto de quero mais.

Há alguma similitude de temática com outro grande compositor no documentário Aznavour por Charles, dirigido por Marc di Domenico, sobre o icônico cantor e compositor mundial Charles Aznavour (1924-2018). Celebrizado pelo público e pela crítica pelas suas canções marcantes com uma carreira de 70 anos e mais de mil canções escritas com participação em dezenas de filmes, inclusive menciona agradecido e carinhosamente a amizade com o cultuado cineasta François Truffaut, ao ter a oportunidade de fazer aparições breves em algumas das realizações do mestre francês. Ennio, O Maestro também traz na sua narrativa a essência do cinema e sua fusão com a música, sendo um filme sensível, delicioso e leve sobre o sentido existencialista, seus ensinamentos e emoções com fino humor decorrente de uma vida significativa deste maestro apaixonado por música clássica e sua derivação monumental para a cinematografia colocada na tela. É admirável a forma da engrenagem que contribui sobre a arte da criação musical com reflexos diretos no cinema. Foi construído com um prólogo arrastado de uma narrativa com quase 30 minutos para as apresentações pessoais do personagem documentado. Às vezes, com alguma simplicidade; em outras, na maioria, o amor, a dedicação e a dignidade estampada sobre o emblemático artista e sua vocação que transcende da música para o cotidiano dos mortais humanos. Rege harmonicamente com ardor sua orquestra e o grupo de coralistas, que gira em torno da vida através de suas canções inesquecíveis e seu olhar atento para uma impecável apresentação.

A realização estampa e foca a maturidade de Morricone para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A música clássica e a de cinema, esta denominada de absoluta, termo este que utilizava para falar sobre a produção concebida como um ato livre, não condicionada a outras expressões artísticas. Criou algumas das mais marcantes trilhas sonoras do cinema, como nos faroestes de Leone, Por um Punhado de Dólares (1964), Três Homens em Conflito (1966), Era uma Vez no Oeste (1968), e a obra-prima das trilhas em Era uma Vez na América (1984); dos filmes histórico-políticos de Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel (1966), Queimada (1969) e Ogro (1979); de Dario Argento, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970) e O Gato de Nove Caudas (1971); de Terrence Malick, Cinzas no Paraíso (1978); de Roland Joffé, A Missão (1986); de Brian De Palma, Os Intocáveis (1987); de Pasoline, Teorema (1968); de Elio Petri, Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970); de Giuliano Montaldo, Sacco e Vanzetti (1971); de Bertolucci, 1900 (1976). E tantos outros que foram mencionados com ilustrações de cenas inesquecíveis.

Ennio, O Maestro é um documentário intenso, grandiloquente, sublime e de formato espetacular, que vai muito além de enumerar os sucessos na eficiente montagem que une vários pontos de uma trajetória em que a música é o foco primordial da história contada. Admirável a menção especial ao seu grande amor, a esposa Maria Travia, união que durou 63 anos, a quem submetia as composições como consultora final antes de repassar para os cineastas. O artista fala com algum resquício de mágoa da lembrança outrora de quando houve a ocupação da Itália na Segunda Guerra Mundial, fato que nunca esqueceu diante da humilhação de tocar por um prato de comida. Também a tristeza de não ter composto para Laranja Mecânica (1971), embora consultado por Stanley Kubrick. Houve um dissimulado ruído de comunicação, pois Leone informou ao colega que não podia liberá-lo, tendo em vista que o longa Quando Explode a Vingança (1971) ainda estaria sendo realizado, numa pequena mentira do seu mais fiel parceiro. Eis um retrato pungente documentado da vida de um gênio e sua fervorosa vocação como compositor e maestro, com todo seu magnetismo e brilho quase inigualável no universo cultuado da música, em especial as trilhas sonoras para o cinema. Uma ode para os apreciadores da pura arte na companhia musical saborosa e sedutora neste tributo arrebatador.



quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Marte Um

 

Sonhos Familiares

Marte Um é a grande surpresa das produções brasileiras recentes. Tomou por empréstimo o nome de um programa espacial criado e lançado pela NASA em 2012, com o objetivo de levar uma tripulação humana para a colonização do planeta vermelho Marte. Indicado para representar o Brasil no Oscar de 2023, a escolha não poderia ter sido melhor; ganhador de quatro kikitos no Festival de Gramado deste ano (Melhor Filme do Júri Popular, Roteiro, Trilha Musical e Prêmio Especial do Júri) com aclamação do público presente e da crítica; teve a estreia no Festival Internacional de Sundance (EUA). O competente jovem mineiro Gabriel Martins, de 34 anos, dirige e assina o roteiro com muita sensibilidade e extrema habilidade. Tem em sua filmografia os longas Aliança (2014), O Nó do Diabo (2018) e No Coração do Mundo (2019), além do curta-metragem Nada (2017).

A trama começa após o anúncio das eleições presidenciais de 2018, com a posterior posse do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, como pano de fundo, num clima de incerteza, dúvida e angústia sobre o futuro do Brasil, principalmente para as camadas sociais de pessoas em situações vulneráveis economicamente. A família Martins é de classe média baixa, formada por pessoas negras, que vive às margens de uma cidade da Grande Belo Horizonte, dentro de um país sob o prisma do contexto impregnado pelo racismo estrutural. A história é contada com muita delicadeza e sutilezas sobre o microcosmo familiar, onde Deivinho (Cícero Lucas), um garotinho que imagina ser um astrofísico e participar da missão espacial que parece inalcançável. Porém, além da condição de pobreza, terá que convencer seu pai - o porteiro Wellington (Carlos Francisco), um fervoroso torcedor do Cruzeiro de Minas Gerais -, que tem outros planos. Ele sonha e deposita todas as esperanças que o filho se torne um grande jogador de futebol, com uma auspiciosa carreira. É o desejo de ascensão, ainda que jogue de óculos e tenha pouca intimidade com a bola, não mede esforços para colocá-lo no clube do coração, inclusive com o auxílio de um ex-craque cruzeirense, mesmo contra a vontade do menino.

O enxuto e prodigioso roteiro apresenta a mãe, Tércia (Rejane Faria), uma diarista que teria sido vítima de uma circunstância inesperada com resquícios nefastos. Ela terá sérios problemas com visões que motivam situações paranormais ao mergulhar em uma crise existencial por se achar uma pessoa amaldiçoada pelo fato pitoresco que vivenciou. No meio deste painel familiar de elucubrações, está a emponderada Eunice (Camilla Damião), filha primogênita que está na faculdade de Direito e vive uma paixão homossexual por uma jovem colega de espírito livre, que lhe questiona para sair de casa e buscar sua independência, como uma maneira objetiva de libertação para a fase adulta. Faz o papel de mediadora entre o pai e o filho, mas terá que lutar com inteligência para resolver seu destino e os tabus que irá encontrar dentro do eixo familiar e da própria sociedade conservadora e preconceituosa que lhe afetarão pela escolha de sua opção sexual.

Os méritos do cineasta são muitos na construção deste drama familiar e social que realça o poder de indignação e de sobrevivência de pessoas praticamente alijadas da sociedade. Mostra um realismo puro que reflete uma sociedade retrógrada de pensamentos e comportamentos quanto à cor da pele do indivíduo e a sua orientação sexual, que agem com o instinto machista, dominada essencialmente por brancos conservadores. O mérito maior é buscar a transformação para inquietar o espectador de maneira contundente pela dádiva de evitar a violência e o confronto brutal oriundos de propostas torpes de governos reacionários. Esta é a maior transgressão do ser humano, pela ótica do diretor. Eis uma saga com seus dilemas intrínsecos e extrínsecos, como a demissão sumária do pai pela síndica de um condomínio de classe alta, onde a alegria, a tristeza e o sonho são tão genuínos de seres descartados. Mas não há outra alternativa, senão em deixar a vida conduzir com dignidade e altruísmo trazidos de berço, para um futuro de sonhos e realizações, bem focados nos filhos do casal.

Marte Um não tem grandes reviravoltas no enredo, sequer cai em armadilhas quixotescas ou discursos vazios e enfadonhos. O filme não embarca no proselitismo político que poderia levar para o melodrama folhetinesco. O magnetismo do longa está na construção psicológica de personagens fortes e naturais, no qual encontramos pessoas de carne e osso de nosso cotidiano recheado de injustiças sociais no seio de uma família planificada com sentimentos puros, às vezes ingênuos, mas com instinto inalienável do afeto em tempos conturbados; em outras vezes, de sonhadores sensíveis e esperançosos, numa conexão direta com a realidade que atinge o alvo, ou seja, o espectador em sua zona de conforto. Cada personagem enfrenta com solidez as vicissitudes apresentadas pelos tombos do dia a dia. Uma espécie de corrente de apoio para manter viva a alma e a luz no fim do túnel como elemento inspirador de empatia e coragem para vencer os percalços que afligem os mais desprotegidos pela sua condição social, e o maniqueísmo epidérmico monstruoso da coloração. Embora a pobreza salte aos olhos como uma deplorável força arrasadora, há garra, dignidade e muita dor no coração e na alma contrapondo com as desigualdades que estruturam nossa sociedade.

Através da bela fotografia assinada por Leonardo Feliciano, com o embalo musical da trilha sonora de Daniel Simitan, bem pontual e sem atravessar o enredo, o drama reflete os efeitos sociais impactantes na abundante falta de solidariedade mesclada com o deboche arrogante. Aponta atitudes condenáveis que fazem sofrer pessoas realmente vitimizadas pelo infortúnio do destino neste triste relato que abala consciências lúcidas e revela as mazelas impregnadas pela desumanidade com os excluídos. O realizador conduz a trama com eloquência e admirável bom humor, ternura e amor para alcançar um efeito raro a ser encontrado. Este conjunto harmonioso estético o distancia de Parasita (2019), do festejado cineasta Bong Joon-ho, embora haja consideráveis similaridades de exclusão social com a obra-prima da Coreia do Sul. São paradigmas humanos resultantes de uma reflexão pontual, que faz com que as cenas tenham o caráter da luta contra a humilhação pela persistência contumaz. “A gente dá um jeito”, diz o pai em uma cena inesquecível, para não se afastar do futuro com marcas de uma esperança redentora comovedora, mostrando a importância do olhar de um para o outro nas relações de afinidades e sintonias familiares marcantes nesta extraordinária obra cinematográfica brasileira.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Um Herói

 

A Liberdade

O premiado cineasta Asghar Farhadi se notabilizou por realizações voltadas para seus conterrâneos, através de obras em que aborda os conflitos sociais do dia a dia, os aspectos morais da sociedade conservadora, as imposições religiosas, além de lançar um olhar sobre as gerações futuras e as relações com o passado. Assim foi com o inesquecível, talvez seu melhor filme, A Separação (2011), em que é o primeiro iraniano a ganhar o Oscar de Filme Internacional, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim. Depois viria conquistar novamente o Oscar em língua estrangeira com o admirável O Apartamento (2016), vencendo ainda em melhor roteiro e melhor ator no Festival de Cannes. Tem em sua filmografia importantes títulos, tais como o frenético e acolhedor À Procura de Elly (2009), ganhador do Urso de Prata de Direção no Festival de Berlim; O Passado (2013) abocanhou o prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, tendo sido sua primeira produção fora do Irã, com rodagem na França, testou suas habilidades em outra cultura. Mostrou-se um realizador voltado essencialmente para as coisas do cotidiano conflitado de seu país, embora bem distante de seu povo, não se afastou das relações intrincadas com a tradicional naturalidade. Todos Já Sabem (2018) foi seu penúltimo longa, agora em língua espanhola, reitera sua universalidade depois da experiência exitosa em francês, num misto de drama com thriller policial.

Laureado em Cannes com o Prêmio do Júri, Um Herói, lançado no Festival Varilux, segue a trajetória narrativa semelhante aos dramas anteriores A Separação e O Apartamento. Aborda a história de Rahim Soltani (Amir Jadidi, de estupenda interpretação), um calígrafo que está preso por conta de uma dívida que não conseguiu pagar, mas que ao ganhar um benefício de dois dias fora da prisão, tenta convencer o seu credor a retirar a queixa, oferecendo o pagamento de parte do valor devido. Com o auxílio da namorada, Farkhondeh (Sahar Goldtur), que esboça apenas um sorriso no frio encontro diante da proibição do contato físico entre homens e mulheres no país, um obstáculo a mais para se filmar que é repassado pelo diretor ao espectador. Assim como é vetado no cinema lá realizado à dispensa do xador que deixa apenas os olhos sem proteção, embora o cenário seja na distante Shiraz, no sudoeste do país. A origem do dinheiro para pagar o empréstimo é uma sacola de moedas de ouro encontrada numa parada de ônibus, que é trocada em espécie em uma loja de câmbio de acordo com a valorização do dia, mas que dá apenas para pagar metade da dívida para o agiota.

Antes, Farhadi coloca a situação como dúvidas éticas e morais do endividado quanto ao direito de usufruir das moedas. Ingenuamente, ele espalha cartazes procurando o verdadeiro dono, após tentar vender e descobrir que a cotação está em baixa. Inevitavelmente surge uma vigarista que conta um melodrama familiar, alegando que seriam economias guardadas e escondidas de um suposto marido inconfiável. Diante da devolução à mulher, esta desaparece sem deixar rastros. A trama toma contornos inverossímeis como uma torrente de situações absurdas do cotidiano kafkiano que recai sobre o protagonista com repletas adversidades por tintas doloridas que impregnam suas relações familiares já abaladas pela desgraça da prisão. Tudo fica completamente fora de controle e ele cada vez mais se sente encurralado. Vai perdendo a credibilidade até no seio da família, inclusive de seu filho, dos amigos, e dos colegas de cela. Os dois dias de liberdade vão se esgotando, tudo parece conspirar contra. Está num beco sem saída e as circunstâncias contrárias aumentam, enquanto que nada evolui para a busca do perdão do credor. Mas surge uma tênue luz no fim do túnel que poderá ser sua salvação, quando é eleito na prisão como um modelo de homem ético, honesto e indulgente. A imprensa é chamada para entrevistá-lo e sua boa imagem toma conta da televisão, deixando-o conhecido, porém também há uma incrível inveja que vem emergir. Tenta arrumar um emprego para quitar toda a dívida e receber o indulto, mas numa engenharia do roteiro as conjunturas irão ao sentido contrário com uma mescla de corrupção subreptícia de vários setores do sistema teocrático vigente predominado pelo fanático fundamentalismo. Surgem os questionamentos nas redes sociais com vídeos e opiniões agindo como tribunais da inquisição contemporâneos, que tomarão conta nos debates sobre a verdadeira identidade do personagem central, se um falso altruísta ou um brilhante dissimulador.

A narrativa construída pelo cineasta é advinda da forte influência do neorrealismo italiano, movimento cultural surgido na Itália ao final da Segunda Guerra Mundial, cujas maiores expressões ocorreram no cinema. Seus maiores expoentes foram Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que iria influenciar a cinematografia produzida no Irã, como os cineastas Abbas Kiarostami em Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999), bem como de Mohsen Makhmalbaf com o admirável A Caminho de Kandahar (2001), em que os detalhes são fundamentais de um realismo puro que reflete uma sociedade machista atrasada e completamente arcaica de pensamentos e comportamentos retrógrados. As possíveis soluções são buscadas dentro de um contexto de personagens fragilizados pelas feridas abertas, dando margens para os fantasmas se locomoverem de um lado para outro neste jogo de xadrez. O passado é colocado em xeque nas vidas entrecruzadas com fragmentos rancorosos sobre amor, dinheiro, frustrações, ética, manipulações e ganância.

Um Herói sintetiza uma moralidade repressora por costumes obsoletos e corrompidos de um microcosmo de vínculos familiares rompidos por situações oriundas da inveja pela fama repentina de um prisioneiro. Acompanha a rotina dos parentes próximos na construção psicológica, onde ninguém é esquecido pela câmera numa estética pragmática, sem que a imagem abandone todos os personagens envolvidos. O desenvolvimento do enredo bem urdido vai ao encontro do criativo epílogo que sinaliza uma esperança tênue, embora difusa e pouco luminosa. Deixa uma melancólica impressão com um misto de perplexidade diante de uma realidade às avessas de uma sociedade de valores tradicionais, com alguns flertes com a modernidade, onde celulares último tipo e redes sociais começam a predominar. Impacta com a opção por um criminoso condenado à morte em detrimento de um inadimplente anti-herói com um agiota à margem da lei. As particularidades do sistema judicial do país chamam a atenção pela burocracia e parciais métodos duvidosos com o alijamento do estado de direito democrático, bem contado em A Separação. Com elegância e sutileza, Farhadi deixa o primoroso desfecho para reflexão sobre qual foi a melhor escolha. Um filme extraordinário que coloca a dignidade nas entrelinhas sobre questões controversas, usando a sensibilidade para apontar a prepotência estatal com seus valores discutíveis neste conteúdo de protesto silencioso dos dissabores e as complexidades das relações humanas do povo com sua pátria mãe, como elementos indispensáveis que contribuem para as angústias de um imenso sofrimento que ainda restam como sombras permanentes.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O Truque da Galinha









Mãe e Filhos

Vem do Egito em coprodução com Holanda, Grécia e França o disruptivo e cativante drama social O Truque da Galinha, do jovem diretor estreante Omar El Zohairy, de 33 anos, que assinou o roteiro em parceira com Ahmed Amer. Venceu o Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Cannes. O cineasta construiu uma narrativa que se aproxima do neorrealismo italiano, movimento cultural surgido na Itália ao final da Segunda Guerra Mundial, cujas maiores expressões ocorreram no cinema, tendo como seus maiores expoentes Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que iria influenciar a cinematografia produzida no Irã. Tem na dinâmica descritiva a inspiração dos cineastas iranianos Abbas Kiarostami em Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999), bem como de Mohsen Makhmalbaf com o admirável A Caminho de Kandahar (2001), em que os detalhes são fundamentais de um realismo puro que reflete uma sociedade atrasada e completamente arcaica de pensamentos e comportamentos retrógrados que agem com o instinto machista de métodos clássicos utilizados pela máfia.

A trama gira em torno de uma família forçada a um período de autodescoberta, depois que seu patriarca autoritário endividado com a fábrica em que trabalha é acidentalmente transformado supostamente em uma galinha por um truque de mágica que dá errado na festa de aniversário de um dos filhos. Uma avalanche de coincidências absurdas do cotidiano kafkiano recai sobre todos como uma fábula adulta repleta de adversidades com sabor melancólico impregna o microcosmo familiar abalado pela desgraça. A calada mãe (Demyana Nassar), cuja vida foi dedicada ao marido e aos três filhos menores, um ainda sendo amamentado, vai ser o foco da aterradora situação. Moram numa casa humilde, uma típica tapera com paredes sem tinta, pouca iluminação, raros móveis, uma precária televisão, e a fumaça cinzenta da fábrica vizinha invadindo constantemente a residência quando a janela está aberta. Logo, o ambiente anoitece imediatamente como num estalar de dedos. Ela é uma brava leoa na defesa de seus filhotes, que assume a condição de administradora do lar para lutar com uma dignidade comovente. Tenta encontrar o marido, mas passa por humilhações e assédios, inclusive por um homem familiar, a quem se vinga com inteligência atroz. Busca emprego em vários lugares, mas acaba despedida por alguns desatinos para a subsistência. Consegue colocar para trabalhar num subemprego o filho mais velho de pouco mais de 10 anos, mas ainda assim as contas se avolumam cada vez mais, inclusive o aluguel atrasado por três meses seguidos.

O filme tem parâmetros em outra produção egípcia, Yomeddinne- Em Busca de Um Lar (2018), do roteirista e diretor Abu Bakr Shawky, que representou o país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Abordava um homem pobre, catador de lixo que decide sair pela primeira vez do confinamento da colônia de leprosos de uma comunidade isolada onde foi abandonado quando criança, para embarcar numa jornada até sua cidade natal, à procura da família e saber o motivo pelo qual seu pai nunca cumpriu a promessa de voltar para buscá-lo. Também há similitude com o provocante drama social Cafarnaum (2018), de Nadine Labaki, que representou o Líbano na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2019. Retratava os perigosos desatinos pelas rupturas dos laços que unem os respectivos membros familiares, além de mostrar os problemas de imigração e o descontrole da natalidade, com boas doses de manifestações positivas que vão ao encontro dos anseios de justiça social. O Truque da Galinha, um título condescendente com a brutal realidade, embora remeta para uma comédia, passa longe deste gênero, pois sua construção é oriunda do absurdo que vem para escancarar uma dura veracidade de uma sociedade patriarcal extremamente machista e conservadora. Embora seja doloroso na sua temática, tem como grande mérito ser transformadora para inquietar o espectador de maneira contundente e transgressora.

O promissor realizador mostra talento para abordar um filme complexo na sua essência pontilhada pela amargura de uma família em frangalhos. A perda momentânea do pai gestor que evaporou de circunstâncias pouco esclarecidas pelas autoridades policiais, que irão dar uma resposta na trama quase no desfecho, deixam margens para dúvidas e especulações sobre a verdade do desaparecimento. O inusitado epílogo remete para um semelhante no extraordinário drama Amor (2012), de Michael Haneke, soa como uma atitude redentora e reflexiva sobre os métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional da grande amizade mesclada com amor e sofrimento. Retira os véus dos bons costumes, dando um tapa na cara da infelicidade, como fez a protagonista num ato de desabafo e desespero, partindo para o confronto entre a vida e a morte, diante das emoções existenciais sobre o progressivo fim do ser humano virado um farrapo. Aquele cenário insalubre com a presença da galinha ciscando sobre a cama, mostrado em quadros fixos, repleto de silêncios perturbadores e incômodos ruídos externos, conduzem para uma densa contemplação que beira o apocalíptico mundo das mulheres excluídas pela violência latente, às vezes; e recorrentemente severa. A pobreza salta aos olhos como um deplorável elemento de uma força propulsora arrasadora. Com garra, dignidade e muita dor no coração e na alma, a protagonista dá uma aula de lição de vida pela sobrevivência dela e de seus filhos. São paradigmas humanos resultantes de uma reflexão pontual, que faz com que as cenas tenham o caráter da luta monumental daquela criatura humilhada, sem piedade.

Um drama com efeitos sociais impactantes na abundante falta de solidariedade mesclada com o deboche arrogante, através de atitudes condenáveis a pessoas realmente vitimizadas pelo infortúnio do destino neste relato cruel, mas aterrador na manifestação da arte cinematográfica que rasga a mente, abala a consciência e revela o caráter dizimante de uma casta de pessoas poderosas contagiadas pela desumanidade com os excluídos da sociedade dominada pelos homens. Importando-se muito pouco com os necessitados próximos. Além da paupérrima vida da personagem central com seus filhos dependentes, tem ainda que conviver com a segregação de gênero devido à condição de ter nascido mulher. Um filme com um olhar feminino, de poucos diálogos, em que as imagens chocantes revelam os enigmas apresentados pelo enxuto roteiro. O desenrolar da trama é eloquente pela altivez da sensibilidade de focar a chaga maligna enraizada no seio de uma sociedade preconceituosa deste tema universal sobre a condição humana da mulher, que passa pela pujança estimulante de impor sua vontade para um futuro da liberdade inegociável. Para isto, sobrou uma invejável força interior e uma resiliente capacidade emocional naquela mãe, que nunca se esvaiu ou se desequilibrou, mesmo que os transtornos se multiplicassem, para não se afastar do amanhã com marcas de uma esperança redentora.