quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Relatos Selvagens
















A Civilidade Vingativa

A 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo abriu com Relatos Selvagens, que já está em circuito comercial e vem precedido de ser um fenômeno de público, com mais de 2,8 milhões de espectadores na Argentina. Tem recebido elogios constantes da crítica este postulante da Argentina a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi o selecionado para a Competição do Festival de Cannes deste ano, nesta coprodução dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar. Uma típica comédia de humor negro de Damián Szifron, também responsável pelo instigante roteiro que não faz concessões ao revelar sentimentos que transitam pelo surrealismo e atinge em cheio o espectador com o modo improvável que lidam os personagens com as situações absurdas e fantasiosas do cotidiano.

O diretor que tem em sua filmografia dois longas-metragens: El Fondo del Mar (2003) e Tempo de Valentes (2005), conta seis histórias independentes, imprevisíveis, divertidas que exploram o tema da vingança de maneira desafiadora. Já no primeiro episódio, a situação é bem peculiar no avião, a partir de uma singela cantada de um crítico musical de meia-idade (Dario Grandinetti) numa jovem modelo (Maria Marull) que resultará num desfecho inusitado. O fator desforra está presente novamente no restaurante de beira de estrada, quando a garçonete do estabelecimento (Julieta Zylberberg) recebe um cliente bem conhecido do passado numa noite chuvosa, a conclusão é trágica com a entrada em cena da cozinheira perversa (Rita Cortese).

Na quinta história, há a tramoia para salvar um garoto playboy que mata uma gestante e seu filho. Entra como ingredientes indigestos a corrupção e o dinheiro que compra tudo, arquitetado pelo pai (Oscar Martinez), um advogado e um investigador de polícia. Acaba sobrando para o jardineiro humilde, pobre e ingênuo (Germán Silva), numa alusão de que a vida de um vale mais do que a de outro. Crítica ácida ao sistema corrompido que passa por cima como uma patrola do mais necessitado financeiramente, em favor do melhor aquinhoado. No último evento, está a traição nas cenas de um casamento, não as de Ingmar Bergman em sua obra-prima, mas da noiva (Erica Rivas) que descobre no dia da festa da cerimônia que seu recém-marido (Diego Gentile) a trai com uma colega de trabalho. Vira uma batalha tragicômica ao melhor estilo pastelão, duradouro e excessivo. É o mais fraco de todos pela redundância exagerada diante da falta de um corte na hora certa pela montagem.

O realizador está ótimo no terceiro episódio, um dos melhores, quando nos remete para uma perseguição de carro numa estrada, em que dois motoristas (Leonardo Sbaraglia e Walter Donado) se ofendem numa discussão banal de trânsito que desencadeará numa aventura animalesca de fúria, ao melhor estilo da violência registrada nos filmes de Quentin Tarantino, ou ainda na inesquecível perseguição no suspense Encurralado (1971), de Steven Spielberg. Ali está destilado todo o ódio e a ira com o sentimento da barbárie que entram em rota de efervescência como numa caçada humana em que o homem vira irracional num desfecho espetacular que se confundem presa e predador. Mas Szifron, um dos mais promissores cineastas do cinema argentino, chega ao ápice na quarta parte, na qual o engenheiro (Ricardo Darín- sempre elegante na interpretação) sente-se injustiçado pela prefeitura do município em que trabalha e reside. Seu carro é guinchado várias vezes, até surgir com maestria na trama o instinto vingativo com uma técnica magnífica, num desabafo contra o sistema de governo opressivo reinante que sufoca o cidadão de bem e o faz um marginal aos olhos da comunidade e o humilha perante a família, como a filha que espera o bolo de aniversário e a esposa em conflito matrimonial, prestes a se divorciar. A cena no presídio é impagável e sintetiza uma escolha às avessas do politicamente correto, numa edificante volta da autoestima diante da dignidade maculada.

Relatos Selvagens retrata uma realidade cruel e imprevisível de personagens que transitam sobre a tênue linha divisória que separa a civilidade da barbárie. Um filme que aborda o pequeno detalhe do cotidiano que vira uma caçada; ou uma traição amorosa; o retorno ao passado trágico; uma simples viagem de avião que vira uma violência descontrolada; ou ainda um problema de trânsito local que desemboca numa catarse decorrente da perda do controle pelo excesso burocrático aliado com uma corrupção que virou praga daninha, também presente na polícia, na família como alegoria de um país que sufoca seus filhos.

Com a exímia fotografia de grande estilo visual de Javier Julia, a boa trilha sonora de Gustavo Santaolalla combinada com um elenco coeso e irrepreensível, contribuem para esta bela comédia girar em torno da humanidade do homem bom até ter seus instintos primitivos fustigados no seu interior num cenário brutal. No momento em que a estima é cutucada em boa dose, logo os valores se corrompem e destroem o equilíbrio com o vínculo existente da civilização, passa para a selvageria desenfreada que choca a criação equilibrada e a lucidez se esvai de forma definitiva e eloquente num clímax arrebatador pela maturidade estética do bom cinema com um ritmo forte e seco surrealista, sem desprezar a mordaz ironia da crítica social como reflexão deste hospício chamado mundo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Amei este filme!