Sexo sem Prazer
Lars von Trier inovou com Os Idiotas (1996), primeiro filme do movimento Dogma 95, criado por
ele em parceria com Thomas Vinterberg, no mês de março de 1995, na Dinamarca.
Era um manifesto cinematográfico internacional com dez regras de ética e
valores, também conhecido como voto de castidade, tendo como o objetivo
principal o resgate de um cinema mais realista e menos comercial, anterior à
exploração industrial de Hollywood. Depois veio Dançando no Escuro (2000), conquistando a Palma de Ouro de melhor
filme, consagrou o movimento com o extraordinário Dogville (2003), que teve sequência com Manderlay (2005), fiel ao estilo proposto de simplicidade, sem
artifícios e pirotecnias, mantendo o padrão da filmagem em 35 mm , com pouca luz
artificial e cenários externos exclusivamente. Foi a mais inventiva escola,
depois da celebrizada Nouvelle Vague.
Depois de ingressar no cinema fantástico, com dosagens
intercaladas de drama e suspense, mergulhou no inconsciente humano e no exorcismo
dos fantasmas da mente como fez com perfeição em Anticristo (2009), voltou-se para a arte do catastrófico, numa
mistura de drama e ficção científica em Melancolia
(2011), tendo como referência um casamento que prenuncia a desagregação
familiar e com extensão ao universo em extinção pelo apocalipse que se
avizinha. A protagonista seduz e se relaciona com a morte de maneira harmônica
e mórbida, através de sua crônica crise de depressão. Como decorrência, abandona
definitivamente o movimento Dogma 95.
Precedido de um grande marketing com cartazes espalhados de
apelos sexuais em rostos de atores simulando orgasmos e a promessa de um filme
forte, chega às telas o badalado Ninfomaníaca-
Volume 1, embora indicasse uma obra nos moldes de Azul é a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche, na realidade
afasta-se do erotismo puro, para abordar a sexualidade sem prazer. A perversão
é apontada como a causa e a culpa um ingrediente de uma resposta à vida de Joe
(Charlotte Gainsbourg, que repete a parceria com o diretor desde Anticristo) até seus 50 anos. A
protagonista faz o relato a Seligman (Stellan Skarsgard), um homem com jeito de
pastor ou padre, que a encontrou desmaiada no meio da rua. Ela abre seu coração
para aquele senhor que adora pescar e utiliza métodos para atrair trutas, bem
como as iscas sendo um paralelo com a moça no confessionário. O foco da
narrativa é centrado na trajetória de sua vida em flashbacks, desde os 02 anos
de idade, passando pela fase da juventude na interpretação com grandes méritos
pela inglesa Stacy Martin. Porém, a cena inesquecível está por conta de Uma Thurman no papel de uma das esposas traídas, ao levar os três filhos até a casa em que o marido adúltero frequenta.
Dividido em dois, pois em março chegará a segunda parte como
um grand finale para as respostas
colocadas nos cinco capítulos que compõem o filme neste primeiro volume. É
alicerçado e pavimentado com todo o cuidado estético de uma construção, para a
conclusão posterior das paredes, aberturas e o telhado como o último e
definitivo componente de uma grande engenharia arquitetônica. A protagonista é
colocada cara a cara com seu interlocutor e a tentativa de entender o desprazer
sexual, embora haja uma voraz capacidade de insaciabilidade de manter relações
com homens de todos os tipos e de diferentes tamanhos dos seus respectivos
órgãos genitais. A relação com o pai (Christian Slater) e a excitação na sua
morte, diante de um vínculo estreito com aquele homem romântico, que fala de
folhas e das árvores no outono, são como um amor contido e a indicação silenciosa
de um complexo de Electra, visa resgatar a culpa e por consequência o elo com a
perversão, diante de uma pura emoção de menina para possuir o pai.
Ninfomaníaca- Volume 1
é um filme que parte de um encontro casual, após um estupro, com as
revelações se sucedendo com explicações para uma situação atípica. As alegorias
da mosca na parede e do anzol tentando fisgar o peixe são momentos bem
elaborados pelo diretor, para que Seligman encontre as razões como tentativas
de soluções plausíveis para consolar a vítima. Uma espécie de terapeuta
momentâneo que busca na matemática e na música polifônica as respostas para os
desatinos de Joe e seu comportamento fora dos padrões, neste drama bem construído
com vigor nesta primeira parte, que promete cenas picantes e situações ainda
mais instigantes na continuação, como demonstrado na tela dividido com os
letreiros no epílogo.
Von Trier está sempre envolto numa boa polêmica, como no
Festival de Cannes de 2012, ao dizer numa entrevista coletiva que “entendia
Hitler”’, causou furor e repulsa, razão pela qual foi obrigado a abandonar o
festival. É um diretor que não passa despercebido, sendo odiado por uns e
venerado por outros, o que faz dele um cineasta singular e comprometido com um
cinema perturbador na essência, diante de uma verve de expressão eloquente e muito
distante da mesmice burocrática. Um Pasolini contemporâneo (Decameron, de 1970 e Saló, de 1975) que jamais passa sem ser
discutido com fervor, o que com isto ganha a sétima arte e o universo dos
cinéfilos, ao crescer magistralmente diante de reflexões sempre contundentes,
controvertidas e significantes.
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