sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Juan e Evita- Uma História de Amor



Bastidores do Poder

A trajetória de um dos maiores mitos da política na América do Sul entrecortada pelos jogos de poder com toda sua emblemática relação com o povo argentino e a grande paixão por uma jovem atriz de rádio, eis os principais ingredientes do roteiro que enfoca o romance de María Eva Duarte (Julieta Díaz), conhecida como Evita (1919-1952), torna-se uma líder política e casa-se antes da eleição com o todo poderoso general Juan Domingo Perón (Osmar Núñez) e assume a condição de primeira-dama no longa de estreia de Paula Luque, que também assina o roteiro, Juan e Evita- Uma História de Amor, ganhador do prêmio de melhor filme em Bogotá. A diretora é a mesma de um imbróglio recente em seu país sobre a cinebiografia do ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010), que foi retirada do cineasta uruguaio Adrián Caetano e passada para as suas mãos. Após a estreia fracassada da versão oficial de Luque em 93 salas de cinema do país, em novembro de 2012, a versão oficiosa e inacabada do uruguaio vazou na internet no início deste mês, houve comparações e muita polêmica.

O drama é ambientado em 1944, num período de 18 meses, após um terremoto na cidade de San Juan, o coronel viúvo aproxima-se da bonita Eva, dando início à famosa relação de amor abalada pela ditadura no país. A cineasta retrata a história da vida daquela moça interiorana e o caminho meteórico que ela percorreu na vida pública até falecer em apenas sete anos. Saiu do anonimato para se tornar uma das mulheres mais importantes e poderosas do planeta, num mundo em que desconhecia os meandros e falcatruas, mesmo com os mistérios e obscuridades de sua trajetória ela foi marcante, uma celebridade pelo seu sucesso absoluto pessoal e político da vida, para em seguida deparar-se com a morte prematura, vira “santa Evita dos pobres” num processo de catarse coletiva pela sacralização.

Embora a película não aprofunde o governo peronista, sem ter um olhar mais crítico, fica evidente que Evita era uma figura chave de um regime ancorado no paternalismo de um caudilho. A primeira-dama é apresentada como resistente pela sua imagem personalista de pessoa forte, às vezes alheia e logo superior e dona da situação conturbada que rodeava o casal. Perón fraquejava como um grande estadista, mas tinha ao lado um esteio sobre o qual o governo ora oscilava, ora ascendia. Ganha voz própria pela sua ambição de pretensões sociais, como o assistencialismo aos pobres e o sistema de poder pela sedução das massas, de uma coletividade. O regime está corrompido, mas cambaleia e sustenta-se com muita fragilidade pela demagogia.

Um filme em que Perón é visto acumulando a vice-presidência, secretário geral do Trabalho e Previdência Social e ainda ministro das Forças Armadas, numa época turbulenta de crise entre os EUA e a Alemanha. A Argentina mergulhada numa crise política sem precedentes. Luque enfatiza a aproximação e a participação direta em decisões fundamentais de Evita no governo do presidente militar Edelmiro Farrell, com um apoio parcial do exército, tendo a marinha como oposição e dividindo o poder, levando Perón à iminente renúncia.

O longa é dividido em três episódios na vida do mitológico casal: o amor, o ódio e a revolução, sendo que a prisão de Perón enraivece os defensores do assistencialismo e faz eclodir uma greve patrocinada pelos sindicatos simpatizantes. A bandeira do paternalismo é desfraldada e mexe com o imaginário do povo que vai às ruas e o faz voltar nos braços da multidão enlouquecida, como se vê em imagens por flashbacks da época, onde centenas de milhares de pessoas tomam as ruas de Buenos Aires, a Praça de Maio em direção à Casa Rosada, diante do acordo de Farrell com o ex-vice para libertá-lo.

Juan e Evita- Uma História de Amor conta a história do casal protagonista, com recheios políticos suaves nos bastidores que bem poderiam render um filme mais realista e contundente e não tão comprometido em ser simpático ao peronismo. Segue um roteiro didático de boa dose equilibrada de dramaticidade, numa relação amorosa que deu tango, tragédia e uma reverência incomum até hoje. Mas o filme para por aí, não menciona e nem faz qualquer alusão ao período posterior de Isabelita Perón, que governou de 1974 a 1976, foi a última esposa do general desde 1961. É intencional, faz concessões para manter de certa forma imaculada a imagem de Juan Domingo, sem um mergulho nas crises do governo. É induzida uma reflexão de um homem bom e voltado para as dificuldades de seu povo, sem arranhar a imagem construída neste drama político romanceado em plena era do rádio, realizado de forma linear para agradar os argentinos, dá uma razoável contribuição.

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