terça-feira, 6 de setembro de 2016

Café Society


A Escolha

Woody Allen mesmo se reinventando, ou seguindo sua trajetória de comédias de costumes e dramáticas, ou ainda nos dramas com pitadas de suspense com humor cáustico, mantém fiel o sarcasmo e a sutil ironia fina como marcas registradas de sua extensa filmografia, por ser um dos melhores cineastas em atividade no mundo. Café Society é o 48º. longa-metragem do diretor e roteirista que nos remete para a lenda do vinho: “Quanto mais velho é melhor”. Assim como no filme anterior, Homem Irracional (2015), também não atua, mas mantém o vigor e a capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do cotidiano e a análise dele mesmo através desta fascinante história de amor que é contextualizada no final dos anos de 1930, mesclando a burguesia da sociedade hollywoodiana no ápice dos anos dourados com o submundo mafioso do bairro Bronx de Nova Iorque. Uma fábula magnífica sobre a impossibilidade da felicidade desfeita de um sonho pela ganância do dinheiro diante da acomodação e das circunstâncias periféricas que rondam destinos.

Numa visita à filmografia de Allen, Zelig (2003) é uma de suas das obras-primas; bem como se vislumbra uma retomada do inesquecível longa, talvez o maior filme do velho mestre, A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película para fugir do martírio de sua vida sem graça. Porém Café Society se aproxima em muito das melhores realizações do velho mestre que centra seu foco no cenário de uma família judia, cujo tio, Phill Stern (Steve Carell) é um renomado agente de grandes estrelas em Hollywood; o sobrinho mais velho, Ben (Corey Stoll) é um gângster; a irmã do meio, Evelyn (Sari Lennick) é uma professora casada com o filósofo comunista Leonard (Stephen Kunken); e o caçula, Bobby (Jesse Eisenberg é o ator-fetiche perfeito para alter ego do cineasta), um jovem ingênuo que procura um lugar digno para sobreviver, mesmo sem rumo, deixa para trás os pais e vai para Los Angeles arrumar um emprego com o poderoso irmão da sua mãe (Jeannie Berlin). Lá chegando, encontra Vonnie (Kristen Stewart), a bela e charmosa secretária do tio, que o leva para fazer um tour na cidade. Os corações explodem de paixão, mas ela tem um namorado secreto, embora casado, não a deixa e usa do poder financeiro, motivo brutal para a fantasia ser superada pela realidade.

A comédia dramática reflete as esperanças e desilusões dos destinos cruzados que irão ao poucos se afastando na ciranda de situações e enroscos que se apresentam na urdida trama. Bobby volta para Nova Iorque, onde gerenciará um luxuoso clube do irmão bandido que manda desovar corpos em construções de prédios. A casa noturna é frequentada por artistas, celebridades, milionários e gângsteres. Mergulha com profundidade nos relacionamentos despudorados e interesseiros, nas traições com método de sedução convencional. Os personagens do cineasta muitas vezes são reescritos, às vezes com bons resultados e em outros se superam. Mais uma vez parte dos desajustes do amor e da paixão para ingressar na melancólica solidão existencial do amargo romance, como no estupendo desfecho da entrada de um novo ano. Tudo isso regado com apreciável sutileza e a analogia inteligente nas colocações para armadilhas lançadas com primazia no enredo, como típicas características de Allen.

As relações interpessoais e os romances frustrados servem de alicerce para explorar uma narrativa densa nos aspectos históricos dos EUA. Além da música pela celebração do jazz, retrata os valores da tradição, da cultura e da religião judaica, bem como o cotidiano dos usos e costumes da família judia com suas diversidades de fracassos e sucessos contrastando com ensinamentos da crença dos cristãos, para alcançar as diferenças fraternais na constituição familiar como elementos primorosos numa abordagem de assuntos que vão do adultério a negócios. O triângulo amoroso é outra marca do diretor, que sabe explorar com sensibilidade os meandros da alma nesta contribuição significativa para o cinema voltado para os acontecimentos rotineiros do amor, da paixão desenfreada, os fracassos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas, pelo olhar profundo deste assumido realizador bergmaniano. Satiriza e ironiza a vida pelos vestígios eivados de perturbações latentes reveladas, mas isso não é o todo, apenas um resultado através da busca do significado existencialista.

Houve crítico comparando com bons argumentos a similitude com o clássico Casablanca (1942), de Michael Curtiz, e a referência na obra de Allen com Sonhos de um Sedutor (1972), onde uma mulher ama dois homens, mas com diferentes formas pelo contexto, porém terá que fazer a inusitada escolha. As razões não são discutidas, porém a renúncia do prazeroso amor pelo status da segurança refletirá na melancólica dor sem volta das vítimas do coração. Café Society é uma realização espetacular não só por ser deslumbrante visualmente, mas pela retomada das ideias como as relações frívolas da Broadway, pelos diálogos primorosos, pelos encontros e desencontros, a harmonia lúcida na essência da existência, mas principalmente na felicidade rompida do sonho pela realidade financeira. O difícil é apontar, ou achar, algum defeito deste octogenário diretor cerebral que constrói um filme revelador com a leveza e a suavidade da soberba trilha sonora do recorrente jazz, e ainda da fabulosa fotografia assinada por Vittorio Storaro de O Último Imperador (1987). Insere-se como um dos dez melhores do ano.

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