segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Simples Mortais



















Painel de Frustrações

Uma estreia razoável do diretor de Mauro Giuntini com este drama do cotidiano Simples Mortais, uma produção de 2007, que só agora chega nas salas de cinema do Brasil. Há uma boa relação comparativa com o documentário Um Céu Sobre os Ombros (2011), de Sérgio Borges, onde três criaturas aparentemente exóticas flutuam com seus dramas pessoais na cidade de Belo Horizonte, numa abordagem digna e bem retratada das vidas perturbadas, com uma direção bem equilibrada, ainda que pessimista do cineasta mineiro. Possivelmente teve inspiração no longa de Giuntini realizado quatro anos antes ao filme de Borges.

Simples Mortais não é tão bom quanto o documentário de Minas Gerais, pois peca em alguns excessos, tem planos excessivos e alguns diálogos maçantes e desproporcionais. O corte custa para entrar e as cenas se esvaziam em seus conteúdos. Não chegar a invalidar os méritos do filme, mas mascara em muito, especialmente as cenas do funcionário público viúvo Amadeu (Chico Sant'Anna), que nas horas vagas toca músicas sentimentais nos restaurantes para completar as finanças. Seu objetivo é incutir uma profissão com diploma universitário no filho Kdu (Eduardo Moraes), que quer seguir a carreira de músico do pai. Mas os diálogos entre estes dois personagens são longos demais e a cena da defecação da chave da porta é escatológica e desnecessária. Fica forçado pai e filho fumarem um baseado e projetarem um futuro, mesmo desejando ao jovem ser um grande homem.

As vidas vão se cruzando e Jonas (Leonardo Medeiros- sempre em ótima forma) demonstra suas frustrações como um escritor sem inspiração, pois vive um momento de fragilidade com sua esposa pragmática Kátia (Alice Stefânia), até surgir em seu caminho a sua musa inspiradora, a bela aluna de literatura Yara (Tatiana Muniz) na faculdade em que dá aulas. O casamento está abalado pela crise conjugal e até mesmo o pássaro engaiolado, fraterno amigo do intelectual nega-se a fugir, apesar de instigado. Esta cena simboliza como metáfora da prisão em que o casal se encontra e mesmo com o relacionamento corroído, o escritor tenta resistir ao extremo os encantos da provocante garota apaixonada por poesia.

No outro ponto do vértice está Diana (Narciza Leão), uma jornalista bem-sucedida que apresenta um famoso jornal televisivo à noite- numa referência ao Jornal Nacional- e faz entrevistas com deputados e senadores. Seu desencanto começa com a classe política, passa pela sua vida metódica e bate de frente com o marido, um ator de teatro que está indo à loucura, diante da ansiedade da mulher em engravidar a qualquer custo. Até seus encontros íntimos são agendados e seu trabalho é literalmente invadido, tudo em nome da fertilização e da obstinação em ser mãe.

Uma película em que os personagens acabam por se cruzarem. Há um encontro sugestivo da prisão humana no elevador regido pelo signo da desilusão. Uma cena bem elaborada e usada como alegoria para os descaminhos e sucessivas frustrações dos personagens de Giuntini, como num mosaico na gélida cidade de Brasília, com suas tensões e perturbações humanas. Tema encontrado de forma confusa no longa Insolação (2009), de Felipe Hirsch e Daniela Thomas; ou então no melhor de todos, por ser mais abrangente e profundo, que foi Brasília 18% (2006), do mestre Nélson Pereira dos Santos.

Um razoável longa-metragem sobre os problemas e estilos de vidas diferentes que se entrelaçam pela frustração e pela busca de soluções plausíveis que esbarram ora no acaso, ora nas próprias limitações contidas na personalidade de cada um. Os personagens vão se mostrando dentro de um painel em busca de suas realizações profissionais e afetivas, muitas vezes sem perspectiva e falta de um objetivo racional. É um tema bem batido no cinema, mas que fracassa nas mãos de alguns diretores e se sobressai com os mais talentosos.

Em Simples Mortais ficou no meio do caminho, um tema que aborda a solidão em uma cidade vazia pela frieza e a ausência de calor humano, numa metrópole corroída pelos fantasmas da empulhação e do jeitinho brasileiro, distante porém de uma qualidade mais efetiva, embora não invalide por completo a obra.

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