A Saga
O longa-metragem Sirât venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2025, foi o filme de abertura da 49ª. edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo de 2025, indicado pela Espanha ao Oscar deste ano nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som, e ainda laureado com seis prêmios técnicos no Goya 2026: Som, Fotografia, Montagem, Música Original, Direção de Arte e Direção de Produção. O título tem origem em uma palavra árabe que significa "caminho" e dialoga com as temáticas evidenciadas nesta coprodução com a França. A direção é de Óliver Laxe, que tem em sua filmografia os longas O Que Arde (2019), premiado na mostra Um Certo Olhar em Cannes, Mimosas (2016) e Todos Vós Sodes Capitáns (2010). Embora o prólogo sugira uma contemplação de outrora, nada disso se confirma. O que deveria ser um mergulho no interior de cada personagem com uma infinita imensidão de sensações abaladas, que deveria ser uma saga até o paraíso, mas acaba se tornando uma verdadeira viagem ao inferno. Por consequência, é o destino traiçoeiro daqueles sentimentos frustrantes de uma sociedade opressora e egoísta.
A trama gira em torno de um pai, Luis (Sergi López), e o filho caçula, Estebán (Bruno Núñez), que viajam acompanhados pela cadelinha Pipa até o Marrocos para tentarem encontrar Marina, filha e irmã, respectivamente. O destino da dupla é uma festiva rave no meio das áridas montanhas em pleno Deserto de Saara com experiências inesquecíveis. Distribuem a foto da jovem procurada para os participantes do evento que se divertem ao som da estrondosa música eletrônica pulsando na busca da liberdade. Há uma esperança de quem nunca desiste. Expulsos do local pela polícia, os dois seguem um grupo que decide ir em outra festa que acontecerá próximo dali, trajeto ainda mais perigoso pelas circunstâncias do terreno inóspito, tudo em nome da transcendência espiritual embalada pela trilha sonora assinada por Kangding Ray, numa experiência sensorial desorientadora. A jornada é um verdadeiro caos que obriga testar os próprios limites de sobrevivência por causa das adversidades climáticas e geográficas. O diretor busca nos gestos transformadores na dança em forma de transe como confissões significativas para revelar as obscuras dúvidas e a melancolia incrustada nos seres humanos. Carregam emoções reprimidas que assombram e reduzem a capacidade de lucidez. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e suas complexidades de solidão implacável pelas decepções e sofrimentos existenciais naquelas paisagens desérticas.
O desenrolar do enxuto roteiro de Santiago Fillol apresenta minuciosamente os cinco animados amigos com muito boa empatia e solidariedade interpretados por atores amadores: Steff (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard "Bigui" Bellamy) e Josh (Joshua Liam Herderson). Tentam convencer o pai e o filho a desistirem devido às dificuldades severas que irão encontrar, mas eles insistem, acabam se unindo e formando um forte vínculo afetivo. Compartilham suas tristes histórias de vida e obstáculos pelo caminho até o lugar imaginário que querem alcançar como objetivos, através das fascinantes imagens captadas pelas lentes do fotógrafo Mauro Herce. A jornada se torna aterrorizante para todos em meio a combates brutais e desconfortáveis que acontecem concomitantemente. Em uma cena comovente, um dos personagens questiona se "é assim que parece o fim do mundo?", enquanto um outro responde laconicamente: "Já faz tempo que é o fim do mundo". O campo minado da guerra é um prenúncio da catástrofe que explode e começa a ceifar vidas, como uma rotina constante da dura realidade retratada como um abismo no deserto naquele caminho tortuoso e sufocante com indícios de claustrofobia a céu aberto, embora pareça ser paradoxal. Provocativo e zen numa imersão sensorial com tintas de sadismo para flertar com o masoquismo, com tragédias se sucedendo, pela condução do cineasta nos movimentos da câmera.
A abordagem política e social na construção de um panorama denso com muito realismo para contar uma história, como na indicação apropriada de uma possível Terceira Guerra Mundial, fica em segundo plano, sem avançar com esmero e profundidade. O trem lotado de pessoas pelo deserto, no desfecho, fica à deriva pela inércia de uma contundente reflexão, embora as imagens tentem mostrar o drama de cada personagem sobrevivente. Tudo meio vago e dispersivo. Alguns críticos compararam com O Comboio do Medo (1977), dirigido por William Friedkin, outros com Mad Max: Estrada da Fúria (2014), de George Miller, num mundo pós-apocalíptico, mas Laxe se propõe mesmo é o desconforto como finalidade de uma jornada física, metafísica e emocional familiar. Desemboca num emaranhado de situações arbitrárias cruéis vazias ao insistir nas abundantes mortes acidentais. Porém, sua inspiração mesma é decorrente de clássicos que o influenciou, tais como Dennis Hopper em Sem Destino (1969), os mestres Michelangelo Antonioni com Zabriskie Point (1970) e Wim Wenders na obra-prima Paris, Texas (1984). É uma tentativa de dialogar com estes monstros sagrados, admitida pelo diretor em conversa por vídeo com o crítico Ticiano Osório do jornal Zero Hora, em fevereiro passado. Viraram mesmo uma cópia bem menor em Sirât, ainda que haja alguns méritos na obra festejada por boa parte da crítica.
As mortes violentas explodem no epílogo deste drama denso e sombrio com crueldade nos pequenos detalhes, sem se afastar da imersão pelo ritmo lento da tensão pelo silêncio constante. Depois de muita música e dança, leva para um grau sugestivo de imprevisibilidade permanente ao conduzir para surpresas que estão por acontecer a qualquer momento, algumas já esperadas, mas não chega a contagiar o lado nebuloso de um certo mistério no bojo da narrativa. Um road movie beirando ao catártico, mas com o viés de uma luz significativa para a sobrevivência num aceno de que as armadilhas do destino estão presentes e impostas como consequências da interferência metafísica para diagnosticar o fim dos tempos na transcendência espiritual. Os personagens condenados emergem do purgatório, confrontando corpos mutilados aflitos com a desumanidade visceral, sem sutilezas ou alegorias atenuadas. Laxe utiliza o método de choques abundantes, tendo como resultado uma confusão pela pouca finesse com o aprofundamento de uma obra maior. Incomodar, perturbar dentro de uma estrutura narrativa coerente contraria a violência pela violência gratuita e esvazia uma ideia interessante. O colapso do mundo exterior se distancia da dramaticidade intimista dos personagens corroídos pela dor física e emocional. Ficam as sequelas como ruídos de tempos difíceis do transtorno particular de cada personagem como instrumentos de flagelo para a destruição total, mas sem uma convincente densidade filosófica existencial.
