segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Piedade

A Resistência

Cláudio Assis é um cineasta pernambucano que não se submete a dogmas e paradigmas daqueles filmes bem feitinhos e ajustadinhos que indiquem alguma propaganda ou louvação de um gênero. Sua cinematografia é contundente e provocativa, com reflexos marcantes sobre o comportamento humano na abordagem de temas sociais, com passagens pela violência física e psicológica. Mesmo que sua obra seja regional através da típica linguagem nordestina, a universalidade do cinema está acima e se sobrepõe peremptoriamente. Não pertence a uma casta de diretores politicamente corretos, como bem enfatiza tanto em seu discurso no cinema pelos atos do poeta anarquista no perturbador longa Febre do Rato (2011), bem como em entrevistas à imprensa. Segue uma linha dos realizadores malditos ou marginais, tais como: Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Ozualdo Candeias. Lançou-se ao cinema com dois bons filmes Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006), posteriormente realizou Big Jato (2016). Mostra novamente sua versatilidade e competência com esta nova provocação instigante, no seu quinto longa-metragem, Piedade.

Eis um drama que reflete a preocupação do cinema autoral com a temática do cotidiano invadido e da especulação desenfreada que só visa lucros, pouco se importando com a ética e os desejos de escolha e opção do cidadão. A narrativa traz no bojo um realismo da exacerbação pela intransigência através de métodos absurdos de coação de uma empresa que visa somente seus lucros e está de olho no espaço para ter melhor acesso aos recursos naturais que irá transformar aquela comunidade de uma praia fictícia da Grande Recife num verdadeiro caos aos nativos. Segue a linha do conterrâneo Kleber Mendonça Filho que lançou luzes para bons debates sobre a desenfreada especulação imobiliária no badalado O Som ao Redor (2013), e no polêmico Aquarius (2016), sobre uma empreiteira que amedronta uma jornalista aposentada, escritora, viúva e mãe de três filhos adultos, que recém saiu de um câncer de mama, o qual venceu com galhardia e determinação a moléstia, para lutar agora contra outro obstáculo da vida, sua permanência ameaçada no último edifício antigo da Av. Beira-Mar, da bela praia da cidade de Recife.

Piedade foi filmado no Porto Suape e na Reserva do Paiva, em Pernambuco, alterna alguma leveza ao mostrar um povoado com uma praia paradisíaca, cujo nome dá título do filme, com uma imensurável pressão de grupos econômicos poderosos que lançam cizânia nos nativos para uma disputa ferrenha por terras. Naquele lugar aconchegante, a trama retrata uma matriarca viúva (Fernanda Montenegro), que mora com o indignado filho, Omar (Irandhir Santos), uma espécie de resistência aos desmandos especulativos, mas percebe a dificuldade quando o dinheiro entra no jogo, e seu neto Ramsés (Francisco Assis), filho da caçula Fátima (Mariana Ruggiero), que trabalha nas cercanias de Recife. O bar mantido pela família é vítima das distorções ambientais diante da construção de um porto nas proximidades, berçário de tubarões que interferiu no habitat, e por consequência passam a atacar, acabando por afugentar os turistas que migram para outras praias menos perigosas, escasseando a clientela. Uma significativa metáfora para o duplo sentido da agressão dos tubarões, tanto o peixe como o do poder econômico.

O enxuto roteiro assinado por Hilton Lacerda e Anna Carolinna Francisco, conta uma história aparentemente simples, porém surgem na trajetória da trama situações complexas encontradas no dia a dia de qualquer mortal. Assis faz interessantes comentários sociais pelos quais é recorrente, mas sua obra traz para a telona uma reflexão mais madura e menos panfletária, embora ainda haja alguns excessos sexuais descartáveis no contexto, para melhor ser absorvida sobre a rotina dos moradores abalada pela chegada da potente empresa petrolífera Petrogreen, que decide expulsar todos de suas casas para instalar ali empreendimentos para ter melhor acesso ao local escolhido. O realizador faz referências pontuais aos problemas, como o paradoxo da corporação interessada em destruir as reservas naturais, com o pomposo nome que resume em petróleo e o verde (green), numa clara e manifesta distopia com o meio ambiente. A inverossimilhança está centrada na extração de óleos e similares se contrapondo com a preservação responsável da ecologia ao prejudicar a biodiversidade.

O diretor registra com tintas fortes o inescrupuloso representante da petrolífera, Aurélio (Mateus Nachtergaele), que negocia a compra de terrenos do vilarejo para um futuro empreendimento. Ele investiga o núcleo da família, e alguns segredos, entre eles um filho perdido, Sandro (Cauã Reymond), dono de um cinema pornô, que virão à tona, com chantagens que minam a harmonia de todos, principalmente da conciliadora mãe e sua energia diante das revelações e o constrangimento do adultério. Outra importante construção no enredo é o personagem infantil que sonha em entrar no mar, mas contenta-se com um óculos, presente do famigerado executivo, para dar vazão às suas fantasias por uma realidade virtual, o que, segundo o presenteador: “é melhor que mar de verdade”. O filme retrata com sensibilidade as hipocrisias e os cinismos do preposto do empreendimento. Assis retrata com delicadeza o lado familiar e carinhoso dos personagens na defesa de seus direitos sendo descartados por dinheiro em nome do progresso e do futuro incerto nos planos de compra. A modernização ditada como regra de soluções pragmáticas fica evidente no desfecho sombrio estampado na visão do jovem realocado, embora toda a luta da preservação como forma de manter viva a alma como essência contrária à ganância especulativa invasiva. A imposição da força dominadora do progresso no contexto é apontada no poder de fogo pela pressão psicológica. Um painel dos contrastes de uma realidade brasileira de anomalias e distanciamentos dos sonhos, sem cair na obviedade, através de elementos caracterizadores e envolventes que marcam com qualidade esta admirável obra sobre a injustiça social no cenário nacional.

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