segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Casa Vazia

 

Solidão no Pampa

O primeiro longa-metragem do diretor gaúcho Giovani Borba, Casa Vazia, que também assina o roteiro, é uma agradável surpresa no cenário nacional, nesta coprodução com o Uruguai. Foi vencedor no Festival de Gramado do ano passado nas categorias de melhor ator, roteiro, trilha sonora, desenho de som e a fascinante fotografia com cores desidratadas, assinada por Ivo Lopes Araújo, que também ganhou no Festival do Rio de 2021. Uma exemplar construção de uma encenação que reflete as perdas do cotidiano na medida em que os sentimentos dão a transição do dia para o anoitecer e as expectativas que reservam. O realizador segue os passos da conterrânea Cristiane Oliveira, no drama familiar Mulher do Pai (2015), bem como há também uma boa similitude com Rifle (2016), de Davi Pretto. Em ambas as obras existe um universo taciturno do Pampa gaúcho, onde a solidão salta aos olhos dentro de um contexto desolador do trabalho rural em franca decadência ao migrar para o plantio de soja nos grandes latifúndios, na qual a pecuária perde espaço e ruma para uma provável extinção, causando um sério constrangimento social pelo desemprego.

São escassos os filmes que retratam as paisagens dos pampas no Rio Grande do Sul, um dos maiores biomas do Brasil, com suas vicissitudes e idiossincrasias características. Além dos já mencionados, há épicos sobre a vida dos heróis da Revolução Farroupilha, como o de Beto Souza e Tabajara Ruas em Netto Perde Sua Alma (2001), Netto e o Domador de Cavalos (2008), de Tabajara Ruas, e Anahy de las Misiones (1997), de Sérgio Silva, interpretada pela estupenda atriz Araci Esteves, que agora encarna a mãe do protagonista em Casa Vazia. O cenário de aventuras agora dá lugar para os campos extensos, antes usados somente como pastagens e criação de gado, porém cedeu seu território para a monocultura do grão. É nesse lugar que vive Raúl (Hugo Nogueira - ator estreante de convincente atuação), um peão desempregado de meia-idade, pai de família, que vive em uma isolada casa humilde, ou seja, uma legítima tapera com paredes sem tinta, raros móveis, sem água potável e internet, com energia elétrica gerada pelos cataventos, na imensidão solitária dos campos. O cineasta aponta para a mão de obra tradicional da lida com bois, vacas e ovelhas que já não serve mais aos novos padrões dos donos das terras. Assolado pela pobreza e a falta de trabalho, o personagem central se junta a outros indivíduos para a prática do abigeato -roubar gado- durante a escuridão das noites nas estâncias. Ao retornar de mais uma madrugada de ilicitudes, encontra sua casa vazia, tendo sua mulher e seus filhos desaparecidos.

A realização mostra o microcosmo familiar sendo abalado pela desgraça, por isto Raul procura uma benzedeira, onde é evocada a lenda do negrinho do pastoreio, segundo reza a lenda, ele ajuda a recuperar algo perdido. Além do desemprego recorrente nacional, agora tem outro problema a enfrentar: tentar reencontrar seus familiares naquela paisagem de tristeza e desolação, na qual é retratada uma vida sem dignidade com conflitos pessoais pela depressão e o alcoolismo latente. Da ação vem a reação dos fazendeiros da região que se unem à polícia local para cercar os transgressores da lei - embora vítimas de um contexto social pela degradação gritante- e realizam vigílias armadas na caça aos larápios. Enquanto isso, a trajetória do protagonista fica cada vez mais repleta de incertezas, está pressionado pelo líder do bando (Roberto Oliveira), que teme perdê-lo e faz intimidações. Do outro lado, está seu cunhado (Nelson Diniz), chefe da equipe de segurança dos estancieiros que faz uma oferta para trabalhar na repressão aos abigeatários. Concorda com os dois lados, sem convicção, e se vê num beco sem saída para a busca da altivez. As imagens dizem tudo, nem é preciso diálogos, de acordo com o lado em que esteja, é matar ou morrer.

O diretor mostra a emblemática dúvida de um peão solitário perdido no universo da ética e da dignidade em confronto com uma situação caótica, onde terá de lidar com a realidade das perdas familiares pelo abandono, as diversas transformações que cercam o rumo de um homem, até então, sempre digno e trabalhador. As peculiaridades típicas do interior, mais precisamente nas pastagens da campanha, onde o cavalo é trocado pela bicicleta, num disruptivo gaúcho com suas tradições elementares, no qual ainda preserva o velho e bom chimarrão nas manhãs e nos finais de tarde. Observa o longínquo horizonte do prado sendo engolfados por outra cultura de trabalho. Embora haja um vazio circunstancial elementar pela dramaticidade dos personagens nas inerentes artimanhas, o roteiro deixa transparecer uma tristeza existencial profunda. Borba realça o olhar perdido daquele cenário de imensa solidão com a câmera apontada para aquele rosto sulcado. Há uma aparente indiferença quando o peão examina detidamente seu passado e a nova paisagem rural contrastando com uma inversão dos atuais valores que levaram aos píncaros da glória e do orgulho, mas que ficaram perdidos pelos caminhos tortuosos do passado, através do recurso apropriado de longos planos-sequência.

Um drama magnífico que dialoga com o suspense em que o silêncio é marcante, com imagens reveladoras e poucos diálogos, por serem necessários. Com sutileza e habilidade rara, o promissor cineasta acerta em cheio em sua estreia nesta sensível opção de abordar a temática do Pampa. Estamos diante de uma produção minimalista notável pelo esmero e zelo da construção do enredo e os personagens que desfilam com sobriedade. Há méritos na condução do espectador para acompanhar um vínculo de importância dos personagens, especialmente do protagonista, envolvidos pelos fatos que se sucedem numa atmosfera criada em torno daquela paisagem sóbria que lá atrás foi mais fértil e alvissareira, com seus usos e costumes cultuados no dia a dia. Casa Vazia é um filme peculiar e instigante que provoca conflitos que giram em torno do orgulho e da dignidade; sobrevivência, ética e honra; trabalho e desemprego. Cria contrastes de uma realidade caótica que compreende as necessidades de um Pampa fragilizado, outrora mitológico. Embora confabule com o naturalismo, passa por um realismo singular e cruel, transmite a melancolia com suavidade nesse cenário amplo, às vezes claustrofóbico, da fronteira com o Uruguai. Há méritos por não apelar para o melodrama rasteiro folhetinesco, deixando o sentido do existencialismo aflorar para a reflexão do espectador, num desfecho contemplativo pelo fogo em consonância com a liberdade metafórica na sua essência.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A Noite do Dia 12

 

Feminicídio

Vem da França o perturbador suspense psicológico mesclado com thriller policial A Noite do Dia 12, com direção do alemão de nascimento e de nacionalidade francesa Dominik Moll. Tem em sua filmografia Harry Chegou Para Ajudar (2000), O Monge (2011), Más Notícias Para o Sr. Mars (2016), Only The Animals (2019), entre suas realizações anteriores. Reaparece com seu novo longa-metragem vencedor de melhor filme no César do ano passado, o Oscar francês, direção, ator revelação (Bastien Bouillon), ator coadjuvante (Bouli Lanners), roteiro adaptado e som. Enriquece o cinema pela intensa dramaticidade nesta exemplar narrativa de um crime hediondo praticado contra uma bela jovem ao retratar os desdobramentos dos elementos ocultos da natureza humana e o feminicídio recorrente contra a mulher. Retrata os desmandos de parte de uma polícia com viés machista demonstrada ao longo da situação apresentada sem a solução corriqueira. Segue os caminhos abertos da possibilidade de se transformar num relato sobre a agressividade humana, sempre gerada pelos enigmas apresentados e desconhecidos, algo sugerido pelo cenário da sequência do enredo.

Baseado em fato verídico ocorrido em 12 de outubro de 2016, o filme foi inspirado no livro de Pauline Guéna, que passou um ano acompanhando policiais parisienses para escrever sua obra, adaptado por ela mesma em parceria com o diretor e o roteirista Gilles Marchand. A trama, em seu prólogo, mostra a celebração de duas festas, a despedida de um chefe da repartição policial que se aposenta, o veterano e desiludido Marceau (Bouli Lanners), com seus problemas existenciais diante do rompimento do casamento após a revelação da gravidez da esposa. Assume seu posto o protagonista Yohan Vivès (Bastien Bouillon), um investigador da polícia perseguido por um caso que lhe causa um incômodo obsessivo marcante em sua carreira, neste início de uma nova etapa na vida como o novo capitão. A contagiante alegria de confraternização com sua equipe será substituída pelo crime antecedido pelas imagens da noite num cenário de solidão, apenas com um gato preto e toda a superstição advinda do passado medieval, na referência da queima das bruxas. Concomitante, uma nova alegria surge de uma casa em um vilarejo no sudeste da França, decorrente de uma festinha familiar finalizada com a presença de algumas amigas, surge a jovem Clara (Lula Cotton-Frapier), de 21 anos, usando descontraidamente um celular, grava um recado para sua melhor amiga, Nanie (Pauline Serieys), e acaba por ser assassinada de maneira cruel ao ser queimada viva com gasolina por um desconhecido, vira uma tocha humana.

O roteiro enxuto, mas com grandes reviravoltas, dá uma dinâmica de um clímax dolorido e preocupante, sendo que o filme é dominado por uma forte dramaticidade pela habilidade meritória do cineasta de forma sensível. Nanie, em flagrante fragilidade, dá um testemunho relutante para a investigação, profere uma frase marcante ao afirmar que Clara “morreu por ser mulher”. Outra voz contrária aos comentários sexistas é da policial Nadia (Mouna Soualem), ressalta que “os homens matam e os policiais que investigam são os homens”. Perigosamente, os encontros e desencontros da vítima com vários ex-namorados são vistos como uma espécie de culpabilização por parte dos investigadores para que haja motivos para seu assassinato. A partir deste ponto enviesado, segue um rumo inesperado, pois há um afastamento visível do empenho em busca do criminoso, no qual se revela o ciclo perverso da violência que se torna rotina ao retratar o crime porque “qualquer um poderia tê-lo cometido”. Porém, há uma resistência comovente do novo capitão Yohan, que tem como hobby, todas as noites, depois do expediente, andar em sua bicicleta de corrida numa pista oval, embalado pela canção de Olivier Marguerit. Pedala em círculos intermináveis, com a expressão compenetrada, como uma válvula de escape das imagens da moça que não lhe sai da cabeça, visando atenuar o estresse do cotidiano. Faz dessas corridas noturnas, que não levam a nenhum lugar, uma metáfora frustrante do crime que está tentando colocar um desfecho, quase desesperador do mistério indecifrável. Cada vez mais obcecado em solucionar o caso, embarca em uma espiral interminável de segredos obscuros em busca de pistas e sinais que possam levá-lo até o culpado do crime brutal.

Com sutileza e imparcialidade, o diretor foca a trama nas oitivas dos policiais com os suspeitos que surgem conforme destrincham a vida social e amorosa de Clara. As reações violentas diante de figuras e fatos são associadas a forças ameaçadoras contemporâneas, bem acentuadas no desenrolar da história. A violência contra a mulher está bem demonstrada na agressividade diante da resistência no comportamento e na chegada de valores pouco dignos de uma sociedade machista neste instigante relato sobre os preconceitos e a violência cultuada. Um retrato singular sobre o feminicídio através da misoginia encravada com cenas impactantes, capazes de despertar a repulsa desta realidade desprezível do ódio às mulheres, que reforça os efeitos do machismo incrustado. Os interrogatórios envolvem deboches e julgamentos pré-concebidos de uma cultura avessa ao gênero oposto, exceto as demonstrações de empatia advinda dos pais, da amiga, além do investigador que abraçou a causa com ardor. Há zombaria do rapper criador de letras, do primitivo homem orgulhoso que cultua sua força física como um agressor impiedoso, entre tantos outros investigados.

O longa, entre tantos méritos apontados, além de oferecer uma plêiade de personagens construídos de carne e osso com seus aspectos psicológicos marcantes, afasta os recursos apelativos, tanto da violência explícita, quanto dos recursos lacrimejantes superados, ainda escapa com habilidade do maniqueísmo ao retratar o processo com suas derrocadas. A violência dá o tom das interações entre os gêneros, mas ao ser naturalizada, torna impossível de identificar, isolar e punir pelo pragmatismo simbólico. Há uma imensa desilusão desta teia de mistérios de uma realidade melancólica que se esconde na sociedade dominada pela irracionalidade. Mostra as mulheres sendo desumanizadas e culpabilizadas pelos crimes dos quais elas são vítimas, na qual não é a mesma situação aos homens, bem exemplificado no brutamonte com histórico de violência doméstica que continua vivendo normalmente. Eis um ensaio das inerentes dificuldades nos relacionamentos humanos diferentes de gêneros, onde a essência da hipocrisia machista do macho alfa é apontada para contrastar com a dignidade do outro possível novo homem solidário e cortês com suas dores e obsessões de um futuro, quem sabe promissor, sinalizado pelo protagonista. Há elementos indispensáveis que contribuem para as angústias de um imenso sofrimento que restam como sombras permanentes. Fica uma dolorosa sensação de insegurança pela falta de equidade que traz as diversas desconfianças transmitidas. Uma cumplicidade com o silêncio, ou a sátira, de personagens que deveriam se preocupar mais com o possível culpado ao invés da vida pregressa da vítima, com desculpas facilitadas para esconder a triste realidade mantida por uma sociedade ainda dominada e amordaçada pelo pensamento patriarcal. Um mergulho sobre as questões dentro de uma relação de circunstâncias que acompanham a violência contra as mulheres neste extraordinário suspense, que deverá estar nas listas dos críticos dos 10 melhores filmes no final do ano.