quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln















Mensalão Norte-Americano

A campanha aética dos jogos de poder e toda sua corrupção política são os principais componentes do roteiro na trama que enfoca a paixão de um homem por uma causa no fim da Guerra Civil e a reeleição do mítico Abraham Lincoln, o 16º presidente dos EUA nos primeiros dias de 1865, mas que lhe doía a cultura escravocrata. Lincoln é um épico de acontecimentos históricos que mexe na vida dos norte-americanos, que mostra uma luta incansável do presidente republicano reeleito para aprovar no Congresso a abolição da escravatura em meio a uma carnificina entre irmãos da mesma pátria. Um tema popularizado no clássico E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming.

O longa retrata uma disputa enfadonha por votos, num duelo travado para conseguir o objetivo presidencial antes de terminar seu segundo mandato. Além de contar com o apoio maciço da bancada de seu partido, vai em busca de votos dos democratas oposicionistas que lhe oferecem uma forte resistência entre os parlamentares. Com discursos inflamados contrários aos direitos iguais entre brancos e negros, a oposição marca presença na tribuna, mas acaba perdendo líderes preciosos que se aliam à situação.

Mas Steven Spielberg não é o mesmo de seu último longa Cavalo de Guerra (2011), da bela e profunda amizade de uma insuperável solidariedade entre um jovem e um cavalo puro sangue. Longe do encantamento terno de E. T.- O Extra Terrestre (1982), ou da dramaticidade eloquente de A Lista de Schindler (1993), ou ainda do fascinante O Resgate do Soldado Ryan (1998). Em seu 28º longa, Spielberg está um pouco sonolento, ao deixar a câmera colhendo discursos vazios e diálogos soltos e improdutivos. Seu forte nunca foi a fala, pois a imagem sempre lhe marcou mais, a qual abandona propositalmente em quase toda a trama de Lincoln.

Embora indicado para doze estatuetas, deverá ganhar na categoria de melhor ator para o britânico Daniel Day-Lewis, o que seria sua terceira premiação e inédita no Oscar, superaria assim Tom Hanks, Dustin Hoffman, Jack Nicholson e Sean Penn, todos já ganharam duas vezes. Seu desempenho na pele do presidente histórico impressiona pela exuberância na performance, da primeira até a última cena, com uma voz tênue e calma, costas curvadas, carismático e sem exageros ou clichês caricatos, carrega o filme nas costas praticamente sozinho. Joaquin Phoenix no longa O Mestre (2012), de Paul Thomas Anderson, é o único que poderá estragar a festa e abocanhar o título de Lewis. Nem Sally Field no papel da esposa mandona consegue ofuscar o brilho do ator inglês. A primeira-dama Mary Todd Lincoln é uma mãe que já perdeu um filho nos braços e não quer perder o segundo na guerra sanguinolenta que se arrasta por quatro anos, razão pela qual bate de frente com o marido para tentar impedir que o outro filho vá lutar. Outro ator de boa atuação é Tommy Lee Jones no papel de um congressista do Partido Republicano, de uma ala mais radical. Suas aparições são recheadas de sarcasmo e tem vigor na defesa abolicionista, até porque vive com uma descendente negra e sua conduta é coerente. Junto com Lewis tentam não deixar cair o enredo na monotonia. Ao surgir em cena, embora poucas vezes, valoriza seu personagem.

Spielberg comete um equívoco capital, quando insiste explicitamente em glamourizar o protagonista, como se fosse um semideus. É cuidadoso no figurino e reconstitui a época com bastante correção e sobriedade. Mas peca fundamentalmente na edição, tornando arrastado e cansativo seus 153 minutos. Demonstra outro equívoco na montagem, tendo em vista que muitas cenas podiam ser cortadas, como se viu numa primeira hora exaustiva e pouco producente, derivando para uma lenga-lenga de diálogos inócuos, perdidos em formalismos estéreis e inconsequentes. A fotografia ocre-amarelada pouca funciona num ambiente escuro e sóbrio demais, beira a um rigorismo estético desproporcional e inadequado para um diretor avesso à retórica da persuasão e da eloquência de intermináveis lorotas. Quando o cineasta busca nas imagens, onde tem amplo domínio, demonstra capacidade singular, como no episódio do filho de Abraham Lincoln observando o carregamento de pedaços de pernas e braços sendo jogados na vala comum; ou no epílogo com o presidente deparando-se com a cena dantesca de corpos jogados uns sobre os outros, já cansado e demonstrando um profundo mal-estar desanimador com uma guerra absurda de valores invertidos, bem como num prenúncio de seu assassinato que lhe ceifaria a vida.

Lincoln é inferior ao filme Tudo pelo Poder (2011), de George Clooney, que abordava os ardis inescrupulosos, tornando-se cético pela forte consistência de personagens com diálogos equilibrados, revertendo e mudando as expectativas. Mas Spielberg mostra com menos ardor que desde aquela época já havia conchavos inescrupulosos e a corrupção estava presente para serem aprovados projetos de interesses do governo, como uma espécie de mensalão de nossos dias, embora sem o uso direto de dinheiro em contas correntes de laranjas, mas com recompensas por compras de cargos e apoios políticos desastrados e repulsivos, ainda que a causa fosse boa, como diz o deputado radical em sua última estocada.

A aprovação da 13ª Emenda da Constituição no Congresso dos EUA para a abolição dos escravos, mesmo com toda legitimidade, soa no filme como um propaganda governamental para causar um diversionismo político, visando as famílias que perderam maridos e filhos na Guerra Civil e ufanisticamente saudarem “a democracia americana”, através da voz embargada do presidente, mesmo com a fúria dos focos sulistas rebeldes e contrários ao fim da escravatura e favoráveis ao prosseguimento das batalhas campais.

Mesmo que haja um viés de visão corrupta dos homens públicos pelo poder e seus envolvimentos com situações escabrosas, dignas de maracutaias da melhor estirpe, Lincoln é realizado de forma romântica para agradar os norte-americanos e os velhinhos da Academia. A política sempre rendeu bons filmes e grandes tramas envolventes e Spielberg não deixa de dar sua razoável contribuição, faz concessões, equivoca-se e mostra distorções cinematográficas. Mas tudo pode acontecer em se tratando de uma produção de doze indicações ao Oscar, até ganhar é possível, embora com poucos méritos está longe das melhores obras do realizador.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Django Livre

















Vingança no Velho Oeste

Quentin Tarantino em sua última frase de Bastardos Inglórios (2009) dizia: "acho que essa é a minha obra-prima". E era mesmo. Um filme recheado de ironia fina, com uma violência não violenta, apesar do paradoxo, mesmo com a vingança explícita do massacre da família estampado no rosto da judia-francesa, reescreveu a história de forma consagradora. Embora haja algumas restrições pela facilidade da violência, arrasa novamente com Django Livre reescrevendo a saga no efervescente e bem original longa que dá oportunidade aos escravos do Sul dos EUA, dois anos antes da sanguinolenta guerra civil (1861-1865), em mandar para os ares os brancos que tanto lhe oprimiram. É a vingança escravocrata no Velho Oeste contada pelo irrequieto e inesgotável cineasta, assim como fizera em Bastardos Inglórios, seguindo a mesma estética narrativa desde o prólogo com as cenas sequenciais da urdida trama. Agora é só aguardar o filme que fechará a trilogia.

Já na cena inicial arrebata o espectador com a trilha da belíssima música-tema composta por Luis Enríquez Bacalov para o cult spaguetti western Django (1966), de Sérgio Corbucci, numa bela homenagem ao filme inspirador de Tarantino que coloca frente a frente os dois protagonistas no encontro para tomar uma bebida na fazenda do excêntrico vilão Calvin Candie (Leonardo DiCaprio- em ótimo desempenho). De um lado está o Django de Corbucci, estrelado por Franco Nero, faz uma ponta como um senhor de terras que adora lutas de escravos; de outro lado vemos um Django remasterizado como um escravo com brasa nos olhos (Jamie Foxx- impecável interpretação).

O faroeste em nada se compara com o filme de Corbucci, pois Tarantino é hábil na condução da trama pela conveniente e suposta amizade do alemão Dr. King Schultz (Chistoph Waltz- o impagável coronel Landa de Bastardos Inglórios; a atuação deste ator austríaco tem uma grandeza de absoluta precisão em seu comportamento e no jogo de palavras, tanto nas perguntas como nas aparições impecáveis, rouba literalmente o filme pela sua extraordinária performance novamente), na pele de um caçador de recompensas em busca de dinheiro fácil, anda atrás de indivíduos que valem muito dinheiro. Ao comprar a liberdade de um negro que conhece três procurados que renderão bons dividendos e que está à procura da sua mulher Broomhilda (Kerry Washington), se estabelece um vínculo de cooperação. O alemão é um obcecado por recompensas financeiras e o recém-alforriado busca sua amada, mas incomoda-o ver de negros chicoteados e esfolados de forma exposta visceralmente por homens brancos, ou ainda a tétrica cena dos cachorros estraçalhando o fugitivo.

No caminho há o cruzamento com o sádico Candie que se satisfaz com as brigas entre escravos até à morte e é senhor e dono de Broomhilda na sua fazenda. Uma referência à princesa que Sigfried tenta resgatar no ciclo de óperas O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, fala alemão e nem assim consegue esconder de Stephen (Samuel L. Jackson- de estupenda atuação), uma espécie de assessor e bajulador que vende a honra e a dignidade ao patrão, torna-se um severo e intransigente personagem contra a própria raça, mas que na lenda operística é o dragão que vigia Brünnhilde.

Tarantino é um diretor irrequieto e inesgotável com seu notável senso de deboche. Diverte-se com os brancos ao criar uma espécie de fábula moderna colocando os negros como seres em vantagem, embora vitimimizados e torturados pelos escravagistas. Pode parecer uma falsidade, mas o que interessa é o prazer paradoxal da vitória, com a explosão e o banho de sangue dos submissos negros aos seus pseudos dominadores. Não poupa ninguém e inexistem santos em profusão. Veja a sequência de tiros no prólogo e a explosão final no epílogo uma sarcástica demonstração da troca de personagens, remetendo para Bastardos Inglórios, com abundância de tiros e sangue esguichando dentro de uma violência incontida presente como ingredientes de uma luta dura, sem ser gratuita.

Outra cena reveladora é a provocação bizarra ao grupo de extermínio Ku Klux Kan, numa referência pastelona de sua idiota e estúpida atividade de perseguição aos negros, mostrada de forma escrachada, além do cavalo adestrado e os absurdos desta quase seita que beira o surrealismo, onde os cavaleiros não enxergam, pois os furos dos panos não estão adequados aos olhos, como metáfora de suas cegueiras. Incompreensível que Spike Lee tenha criticado a abordagem do faroeste sem vê-lo “A escravidão nos EUA não foi um spaghetti western de Sergio Leone, foi um holocausto”. Confessou que não viu o filme, o que é pior ainda, não sabe o que está perdendo e atesta uma monumental bobagem de um patrulheiro xiita.

Nada mais execrável e violento do que o horror da escravidão de uma raça depauperada brutalmente. Uma abordagem digna e magnífica pelo olhar de um cineasta irônico e de humor mordaz. Ao reescrever a história da escravatura dá vazão para a vingança e o reparo de injustiças contra o negro e o índio num EUA pré-guerra civil. Há a catarse de uma raça humilhada, mas que pelas tintas fortes do diretor busca a redenção e a dignidade esfacelada no tempo. Com uma trilha sonora sob embalo de Ennio Morricone- compositor predileto de Sergio Leone, traz lembranças de seus antigos faroestes, bem como de John Ford, prenunciando uma situação incômoda e perigosa; passando por 2Pac e James Brow.

Django Livre tem a beleza plástica e a astúcia de um jogo de xadrez que propõe uma magistral obra. Ao desafiar a história e fazer seu julgamento próprio, como se fosse de todas as vítimas escravizadas, conta de maneira corrosiva, numa sequência espetacular, através de um roteiro esteticamente perfeito e de uma memorável situação de pessoas que pela tolice tornaram-se irracionais ao extremo pelas suas preferências raciais. Lava a alma até do mais distraído cinéfilo ainda confuso pela variedade da irreverência e da criatividade espantosa desencadeada por um cinema abundante de verdades e mentiras de um delírio salutar, mesmo com sabor de déjà vu.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amor
















Ocaso Agonizante

No longa-metragem A Professora de Piano (2001), o cineasta austríaco por adoção e alemão por nascimento Michael Haneke, evidencia seu talento na abordagem da personagem da professora que instiga pela perversidade latente de uma misteriosa educadora de música com gostos estranhos; em Cachê (2005), aborda as questões intrínsecas ao mistério de uma fita de vídeo enviada para a casa de uma casal francês que está sendo vigiada; e em A Fita Branca (2009) demonstra lucidez com a parábola sobre o nazismo que se alastrou pelo mundo e estigmatiza sutilmente o rigorismo da religião, propiciando questionamentos como o extremo ardor pela ordem.

Premiado com a Palma de Ouro em Cannes ano passado, escolhido como o melhor filme de 2012 pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema e ganhador do Globo de Ouro este ano, Amor é um mergulho crepuscular na vida um casal de professores idosos aposentados da música, que vive apaixonado por mais de cincoenta anos em Paris e depara-se com a doença terminal. Haneke mostra o epílogo de uma existência e toda sua decomposição humilhante, decorrente de dois derrames cerebrais na mulher e sua decrepitude com o passar do tempo.

Um filme instigante sobre as relações humanas e o grande amor de Georges para com Anne. O relacionamento se intercala com as visitas esporádicas da fria, egoísta e pouco participativa filha Eva (Isabelle Huppert- uma coadjuvante de luxo em pequenas aparições) com seus problemas pessoais diante de uma mãe em estado beirando ao vegetativo. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva arrasam na interpretação do casal de idosos, em papéis difíceis que requer uma entrega de corpo e alma aos protagonistas. Trintignant foi o ator da fase da nouvelle vague, trabalhou com François Truffaut, Claude Chabrol e Éric Rohmer, ou ainda com diretores renomados como Ettore Scola e Bernardo Bertolucci; Riva consagrou-se no memorável clássico Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais.

Rodado praticamente todo o longa no interior de um apartamento, exceto as cenas iniciais do teatro. Face a face estão marido e mulher, em todo o desenrolar da trama, em cenas inspiradíssimas, embora cruéis como o tapa no rosto em Anne aplicado por Georges, após cuspir a água com o remédio repelindo a situação caótica. Soa como um desabafo e um descontrole emocional, que irá se refletir na inusitada cena do travesseiro. A dor dilacerante corta e mexe com o espectador e suas emoções, mesmo sem ser um filme de grandiloquência, mas que se estende silenciosamente pelas dependências do apartamento. A ausência da trilha sonora é para dar um clímax de melancolia, apenas entrecortado pela bela cena do jovem ex-aluno que toca piano para sua professora, como se estivesse a homenagear a música e a vida.

O cineasta conduz a trama de forma enxuta, sem arroubos ou manifestações esperançosas, como já antecipa o prólogo. Num cenário que lembra o teatro e a peça sendo rodada em longos planos-sequência com alguns contraplanos menores que individualizam e marcam a dor dos protagonistas, bem como da mulher reclamando constantemente “que dói”. O companheiro pacientemente troca suas fraldas geriátricas, a alimenta com papinha na boca, medicação, água e lhe dá banho. Inicialmente há o auxílio da enfermeira, depois da cabeleireira, mas logo todas são dispensadas por inaptidão laboral com a aproximação da iminência do ocaso da vida.

Haneke não é unanimidade e chega a ser acusado de misantropo pela festejada revista francesa Cahiers du Cinèma, num entendimento equivocado de aversão à espécie humana lançado na edição de novembro. Talvez esta crítica desproporcional se deva por não usar subterfúgios no seu estilo direto e seco de dirigir, abordando a doença de forma nua, crua e arrebatadora, sem recursos alegóricos. A grande e única metáfora do filme é buscada na pomba invasora do apartamento e expulsa por Georges, assim como Anne quer libertar o corpo do espírito como se fosse um cativeiro indesejado, transposta para a magnífica cena final do retorno do casal ao teatro, sem as amarras do sofrimento angustiante da moléstia devastadora e implacável, numa poética licença lírica para amar. Como se a matéria e o espírito se unissem na busca da retomada do amor no cotidiano e a grande paixão se mostrasse indissolúvel. Usa as elipses das cenas com propriedade, mas com um olhar implacável.

Temas como a morte, solidão, doença e velhice foram exploradas com méritos inegáveis pelo genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957) e na incomparável e inigualável obra-prima Gritos e Sussurros (1972); ou ainda em Viver (1952), de Akira Kurosawa, mas em Amor há um naturalismo exposto como vísceras e a dacadência humana é intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta, tem na forma a crueza direta e em nada comparável com a estética criativa e metafórica dos mestres inspiradores. O drama invoca uma notável reflexão sobre a morte, tem na vida um final que dilacera num contexto de grande amor e amizade como infinito neste fabuloso longa sobre o relacionamento a dois. Há subtemas interessantes como problemas das clínicas de repousos e hospitais sendo repelidos pela enferma quando ainda lúcida.

Amor é perturbador por destruir dogmas como a defesa de uma eutanásia abrupta redentora ao dar um soco no estômago do espectador, deixando-o meio grogue, mas ao mesmo tempo reflexivo sobre os métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional do amor eterno, retirando os véus dos bons costumes, dando um tapa na cara da morte, como fez o protagonista num ato de desabafo pelo desespero, já perdendo a lucidez e partindo para o confronto entre vida e morte e as emoções existenciais sobre o progressivo fim do ser humano.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Tudo o que Desejamos














Justiça Dolorida

Philippe Lioret é conhecido por seu surpreendente filme Bem-Vindo (2009), numa abordagem harmônica sobre a política das imigrações que causou muita polêmica na França, por tratar dos desdobramentos sociais e políticos, com explícita intolerância racial, evidenciado pelo choque cultural e a iminente violência, decorrentes da questão da imigração mal resolvida por dezenas de anos. Foi eleito o melhor filme europeu da Mostra de 2009 do Festival de Berlim. Lioret vem agora com o instigante Tudo o que Desejamos, em nova parceria com o roteirista Emmanuel Corcol e com o admirável ator sempre em grande performance Vincent Lindon, que interpretou o professor de natação no longa anterior.

O drama é adaptado da obra Outras Vidas que Não a Minha, de Emmanuel Carrère, aborda a vida de uma juíza idealista em Lyon, de infância pobre numa cidade vizinha do interior, teve o abandono do pai aos dois anos e conviveu com a mãe, uma mulher que gastava desregradamente, ou seja, uma legítima perdulária sem qualquer controle do dinheiro. Claire (Marie Gillain- de grande atuação, além de sua beleza) formou-se com sacrifícios, casou-se com Chisthophe (Yannick Renier), um homem pacato, voltado para as coisas domésticas que adora plantar e cozinhar para agradar a mulher. Um dos filhos menores é amiguinho da filha de Cèline (Armandine Dewasmes), que por ironia do destino é centro de uma causa judicial numa audiência sobre financiamentos de empréstimos pessoais, onde Claire é a juíza por simples acaso. Aplica a lei com dureza contra as grandes financeiras e busca uma justiça equilibrada, mas envolve-se num processo administrativo no Conselho da Magistratura e é afastada por suposta imparcialidade no processo de Cèline.

A trama mostra a jovem magistrada se deparando com um câncer degenerativo, oriundo de um tumor cerebral agressivo que funciona como uma metáfora de um sistema econômico corroído e com o beneplácito de um Judiciário estagnado e agonizante, distante das pessoas pouco esclarecidas que se jogam de ponta cabeça em empréstimos de dinheiro, contraindo dívidas impagáveis através de cláusulas leoninas em contratos com redações em letras bem abaixo de 5 mm, inferiores ao estipulado em códigos internacionais, numa clara afronta aos direitos do consumidor. A aproximação com o colega juiz experiente Stéphane (Lindon), um apaixonado pelo viril esporte rúgbi, traz novas luzes para o judiciário, assumindo a causa e sentenciando favoravelmente. Há desdobramentos de recursos e o processo vai até a Corte Internacional da Europa. O filme fica dinâmico pelo cotidiano do embate sem ser técnico. Com o avanço progressivo da moléstia, há uma reflexão sensível e implacável contra a injustiça praticada pelas classes dominantes economicamente, através de um olhar sutil para com as pessoas vitimadas pelo poder financeiro que assola aquele país e o mundo.

Um drama triste e belo paradoxalmente, quando da união de dois defensores entusiastas por uma adequada legislação, mais equânime e não discriminatória, numa luta que é travada com vigor até o fim, passando por momentos tensos, como na cena do afogamento no lago, onde Claire busca nas reminiscências de sua adolescência o resgate do passado, pela dor que ela carrega da mãe atolada em dívidas, e no presente há um futuro incerto, por saber que não há perspectivas de cura.

Tudo o que Desejamos apresenta sentimentos que podem ser confundidos dos dois magistrados, ambos casados, mas o lado humano prevalece sem um acentuado interesse sexual, como na cena em que a juíza chama o colega de pai, para que ele assine sua alta no hospital. O idealismo racional está acima dos sentimentos do coração, e a amizade entre um homem e uma mulher pode ser por causa boa e justa, é o que demonstra o cineasta.

Lioret afasta-se do melodrama com estilo e domínio das cenas, não se deixa cair em sentimentalismos baratos ou pieguismos. Afirma-se como um excelente diretor por retratar com dignidade alegórica as dificuldades que passam os europeus em constantes desempregos de uma economia devastada por circunstâncias decorrentes de uma crise sem precedentes. Está amparado por uma trilha sonora densa que transmite a dor e a perda, neste notável drama edificante sobre os valores humanos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi



















Luta pela Sobrevivência

Vem do polêmico escritor canadense Yann Martel a adaptação para o cinema de seu controvertido romance homônimo As Aventuras de Pi, acusado de plagiar o livro Max e os Felinos do imortal acadêmico gaúcho Moacyr Scliar, falecido em 2011, esteve em debate dez anos antes de ser filmado. Não houve uma convincente negativa e ainda lançou uma espécie de agradecimento no prefácio, quase como um pedido de desculpas e alegou ter sentido muito pelo ocorrido.

Ang Lee é um diretor taiwanês radicado nos EUA, mostra-se versátil em seus longas por ser muito dinâmico e criativo. Começou sua carreira com A Arte de Viver (1992) e Banquete de Casamento (1993), passou por Razão e Sensibilidade (1995) e O Tigre e o Dragão (2000), polemizou em O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e agora atenuou com uma simplicidade exagerada e previsível em As Aventuras de Pi, embora tenha obtido onze indicações para o Oscar deste ano. Nesta sua nova incursão cinematográfica a trama retrata a história de um menino pobre e dedicado aos animais, filho do dono de um zoológico na Índia que sobrevive a um naufrágio, quando a família toda está indo embora para o Canadá, na busca de dias melhores e novos horizontes. Fica 227 dias à deriva no Oceano Pacífico, após o navio afundar por decorrência de uma enorme tempestade em alto-mar, servindo-lhe a lição de moral do pai sobre a relação entre humanos e animais ferozes como muito importante para sua sobrevivência.

O filme mostra o medo como sendo a dúvida de uma ameaça constante de um tigre-de-bengala batizado ironicamente de Richard Parker ao único sobrevivente. Uma luta da razão contra a irracionalidade, mesclada por doses de razoável suspense nesta fábula moderna adulta que instiga o espectador e o faz ficar atento às manobras instintivas do garoto nesta viagem fantasiosa com seu arquirrival irracional. Surgem de todos os lados algumas alucinações decorrentes da situação inusitada como supostos delírios daquela criatura com seu destino entrelaçado com o animal, tendo na água seu elemento motivador de vida.

É uma fábula com a constante luta desesperada para continuar vivendo, onde não deixa de existir velhos clichês, como do manuseamento de manuais que indicam o caminho da vitória heroica, beirando a ensaios de autoajuda. É contado na primeira pessoa pelo protagonista já adulto para um escritor interessado em publicar a história do naufrágio, tendo dúvidas em qual versão das duas seria a autêntica. Lee busca na alegoria uma saída honrosa, ao invocar a hiena, o macaco, a zebra e o tigre sob a lona do bote e adicionar com personagens humanos de carne e osso como a mãe, o pai, o cozinheiro mau, e o protagonista.

Os efeitos especiais são bem elaborados, embora haja um esvaziamento cansativo na trajetória, como milhares de peixes voando sobre aquele feroz tigre realizado por computação gráfica. Há pouca verossimilhança num realismo forçado nas cenas de confronto no oceano dentro da embarcação e seus acessórios que criaram a balsa improvisada como uma rota de fuga. A montagem é enfraquecida por um filme longo demais para uma historia carecedora de maior abrangência no contexto e dividida por versões inconsistentes, tornando-se tedioso numa abordagem pouca imaginativa e de aprofundamento tênue, principalmente nos diálogos vazios de Pi e o escritor.

Não é um grande filme, embora as reflexões levem para uma frágil constatação de uma civilização desejada, como o fim da era de uma família estruturada aparentemente na Índia e um futuro buscado no Ocidente com revelações contidas de um passado, como na alusão às despedidas que inexistiram e deixaram marcas. É uma aventura com um resultado bem menor e aquém do aguardado na filmografia de Lee, mas que não invalida no todo a obra, embora haja um destaque especial para a fotografia primorosa dentro de um contexto raso numa estrutura narrativa simples sobre os desafios da sobrevivência e teorias pragmáticas da fé com a natureza.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

















O Sim da Redemocratização

O Chile apresenta seu representante que concorrerá à vaga de melhor filme estrangeiro do Oscar deste ano. No tem direção de Pablo Larraín, em seu quarto longa-metragem e com retumbante aceitação da crítica e de público na abertura com pompa da 36ª Mostra de Cinema de São Paulo, também foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e ganhou o Prêmio CICAE- Confederação Internacional dos Cinemas de Arte-. Realizou antes os longas Fuga (2006), o aclamado Tony Manero (2008) com boa repercussão na 32ª Mostra de São Paulo e a terceira realização foi Post Mortem (2010).

A trama gira em torno da pressão internacional sobre o ditador chileno Augusto Pinochet, que convoca um plebiscito para avaliar seu governo sanguinário e a manutenção em 1988. Os líderes da oposição convencem o jovem publicitário visionário e equidistante René Saavedra (Gael Garcia Bernal- em grande performance e convincente no papel) a encabeçar a campanha do não à continuidade e sim para as eleições diretas em todos os níveis. Muito semelhante ao apelo popular no Brasil entre 1983 e 1984, com o célebre movimento que mobilizou o país em torno da redemocratização “Diretas Já”.

O drama mostra que há poucos recursos financeiros para o publicitário, que ainda sofre uma ostensiva ameaça permanente dos guardas do ditador. Mas nem tudo está perdido e a equipe monta um plano audacioso e criativo de marketing para libertar o país da opressão, através de uma vitória eleitoral, apesar das condições minguadas que se apresentam no contexto antidemocrático. Vive-se num governo que reprime com extrema violência os grupos opositores e os manifestantes ao regime.

A grande sacada do filme é mostrar o bom humor na luta pela pacificação democrática de todos os chilenos. Inicia com o jingle de aparente sucesso, uma opção publicitária de fácil memorização para ser levado à televisão nos restritos quinze minutos da oposição, o que irá alavancar com uma boa base na tentativa de conquistar mais adeptos contrários ao sistema implantado em conluio com os EUA. A frase simbólica e logo cantarolada por todos é “Chile, a alegria está chegando”, com derivações e forte influência em “We are the World”, uma canção composta por Michael Jackson e Lionel Richie, gravada em janeiro de 1985 por 45 dos maiores nomes da música norte-americana, no projeto conhecido como USA for África, tendo por objetivo arrecadar fundos para o combate à fome no continente africano.

Larraín se autocita no seu longa, no início da construção do projeto da campanha pelo não. O arco-íris vira a simbologia e representa as diversas matizes de cores dos vários partidos e facções, embora sofresse rejeição por ser associado às cores da luta gay, não foi considerada por Saavedra, que tocou em frente sua ideia do marketing pelo não, mesmo que o empresariado engajado ameaçasse retirar apoio financeiro. Um dos méritos do diretor é saber explorar os anseios da população sem excessos, como na cena construída com perspicácia sobre os apoiadores do regime, onde a empregada doméstica que se diz satisfeita com a situação, pois seu filho trabalha e a filha estuda, e ao ser questionada sobre as torturas e os desaparecimentos de pessoas, manifesta-se que isto é coisa do passado.

No é um filme instigante sem ser fabuloso, com cenas marcantes pelo envelhecimento de cores com distorções de imagens esmaecidas e desfocadas para dar um realismo da época, filmadas em vídeos que eram muito usados na década de 70 pelos canais de TV, num arrojo de muita técnica do cineasta. Foi baseado na peça El Plebiscito, do escritor Antonio Skármeta- o mesmo de Ardente Paciência que inspirou o filme O Carteiro e o Poeta (1996)-, marcado pelo começo da derrocada da ditadura de Pinochet instalada no Chile, em 1973.

É uma boa abordagem com dignidade do ocaso de uma era estigmatizada pela barbárie de fuzilamentos, após sessões de torturas e o triste índice de milhares de desaparecidos. Mas depois da amargura reina a bonança de um povo embevecido pelas ruas de Santiago, num banho de alegria e êxtase pela redemocratização de um Chile próspero, onde o epílogo deste drama com tom documental mostra o crescimento após o latente ódio visceral oriundo da repressão. É um marco de otimismo, a contrário sensu dos filmes Desaparecido (1982), de Costa-Gavras, A Casa dos Espíritos (1993, de Bille August e Machuca (2004), de Andrés Wood, bem mais abrangentes na linha de denúncias, sendo sombrios e melancólicos, mas que não contrapõem a expectativa de Larraín e seu entusiasmo contido e enriquecedor.