quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sorry, Baby

 

Resquícios do Abuso

A promissora diretora, roteirista e atriz Eva Victor nascida em Paris, em 1994, atualmente residindo em Los Angeles, estreia em grande estilo e um enorme sucesso com seu primeiro longa-metragem de ficção, Sorry, Baby. Antes, atuou na série de televisão Billions, de 2020 a 2023. Começou a se destacar no universo da comédia com vídeos virais e textos publicados em revistas como The New Yorker. Com um elenco harmônico, retrata com lucidez, sensibilidade, apurado humor e forte contundência, uma temática que vem ocorrendo com frequência: o abuso sexual de quem detém o poder de mando. Um filme denso, que tem arrancado elogios em festivais estrangeiros, como de críticos que o descrevem como uma abordagem urgente, genuína, visceral, honesto e tecnicamente primoroso. Já conquistou o prêmio de melhor roteiro da seção U.S Dramatic do Festival de Sundance, e também foi exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes. O tema define a arte e a resistência de continuar vivendo, embora a jornada seja árdua, dolorosa e traumática, diante da superação, ou uma suposta aceitação, de um passado que deixou cicatrizes abertas. Um mergulho relevante nas questões abusivas com a consequente finalidade.

A história é muito atual destes crimes que tiveram repercussão, os abusos cada vez mais vêm à tona. Mostra a impiedade de um evento traumático, quando Agnes (a bela e talentosa atriz Eva Victor tem uma interpretação antológica) fica sozinha remoendo suas amarguras, enquanto todos ao seu redor seguem em frente. A personagem central é uma professora cursando em seu último ano literatura e inglês na universidade em Fairpoint, uma faculdade de artes no Estado de Nova Inglaterra, região geográfica e cultural no nordeste dos EUA. Isolada numa casa no campo junto com sua gata adotada após ser abandonada na rua, encontra companheirismo naquele animalzinho que sofrera muito. O motivo da tristeza, mesclada com cenas de bom humor, vai avançando de forma coordenada para a relevância do acontecimento. Como um novelo que vai se desenrolando gradativamente num ritmo de contemplação, silêncio e revelações atordoantes, sendo reconstituído por dosagens de estilhaços marcantes na trajetória da personagem resiliente que sente na carne suas idealizações e sonhos ruírem ao ficar refém em um ambiente abusivo e negligente. Ao perceber que o futuro ainda pode reservar muitas opções, confronta a tosca engrenagem severa que rege o machismo predominante em uma sociedade caolha que censura, ignora ou finge solidariedade às mulheres abusadas.

A narrativa em capítulos retrata uma vida atormentada por um fato traumatizante que é contado de maneira fiel, sem exageros ou melodramas apelativos, para inserir numa estupenda criação cinematográfica através de quadros apresentados sem seguir a linha do tempo. No desenrolar da trama, surge Lydie (Naomi Ackie) que resolve visitar a amiga, vindo de Nova Iorque para compartilhar a gravidez. Um reencontro que traz de volta memórias e momentos de um passado a ser esquecido devido aos golpes de outrora, como a época em que ambas eram pós-graduandas com sonhos e ambições na faculdade. Algo ruim aconteceu com Agnes, mas a vida continua, e a criança, filha da melhor confidente em sua nova visita, soa como um sopro de luz como esperança e um exorcismo dos acontecimentos pretéritos. A presença constante do vizinho Gavin (Lucas Hedges) torna uma amizade com boa leveza da alma, a purificação do presente, para expulsar o estigma da figura masculina tóxica, contrapondo com o sofrimento da nefasta noite que teve com seu orientador violador Decker (Louis Cancelmi), mas que apesar de tudo não a deixou reduzida, pois é comovedora sua luta para se tornar uma brilhante educadora.

Tratar o tema com profundidade e ao mesmo tempo expor a perversidade desse tipo de crime, sem maniqueísmos, é meritório. Uma dura realidade que precisa ser debatida com mais vigor sobre as constantes transgressões. A realizadora realça que o silêncio não é ficar neutro, mas uma cumplicidade, tendo em vista que a violência sexual é um dos crimes universais mais frequentes ocorridos, sendo marcados pela dor e o sofrimento psicológico. Há méritos quando aborda sem apelar para cenas explícitas, optando por sugestões que intensificam ainda com mais fervor, sutilezas admiráveis para demonstrar a implícita importunação sexual imposta. Algo estranho que não é retratado nos diálogos, mas que a atmosfera criada indica elementos do que teria acontecido, de maneira correta. A própria solidão é um fator indicativo no cenário da noite e do medo oculto do terror que estão presentes na vida da vítima cercada por fantasmas de um passado, mas que se isola de um mundo caótico decorrente dos instintos de agressividade. No epílogo, a cineasta registra com notável inspiração aquele rosto com olhar patético sobre a condição feminina submetida a traumas recorrentes de um evento pusilânime, ainda que esteja resistente, diante das brutalidades propiciadas por atitudes selvagens de homens aparentemente normais, mas monstruosos na essência humana para saciarem seus desejos libidinosos.

Sorry, Baby é um extraordinário drama familiar e existencial com um enredo aparentemente simples, mas com uma narrativa consistente e profunda, sem deixar de ser: às vezes, contemplativo, no desenrolar com grande vigor; em outras, melancólica, que remete ao trauma como resquício torturante num intenso clímax de agonia e solidão. A protagonista não perde sua identidade, bem como enfatiza o pedido de desculpas para aquela bebê como menciona o título do filme. A irracionalidade está na cultura repleta de pessoas doentias, de personalidades carregadas de instintos animalescos brutais ao ultrapassar o marco da civilidade por uma série de delitos do agressor que testam a dignidade. Eis uma reflexão de um painel repetitivo advindo do medo pela estupidez que torna o enredo amplamente complexo na essência do cinema. Pontua com amplitude as relações dos fragmentos da dura realidade das mulheres violentadas, que sente pânico e medo ao pensar no que vivenciaram, mas que permanecem como seres humanos sensíveis e sonhadores, ainda que vilipendiados pela estupidez criminosa. Uma realização com surpreendente equilíbrio emocional de uma inesquecível mulher ferida no seu âmago, que lança uma nova maneira para driblar as rasteiras do destino, sem perder a classe e a elegância. Mesmo que as circunstâncias estejam em outro sentido, a proposta ressoa pela sobrevivência gradual, o que torna a obra ainda maior, admirável, ressonante, para se tornar edificante.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Lumière! A Aventura Continua

 

Legado Histórico

Com A Invenção de Hugo Cabret (2011), o cineasta norte-americano Martin Scorsese prestou seu júbilo aos pais da primeira filmadora e máquina de projeção, os irmãos Lumière com flasbacks de 1895, no filme mudo de 50 segundos A Chegada de Um Trem na Estação. Mostrava a entrada de um comboio puxado por uma locomotiva a vapor em uma estação de trem na cidade costeira francesa de La Ciotat. Uma homenagem baseada no livro homônimo infantojuvenil de ficção de Brian Selznick (2007), que visava especialmente o carinho justo ao cineasta esquecido e relegado, na pele de um anônimo proprietário de uma loja de brinquedos na estação, o sonhador do cinema e grande ilusionista George Méliès (1861- 1938), que lançou as bases para a ficção com truques, da montagem e do corte, interpretado por Ben Kingsley. Ilustrou com a cena do garotinho ao lado de seu robô que tentava reconstruir, tendo as imagens do filme Viagem à Lua (1902), de Méliès, inaugurando a era do cinema, através de imagens fantásticas para os primórdios daqueles tempos difíceis. Depois chegou a vez do cineasta, roteirista e montador Thierry Frémaux, também diretor geral do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, prestar uma reverência com tintas eminentemente instrutivas, que prefere não ser visto como o diretor do cultuado documentário Lumière! A Aventura Começa (2016), seu primeiro longa-metragem, mas como um crítico e pesquisador desta obra inestimável. Para ele, os verdadeiros autores são os irmãos Auguste e Louis Lumière.

Frémaux dá sequência com Lumière! A Aventura Continua, optando por prosseguir na investigação que reúne 120 curtas dos pioneiros da sétima arte, sendo que Louis era o mais arrojado dos irmãos na direção. As cópias restauradas foram cuidadosamente organizadas, como se as imagens fossem recentes diante da precisão em blocos temáticos para uma visão mais ampla e acurada pelo espectador atento, cinéfilo ou não. Narrado em off, explora com uma análise extremamente profunda da história da invenção do cinema, demonstrando todo seu amor, paixão e reconhecimento pela dupla precursora. Os curtas proporcionam um cotidiano da vida no começo do século passado e uma visão das origens de uma forma de expressão inovadora. Cada imagem retrata a variedade de figuras, composições, narrativas e sentimentos que viriam fazer posteriormente da gramática usual e conhecida do cinema. Uma produção que mergulha numa jornada deslumbrante pelo universo dos fundadores do cinema, de maneira meticulosa. São as primeiras históricas cenas em movimento restauradas pelo olhar único da França e do mundo da Era Moderna, através de filmes compilados e resgatados da indústria de produção dos verdadeiros iniciadores desta magia de sonhos, que é mostrada em breves 50 segundos cada um na tela, de forma sucessível. Devidamente montadas para celebrar o legado da dupla, de 1895, data da primeira sessão em espaço público de cinema, até 1905, quando o cinema se tornaria mundial e um fenômeno de público no planeta.

Muitos planos são admiráveis e impressionam pela perfeição dos enquadramentos e pela maneira com que colocam peças realistas, abrindo caminho para maior função do cinema, com inspiração nos quadros de Van Gogh, Renoir e Monet. Profundidade, angulações para grandes ou pequenos grupos de pessoas, bem como a continuidade da pintura, e arte visual, que predominam no século 19. Também é visível os movimentos reiterados de câmera na segunda metade do século 20, no qual o aparelho de projeção fica em cima de trens ou barcos, como na cena de Veneza para os passeios lúdicos da máquina. Fica registrado ainda outro momento histórico, quando Abbas Kiarostami e Federico Fellini, também com câmeras do século 19 fazem suas reverências ao início da era cinematográfica. São relíquias históricas do marco de gravação do cinematógrafo dos irmãos Lumière, que Frémaux parte para visitar o volumoso catálogo. Outra joia rara é O Regador Regado, com o banho de mangueira proposital no rapaz que apronta uma travessura. Passa ainda por cenas que influenciaram velhos mestres como Orson Welles, Murnau, Alfred Hitchcock, Elia Kazam, Yasujiro Ozu, Fritz Lang, e principalmente John Ford, um grande discípulo para os enquadramentos em plano aberto das câmeras nas planícies e grandes paisagens dos seus faroestes mitológicos. Até o clássico Encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, bebe nas águas de um curta sobre os marinheiros. São pequenas preciosidades de filmes originais muito bem restaurados desta coletânea, trazendo plena nitidez às imagens originais singulares de mais de 100 anos, com as fascinantes peças musicais de Gabriel Fauré escolhidas para acompanhar os comentários do realizador.

Lumière! A Aventura Continua tem muito mais ao longo dos rápidos 104 minutos desta seleção organizada em capítulos, como se fossem diamantes brutos que viriam a ser lapidados, criando uma estrutura instigante. Há cenas inesquecíveis como da cavalaria que se aproxima da câmera, o imenso barco encalhado; o curta A Saída da Fábrica; e a criança caminhando que tropeça espontaneamente. O mundo se estreitava e as distâncias inimagináveis davam lugar para a o início da globalização pelas telonas. Tudo começava a ficar próximo e os tabus iriam de dissipando. Os irmãos Lumière e sua equipe de operadores não deixaram de registrar os franceses trabalhando e se divertindo numa época de poucas opções de lazer. Lyon, cidade natal dos pioneiros, e berço do cinema, foi o cenário para os primeiros curtas do cotidiano. Somente depois eles iriam para Paris filmar as pessoas andando pelas ruas de bicicleta em meio às charretes puxadas por cavalos, com a Catedral de Notre-Dame, o rio Sena, a Torre Eiffel e outros pontos turísticos como locações referenciais de imagens preciosas. Uma aula de cinema e cultura geral contada didaticamente por Frémaux sobre os planos abertos nas grandes locações, bem como os fechados em lugares exíguos. O desfecho é marcante com Francis Ford Coppola dirigindo a cena do primeiro filme exibido, utilizando o mesmo método dos irmãos vanguardistas em documentários com puro realismo. Em toda narrativa há uma exatidão cronológica correta sobre os temas abordados para serem guardados na memória advindos deste tributo arrebatador de imagens artesanais históricas, de forma tenra, em preto e branco e sem truques, protegidas para a posteridade.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2025)

 

Os 10 Mais e as 05 Menções Honrosas

É final de ano e todos os críticos estão publicando suas listas de melhores filmes vistos nos cinemas, festivais e nas plataformas de streaming em 2025. Também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda as 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

 

01. The President’s Cake (O Bolo do Presidente), de Hasan Hadi (foto acima);

 

02. A Luz, de Tom Tykwer;

 

03. Uma Bela Vida, de Constantin Costa-Gavras;

 

04. Vermiglio- A Noiva da Montanha, de Maura Delpero;

 

05. A Quem Eu Pertenço, de Meryam Joobeur;

 

06. Foi Apenas Um Acidente, de Jafar Panahi;

 

07. Manas, de Marianna Brennand;

 

08. Apocalipse dos Trópicos, de Petra Costa;

 

09. Um Completo Desconhecido, de James Mangold.

 

10. Flow, de Gints Zilbalodis.

 

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos cinco menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

 

- Homem com H, de Esmir Filho;

 

- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho;

 

- A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof;

 

- Oeste Outra Vez, de Erico Rassi;

 

- Terra Perdida, de Akio Fujimoto.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Foi Apenas Um Acidente

 

Ética e Vingança

O cinema iraniano está de volta com todo seu vigor, simplicidade, discussões sobre a censura e restrições em mais uma notável reflexão da política. O perturbador drama social mesclado com comédia, Foi Apenas Um Acidente é uma coprodução com a França, país que representa no Oscar de 2026, e Luxemburgo. Também foi indicado em quatro categorias no Globo de Ouro (Melhor Filme de Drama, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Filme de Língua Não Inglesa). Dirigido e escrito por Jafar Panahi, que conseguiu driblar mais uma vez a ordem superior impeditiva de circular livremente no seu território, afrontando líderes políticos e religiosos. Considerado inimigo da República dos Aiatolás pelas declarações feitas no exterior pela liberdade dos artistas. Com seu filme anterior, Sem Ursos (2022), ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2022, onde não pôde comparecer para a premiação. Ex-assistente e discípulo do mestre conterrâneo Abbas Kiarostami, realizador dos magistrais Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999). Já esteve duas vezes preso, a primeira, em 2010, durante 86 dias, depois por sete meses, entre 2022 e 2023, foi libertado após uma greve de fome. Proibido de deixar o país por 15 anos, até que, em maio de 2025 pôde viajar a Cannes para apresentar Foi Apenas Um Acidente, sendo o grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes neste ano. Teve de pagar uma fiança para adquirir sua liberdade, após cumprir uma pena autoritária de 14 anos de prisão domiciliar e a proibição de realizar filmes no Irã.

Somente outros dois grandes cineastas como Robert Altman e Michelangelo Antonioni venceram a tríplice coroa na história do cinema. Agora, Panahi se igualou a eles, ao ganhar o Leão de Ouro e o Prêmio Fipresci no Festival de Veneza de 2000 com O Círculo (2000), no qual já demonstrava segurança de elenco, enredo forte e uma grande dose de dramaticidade, sem se deixar amedrontar pela tirania. Com Táxi Teerã (2015), venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim daquele ano, em que pouco demonstrava ser o realizador um prisioneiro ao filmar clandestinamente, limitado no espaço de um carro-cárcere com janelas e espelhos retrovisores para acompanhar os personagens nas suas intimidades devassadas. Como se fosse um jogo de espelhos das personagens comuns com as atrizes convidadas, segue esta linha de forma marcante, também apontado por alguns críticos como inspiração em Kiarostami no filme Dez (2002). Realizou ainda em forma de manifesto como libelo pela liberdade, soando como um brado dolorido pela prisão domiciliar decorrente da expressa ordem de não poder filmar: Isto Não é Um Filme (2011) e Cortinas Fechadas (2013). Tem também em sua filmografia os ótimos O Balão Branco (1995) e Três Faces (2018), seu antepenúltimo filme, que aborda uma atriz famosa que recebe um vídeo intrigante de uma garota implorando por ajuda para escapar de sua família conservadora.

Em seu último longa, a trama gira em torno de um grupo de cidadãos que organiza uma vingança contra um homem que acreditam ser o torturador. Tudo começa com o mecânico Vanid (Vahid Mobasseri) que foi aprisionado pelas autoridades iranianas, interrogado de olhos vendados e torturado sem escrúpulos. Em um dia qualquer, anos após os traumas do seu passado, entra na oficina um motorista, Eghbal (Ebrahim Azizi), com problemas no seu carro, que pela artimanha do destino mudará por completo a vida dos envolvidos. Seria coincidentemente o algoz que tinha uma perna mecânica, era manco, por isso chamado de Perna de Pau, do qual as vítimas ainda ouvem o som nos seus pesadelos, a voz e o cheiro do suor. Há dúvidas, porque não há certeza definitiva de sua identidade, por isto o mecânico vacila ao levá-lo para uma cova para enterrá-lo vivo. Vai até outra vítima, o livreiro para buscar a confirmação, mas que o incentiva a esquecer o assunto, e não querer fazer justiça com as próprias mãos como revanchismo, invocando a ética e os valores que os detentores do regime desconhecem. Tenta a ajuda com uma fotógrafa (Mariam Afshari) que teria sido torturada pelo mesmo carrasco, mas que agora está trabalhando para uma cerimônia de casamento. A noiva, por acaso, também foi martirizada, e sua presença causa um rebuliço com efeito insólito. Todos acabam se juntando para andar numa van como se fosse um tour pelas ruas de Teerã, com o torturador sequestrado no interior do veículo. O protagonista quer se vingar do suposto agente do Estado que o traumatizou emocional e fisicamente. Mais um se integra na saga do grupo, o raivoso quarto elemento. Panahi agrega tensão com comicidade, gera dúvidas e fica sempre o questionamento de um possível erro sobre o opressor de outrora. Há humor, embora o horror no drama esteja latente nesta nova filmagem clandestina.

O prólogo dá indício de uma situação calma com um pai, uma mãe grávida, e a filha conversando animadamente num carro que abruptamente atropela um cachorro, sendo seu destino ocultado de forma alegórica. Logo tudo irá se alterar, diante de um roteiro enxuto que mostra uma sensível trajetória humana de movimento pela tentativa da suposta calmaria pelas complexidades humanas utilizadas com fino humor para aos poucos ir colocando as atrocidades sofridas pelos opositores do regime. A vingança e a justiça como forma de perdão tácito sobre quem são os torturadores de uma barbárie, no recorte de um período macabro, estão em questionamento. Uma mescla de corrupção sub-reptícia de vários setores do sistema vigente predominado pelo fanatismo fundamentalista com extorsões de quem deveria zelar pelo poder público, como nos casos de pedidos de propinas retratadas em duas cenas, de situações caóticas e improváveis. Impressiona a falta de liberdade de expressão, na qual não pode haver críticas ao regime que cerceia temas relacionados ao governo vigente. Um cenário mostrado com equidade que consegue subverter para denunciar problemas sociais e nutrir o estado educativo ao lembrar para que não se repita através de um retrato da rebeldia dos torturados que sofreram consequências da violência de uma disputa política desigual. Ficaram as marcas da tragédia com cicatrizes abertas das feridas de quem optou em não aceitar o autoritarismo, vistas como pessoas errantes que ainda assim sobreviveram com medo e pavor das consequências advindas do poder dos aiatolás.

Eis um grito contra a opressão pela beleza e a função primordial da sétima arte que está inserida nestes detalhes da simplicidade realizada com inteligência, o que torna um drama mesclado com humor, passa pela ação, transita pelo suspense, na qual o epílogo registra com um poder de cena magistral sobre a justiça se sobrepondo à vingança numa nação de uma cultura religiosa xiita extremada, de um sistema ultrapassado e sem liberdade, mas que mesmo assim não consegue inibir a criatividade que não tem limites para o cinema inovador e empolgante de um marginalizado cineasta de oposição. Um filme que aflora a dignidade pelo seu poder metafórico de abordar nas entrelinhas as questões proibidas no país. Usa sutilezas para mostrar as raízes da arrogância estatal autoritária contrapondo com a força singular do personagem central em seu conteúdo de oprimido contestador para um relato eloquente pelo direito da ampla justiça, da clemência para enaltecer o nascimento de uma criança como uma luz para o futuro daquele agressor a serviço da repressão, que também é uma vítima do sistema. Foi Apenas Um Acidente é mais um dos grandes filmes do cineasta, construído em torno da temática sobre a vil vingança diante do ódio do regime autocrático para eliminar o adversário num círculo vicioso infindável no qual urge a dignidade da vida preservada. Um final em aberto nesta iluminada obra de humanismo, delicadeza, moral, justiça e ética.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A Quem Eu Pertenço

 

Mãe e Filhos

Um filme que teve boa recepção do público e da crítica no Festival do Rio de 2024, mas que só agora chega comercialmente nas salas de cinema, foi o instigante A Quem Eu Pertenço, da diretora e roteirista tunisiana Meryam Joobeur, radicada em Montreal, que também fez parte da competição principal do Festival de Berlim 2024. Conhecida principalmente pelo curta Brotherhood, lançado em 2018, tendo indicação ao Oscar de melhor curta-metragem de live-action. O longa-metragem de estreia é uma coprodução de vários países, incluindo Tunísia, França e Canadá, Noruega, Qatar e Arábia Saudita, que tem como material promocional as perguntas “a quem pertence a minha vida?”, “Quando retiramos as camadas de crença, religião, política ou nacionalidade, o que sobra de nós?”. Conta uma dilacerante história de uma mãe angustiada com a partida dos dois filhos mais velhos para uma suposta guerra. Aïcha (Salha Nasraoui- em atuação antológica) é uma típica matriarca consumida pela dor, resiliência e uma amargura, que vive numa pequena fazenda de criação de ovelhas, em um vilarejo no norte da Tunísia, com o marido, Brahim (Mohamed Hassine Grayaa), um homem machista e bronco, que joga toda culpa na esposa, e o filho caçula, Adam (Rayen Mechergui), que acredita ter os irmãos indo trabalhar na Itália, além de Bilal (Adam Bessa), um policial que é filho do primeiro casamento de Aïcha.

A trama se divide em três capítulos. Os dois primeiros focam nas situações familiares e a rotina com o tempo passando, a ausência dos filhos parecendo normalizar a aparente paz e serenidade, menos para a mãe, que vai envelhecendo e sendo consumida pela espera em vão, mas mantém o trabalho duro diário, até que um dos filhos, Mehdi (Malek Mechergui), retorna inesperadamente e anuncia que seu irmão morrera. Vem junto com ele uma mulher grávida e misteriosa (Dea Liane), mencionada como sua esposa, apesar de não ser muçulmana, usa niqab roxo, um véu islâmico que só deixa descobertos os lindos olhos azuis. Aquela presença fantasmagórica indica para um segredo sombrio que ameaça a aldeia. O amor materno e a busca pela verdade colocam em dúvidas a genitora sensorial, de crenças fortes, mas uma brava mãe leoa na defesa da prole, que assume a condição de administradora do lar para lutar com uma dignidade comovedora. O terceiro capítulo é aterrador, além de explorar a dor da perda em uma situação diferenciada e cativante, retrata o lado perigoso e assustador do grupo terrorista ISIS com uma falsa expectativa de que acabaria com o constante estado de guerra interno e com os abusos belicistas pela ideologia fundamentalista. Na realidade, as mulheres perderam todos seus direitos, como nas chocantes cenas reveladoras sobre a simbólica grávida misteriosa.

A brilhante narrativa é uma mescla magnífica de gêneros sem exageros melodramáticos, no qual os silêncios preponderam para dar mais legitimidade à essência do cinema em seu todo. Transita exemplarmente do drama familiar para o suspense, depois para o realismo fantástico, até mergulhar no horror desencadeado pelo terrorismo sem precedentes, mantendo a plateia constantemente atenta. O jovem casal vive escondido na casa dos fundos da família, enquanto isto, acontecimentos estranhos surgem como a morte de uma ovelha, fazendeiros vizinhos desaparecendo, em constantes situações sobrenaturais empíricas. Não há sinais de respostas fáceis ou os didatismos recorrentes carregados de clichês. A virada de roteiro é espetacular numa abordagem corajosa do filme com muita eficiência e um clímax psicológico atordoante. Tudo é colocado com precisão por esta realizadora promissora, numa construção que soa como uma verdadeira aula de cinema na essência mais genuína ao surpreender em cada cena. O enredo vai se dissipando com o desenrolar da história, enquanto a mãe observa os fatos recorrentes pela iminência dos temidos agentes de um grupo extremado que matam, executam e tocam o terror para espalhar o medo. Querem um regime autoritário que coage sem dó e nem piedade pelo exercício de uma mentalidade e suas tendências sanguinárias.

O filme não se presta para contar apenas uma situação, mas para entrelaçar em três capítulos contundentes como se percebe do seu desfecho arrasador e trágico com tintas catárticas. Perturba pela grande revelação de um segredo que irá ser descoberto com astúcia e uma ironia do destino. Longe de filigranas de emoções superficiais, faz o espectador refletir nesta elegante construção de personagens com suas características inerentes ao deixar um minguado sopro de esperança germinada para o futuro. Uma admirável obra a ser vista por todos que desejam compreender a história de um país africano pobre, mas esperançoso e resistente, com cenas de uma fascinante fotografia contrapondo com um cenário de assombrosa crueldade, na qual a dignidade se esvai em alguns seres humanos sem alma, muitas vezes anônimos, corroborado pela cativante trilha sonora que não é invasiva e dá o tom certo em cada entrada. É contagiante no âmago cinematográfico pela intensidade dos fatos intercalados que desfilam numa atmosfera criada em torno de uma mentalidade de ideias e pensamentos sobre costumes ultrapassados.

Um contexto de intolerância sobre o que é capaz de se fazer com um povo com seus problemas conjunturais do passado que refletem no presente e apontam para um futuro de poucas perspectivas nesta aprofundada denúncia pelo cinema. São marcantes a sensibilidade e a delicadeza feminina de focar a chaga maligna enraizada no seio de um universo dominado pelos homens deste tema universal sobre a condição da mulher simbolizada pela mãe resistente e a moça grávida, sem pieguismos baratos. Os paradigmas humanos são pontuais, no qual faz com que as cenas tenham o caráter da resiliência naquela bucólica paisagem realçada em seus contrastes pela limitação dos horizontes femininos, na interpretação caolha de um universo estritamente machista escancarado com todas as mazelas implantadas pela opressão e violência deixadas pelas cicatrizes e crueldades de mutilações, em todos os sentidos, tanto física como emocional, retratados no drama. Com garra, dignidade e muita dor no coração e na alma, a protagonista é uma verdadeira lição de vida. Eis uma reflexão pontual, que faz com que as cenas tenham o caráter da luta monumental daquela criatura que nunca se verga. O espectador não fica alheio e é convidado de maneira sutil a ter um sentimento de preocupação e dor nesta temática humanitária. Um olhar lançado pelas transformações emocionais na construção psicológica nesta impactante obra-prima. A Quem Eu Pertenço deverá estar nas listas dos 10 melhores do ano.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O Agente Secreto

 

Efeitos da Ditadura

O consagrado cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho estreou com o cultuado O Som ao Redor (2013), que rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda, o Kikito em Gramado de melhor direção, e o título de Melhor Filme no Festival do Rio. Refletia a preocupação do cinema autoral com a estratificação social, através da captação da câmera que percorre uma rua famosa da zona Sul de Recife, mostrando belas moradias bem protegidas. Depois viria causar polêmica com o ótimo Aquarius (2016), diante do protesto da equipe na França ao participar da seleção oficial do Festival de Cannes. Virou bandeira política contra o governo interino, à época, cinco dias após o processo de impeachment ser instaurado. O terceiro longa, Bacurau (2019), dividiu a direção com Juliano Dornelles, e ganhou o prêmio do Júri no Festival de Cannes daquele ano. Mostrou arrojo ao criar um faroeste contemporâneo que transita para o suspense, passa pela ficção científica, corteja com o horror e chega até o drama das famílias acuadas pela invasão de alienígenas numa aldeia aparentemente pacata. Seu penúltimo longa foi o extraordinário documentário Retratos Fantasmas (2023) ao dialogar com a ficção quando divide em capítulos, faz incursões num roteiro ficcional, e flerta com uma obra de características de puro ensaio. Reflete a preocupação com a temática do cotidiano das salas de cinema de calçada sendo substituídas pelas farmácias, igrejas, e a especulação imobiliária no desenvolvimento urbano acelerado no centro de Recife. Uma espécie de personagem principal através do imaginário e das muitas memórias, durante o século XX.

Indicado pelo Brasil ao prêmio de Melhor Filme Internacional do Oscar de 2026, após um lançamento bem-sucedido em Cannes, quando obteve a Palma de Ouro de direção e ator (Wagner Moura), O Agente Secreto, novo filme escrito e dirigido por Mendonça Filho, que dividiu em capítulos a história que se passa no país, em 1977. Armando com pseudônimo de Marcelo (Moura de boa autuação, sem empolgar) é um professor de 40 anos especializado em tecnologia, que faz pesquisas envolvendo novas técnicas, foi obrigado a sair de São Paulo e se estabelecer em Recife. Aparentemente melancólico, mas gentil quando o momento exige, também é ágil e sorrateiro. Tem a intenção de começar uma nova vida e fugir de um passado de perseguição e mistério, rodeado de muita violência decorrente dos anos da ditadura militar que começa a dar sinais de esgotamento e a transição feita pelo então presidente Ernesto Geisel. O prólogo apresenta uma situação inusitada de um cadáver estendido no chão, tapado por pedaços de papelões, sendo fustigado por cães, com o olhar interrogativo do protagonista, em uma das duas melhores cenas, além da outra, na qual Fátima (Alice Carvalho), que proporciona um diálogo curto e revelador no restaurante, embora entra e saia do cenário sem maiores explicações. Um choque moral, ético e político, no qual a corrupção está presente com achaques dos patrulheiros na ronda policial, bem como de figurões da alta sociedade.

A trama mostra o personagem central chegando discretamente numa comunidade chamada de "refugiados" através de uma rede de auxílio a foragidos do regime de exceção, sob o comando da simpática, despachada e acolhedora Dona Sebastiana (Tânia Maria, uma ex-artesã, atriz iniciante potiguar de 78 anos que brilha), principal responsável pela solidariedade e acolhimento de Marcelo, que tenta encontrar um documento de identificação que comprove a existência de sua mãe, como uma memória a ser lembrada como resgate. Lá estão a dentista (Hermila Guedes), que acaba virando a amante do professor; o delegado inescrupuloso e corrupto (Robério Diógenes); o médico disfarçado de feirante (Thomas Aquino); o capanga ajudante (Gabriel Leone); o sogro de Marcelo (Carlos Francisco- projecionista do Cine São Luiz, em Recife); o enigmático soldado alemão (Udo Kier), o carismático e convincente matador de aluguel (Kaiony Venâncio), que rouba as cenas nas perseguições de rua. Tudo é Carnaval naqueles dias, mas logo a paz e a tranquilidade da cidade vai dando lugar para um caos com pistoleiros a mando de um industrial paulista ganancioso que se julga prejudicado pelo protagonista, ora espionado, mas que tem ojeriza pela ciência e é contrário ao meio científico.

A narrativa traz situações extraídas dos longas anteriores do diretor numa mescla de drama com comédia e suspense para realizar um interessante filme com câmeras Panavision aliada ao figurino fiel da época para dar uma veracidade ao cenário com uma aceitável trilha sonora. É inferior aos seus outros quatro filmes ao optar por estilos diversos numa mistura como uma torre de babel. Peca no excesso de ideias que se mostram conflitantes e se tornam confusas pela falta de harmonia em um roteiro múltiplo. A colocação da “perna cabeluda” que sai da boca do tubarão, numa referência ao blockbuster de Steven Spielberg, é uma mistura entre o real e o absurdo em uma homenagem ao cinema trash, admitida pelo cineasta. Não chega a ser uma crítica ostensiva aos detratores dos grupos LGBT, tendo em vista que numa rápida cena aparecem e desaparecem do cenário de uma praça escura à noite, com mortes e agressões violentas. Poderia ser melhor explorada, acaba virando apenas uma situação das lendas folclóricas do lugar. Quebra a continuidade e esfria o momento de tensão estabelecido. Frustra no epílogo com uma elipse que remete para uma notícia de capa de jornal, segue com as gravações arquivadas sendo ouvidas por jovens interessadas no passado, uma espécie ONG criada na época por Elza (Maria Fernanda Cândido), acarretando num típico anticlímax. São fatores que enfraquecem a realização, como o surgimento inesperado do filho do protagonista, um médico iniciante, sem querer saber sobre a morte do pai, completamente alheio ao vínculo familiar.

Sem se intensificar na temática proposta dos efeitos da ditadura, o realizador deixa tudo pela metade do que propõe. Tenta mostrar com alguma dose bem-humorada para suavizar as perseguições que sofrem os personagens inseridos no contexto do enredo. O resultado é uma abordagem explorada sem a devida profundidade naquele cenário diabólico nacional dos 1970, que dá mostras do ressurgimento constante da extrema-direita até nossos dias atuais, mas sem provocação. Causa uma ruptura na história contada, deixando uma grande lacuna que se distancia de uma melhor reflexão. O tubarão que engole pessoas, possivelmente aquelas jogadas da ponte pelos torturadores do autoritarismo de assassinatos políticos, é uma conexão peculiar com o enredo e a realidade daqueles tempos sombrios. A comparação com o multipremiado Ainda Estou Aqui (2024), Walter Salles, não encontra elementos similares entre um e outro, exceto o período dos anos de chumbo. O filme de Salles é uma obra-prima e um marcante registro histórico do pior período político brasileiro contemporâneo. Significativo e relevante por seus aspectos em um regime vergado da democracia para o estado totalitário, sob o manto do tiranismo. Já o de Mendonça Filho tem vários filmes em um só, prevalecendo o artificialismo e o vazio nesta miscelânea de ideias. Eis um razoável filme, ainda que menor aos outros de sua filmografia, de um cineasta que fica devendo, considerando seu potencial de grande artesão criativo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Mostra de Cinema São Paulo (Cão Morto)

 

Crise Matrimonial

Pelas lindas imagens da esplendorosa fotografia de Mark Khalife, o drama familiar Cão Morto vem do Líbano em coprodução com a França, Catar e Arábia Saudita, para marcar presença nesta 49ª. Mostra de Cinema de São Paulo. A história é contada sobre se ainda resta algo a ser salvo numa conturbada relação, com uma dissecação sobre um casamento que respira pelos tubos e se decompõe ao mesmo tempo a cada dia que se passa. A direção e o roteiro são da libanesa Sarah Francis, que cresceu em Beirute, onde estudou no Instituto de Estudos Cênicos, Audiovisuais e Cinematográficos. Suas características são de abordagens que costumam apresentar paisagens sonoras e experimentos visuais que exploram a posição em constante mudança no mundo. Há em sua filmografia os longas-metragens Pássaros de Setembro (2013), exibido na competição principal do CPH: DOX em Copenhague, na Dinamarca e em diversos festivais e museus, e Assim Como Acima, Abaixo (2020), apresentado na 44ª. Mostra de São Paulo e no Festival de Berlim.

O enredo retrata um casal de meia-idade com seus problemas peculiares de monotonia no casamento. O prólogo apresenta Aida (Chirine Karameh) dirigindo seu carro numa noite chuvosa pelas montanhas libanesas encravadas num sugestivo cenário até chegar em uma casa aparentemente vazia. Reencontra ocasionalmente o marido, Walid (Nida Wakim), que estava há anos no exterior, após fugir por supostos problemas de conflitos internos em seu país, deixando pra trás a esposa e uma filha que foi morar com o namorado. Mostra-se surpresa com o fato inusitado. Ficam por uma noite e quatro dias discutindo a relação na tentativa de encontrar respostas, com visível desconforto, aos dramas e os segredos do matrimônio tumultuado. Não é uma experiência tranquila, embora cada um tente compreender as questões do outro com alguma dose de importância. Ela busca entender a dinâmica desse companheirismo remoto de maneira pragmática, esconde a verdade sobre o cachorro de estimação Pluto; ele se prende a uma antiga vida familiar que já não é mais a mesma pelos contratempos ocorridos.

A temática era interessante para a diretora explorar os motivos mais profundos dos vínculos de rompimento da separação e a tentativa de reconciliação que esbarra em indícios de traição. Os dissabores como elementos próprios de transformação são inequívocos pelas circunstâncias da alma e do coração, com o amor e o ardor, que não fluem pela narrativa preguiçosa. Mas nada é conclusivo e o casamento dá sinais de fadiga e a decomposição se torna iminente. Não há mais aquele desejo de uma libido exaurida pelo tempo, embora Aida faça uma tentativa final. A realizadora se atrapalha num roteiro confuso e de pouca inspiração, com uma edição frágil e uma trilha sonora fraca e invasiva, sem sentido, nas cenas que se desenrolam. Não há contundência e sequer aprofundamento, no qual prevalecem vários clichês se repetindo exaustivamente. Um filme que fica devendo pela falta da essência cinematográfica e pelo artificialismo dos diálogos diante da ausência de gatilhos plausíveis acionados para uma recomposição pela aproximação, mas sem qualquer virada de expectativa para a vida incomum. Já sem o fogo da paixão e a falta de combustão para dar o clique da retomada, surge o clarão da separação abafado pelo tempo de uma convivência desmotivada e sem o apimentado desejo em tempos idos, tendo em vista o tédio reinante instalado. A luz no fim do túnel surgida não avança na trama e o indicativo primordial de que nunca é tarde para recomeçar e tentar de novo e sempre, como manda o tradicional manual de reconstrução, acaba sucumbindo no marasmo.

A cineasta tenta fazer uma reflexão dos atritos das relações surgidas no cotidiano do amor de outrora em sua extensão com os vínculos afetivos decorrentes. Tenta colocar dentro de uma proposta racional, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao tênue laço matrimonial, que ruma para a extinção. Cão Morto deveria se aprofundar e refletir sobre a solidão, o envelhecimento que se avizinha e a possível traição que estão presentes nos personagens envolvidos. São situações pouco esclarecidas ou focadas na representação dos papéis dos personagens no dia a dia e da dúvida insistente. Estão entrelaçados dentro de uma verdade inafastável e onipresente na vida daquele casal com todas as incertezas que os rodeiam. Como uma simbologia sem consistência da existência pelo rompimento, e a reconciliação dos cônjuges mergulhados na incerteza, além das idas e vindas nas fracassadas relações de cunho turbulentas.

Há artificialismo no romance prestes a ser desfeito e improvável para ser refeito, e com pouco realismo no drama vivido. Por isto, a realizadora desenvolve um filme simplório sobre a tristeza do ser humano e sua proximidade com a vida angustiada pelas armadilhas do amor. Descamba definitivamente para um agridoce melodrama tradicional. Evidencia-se a ausência de uma construção sólida dos personagens, quando remete para uma solução pouco imaginativa, como se depreende do desfecho, afastado da criatividade enriquecedora do cinema na sua essência até esboroar-se. Uma obra descartável, sem nenhuma contribuição para um espectador mais exigente, embora satisfaça um público que busca apenas uma retórica açucarada e vazia ao se afastar de uma lúcida reflexão dos atritos das relações no cotidiano amoroso em toda sua extensão pelos vínculos afetivos. Além de ignorar os descompassos que levam à procura do sentido afetivo da paixão e seus princípios subjetivos. Tropeça na natureza instintiva ludibriada pelo roteiro comum e previsível. Sobra monotonia com longos planos-sequência que possibilitam vários bocejos e alguns cochilos.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Mostra de Cinema São Paulo (Mirrors nº. 3)

 

O Passado

O diretor e roteirista Christian Petzold se notabilizou com a trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos, que iniciou com Barbara (2012), tendo recebido o prêmio Urso de Prata por melhor direção no Festival de Berlim. Ambientado nos anos de 1980, num bucólico vilarejo, em pleno regime comunista instalado na Alemanha Oriental, numa análise sobre a divisão do país antes de cair o muro, com o constrangimento da protagonista em ser vigiada e passar por humilhantes revistas íntimas. Phoenix (2014) centralizou a história na judia desfigurada enquanto esteve presa num campo de concentração em Auschwitz, que retorna à sua cidade natal em escombros na busca de um cirurgião plástico para recuperar a imagem deformada decorrente de um passado de perseguições. Fechou a trilogia com Em Trânsito (2018), com cortes certeiros e precisos, concessões moderadas para o espectador, num tom seco e direto com artimanhas adequadas em um painel de flagelo humano das aflições políticas contemporâneas num mundo de dúvidas constantes. Já o último longa-metragem, Afire (2023), foi o ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2023 e vencedor do prêmio de Melhor Filme Internacional da Crítica na 47ª. Mostra de Cinema de São Paulo, certamente está entre os melhores do cineasta, abordando os acontecimentos que deixaram sequelas que marcarão as vidas de jovens numa reflexão para uma admirável aprendizagem.

Petzold está de volta com mais uma obra intrigante de suspense psicológico em Mirrors nº. 3 (Espelho em uma tradução livre), que se fez presente na 49ª. Mostra de Cinema de São Paulo. A trama gira sobre Laura (Paula Beer sempre ótima), uma estudante de Berlim que sobrevive milagrosamente a um acidente de carro em que o namorado foi vitimado fatalmente. O fim de semana trágico no campo é um gancho para a protagonista que saiu ilesa, mas profundamente abalada, e ser acolhida por Betty (Barbara Auer de atuação irreparável) na bela residência da testemunha do fato. A senhora que mora sozinha irá cuidar da jovem com muito carinho e uma dedicação excessiva que se torna totalmente obsessiva. Com o desenrolar da história, surgem o marido de Betty (Matthias Brandt) e o filho (Enno Trebs), dois mecânicos que ganham a maior parte do sustento desativando sistemas de GPS ilegalmente em carros luxuosos de membros de uma aristocracia fútil. Eles não moram mais com a idosa que mantém uma relação estranha de distanciamento, com algumas aparições frias. Habilmente o diretor vai introduzindo no ambiente de uma tranquilidade quase familiar entre os quatro personagens, um passado trágico que não pode mais ser ignorado.

Bem distante de abordagens de temas com grande complexidade de seus filmes anteriores, Petzold retrata com um humor ácido e desconfortável essa unidade familiar bizarra que se forma. A curiosidade das partes oferece a oportunidade de colocar em tela algumas expressões que oscilam da fixação para o carinhoso. Um clímax difícil de ser mantido com equilíbrio emocional em situações excêntricas, mas surpreende naqueles belos dias primaveris no interior da Alemanha. O realizador opta em manter o desenrolar da história num nível mais contido e por vezes cômico. As grandes viradas do roteiro são na busca do emocional e em outras da intimidade guardada como segredo pretérito. O impacto não é suficiente para dar ao filme um senso inerente de propulsão, embora a trama seja mantida com alguma expectativa no formalismo peculiar e impecável do realizador. Aquelas paredes do casarão são personagens de uma revelação mantida e guardada a sete chaves e que coloca em xeque os enigmas de um drama familiar e seus suspenses.

O realizador mostra a trajetória da jovem estudante e pianista sendo acolhida por uma mãe melancólica de um grave acontecimento que ali permanece como uma sombra eterna e recheada de mistérios. Vive com depressão recorrente levando o dia a dia com muita dor e tristeza. O clima de tensão se instala aos poucos. De um lado, Laura sofre com a perda do namorado e tenta se reerguer. Não imagina que todo o amor afetuoso e o carinho incontido recebido de sua cuidadora de ocasião têm um objetivo único substituir alguém. Uma mãe dilacerada pela dor imensa do luto permanente, que vê na personagem central uma válvula de escape que está mexendo e revirando feridas abertas sem indícios de cicatrização. A narrativa é boa e enfatiza todos os componentes da família com reações estranhas em busca de uma redenção que virá num desfecho de confissão decorrente de uma insustentável tragédia. O diretor parece pouco inspirado e dá mostras de pouca criatividade na condução do enredo. Mesmo assim faz uma obra que perturba, ainda que seja bem menor que seus magníficos filmes anteriores, exagera na dose do minimalismo e na simplicidade do roteiro.

Cabe ressaltar que sempre é bom assistir um filme deste cineasta incontestável e significativo. Petzold é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo da Alemanha, possivelmente o mais bem-sucedido da chamada Escola de Berlim. Embora tenha ficado devendo, considerando seu potencial de grande artesão criativo, Mirrors nº. 3 deve ser visto se comparado com o universo de criações comerciais descartáveis e de rara qualidade que pululam nas salas de cinema. Um suspense com suas armadilhas e sugestões sutis e sensíveis dentro de um contexto atual pouco animador. O elenco é homogêneo e sem deslizes, o enquadramento não merece reparos, as elipses estão adequadas e a fotografia é fascinante nas belas imagens captadas pelas lentes de Hans Fromm. Eis um filme correto e limitado, porém com uma razoável amplitude de abordagem e da eficácia nas relações estranhas e pouco pragmáticas dos fragmentos da triste ruptura familiar como espelhos partidos pela perda que desencadeiam em episódios esquisitos de um painel de circunstâncias acumuladas de intrigantes situações humanas. Os elementos opressores obscuros e enigmáticos são retratados por uma realidade de dificuldades impostas por um luto a ser superado. O epílogo traz uma aparente paz e uma libertação das amarras fervorosas que existem advindas de uma grande solidão com o viés de seguir em frente.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Mostra de Cinema São Paulo (Melhor Enlouquecer na Natureza)

 


Os Gêmeos

Com procedência da República Tcheca em coprodução com a Eslováquia, Melhor Enlouquecer na Natureza é um dos bons filmes apresentados nesta 49ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Baseado no livro homônimo de Aleš Palán, que inclui várias histórias sobre os eremitas de Sumava, na região de montanhas, em um parque nacional localizado no sudoeste da República Tcheca, na fronteira com a Alemanha e a Áustria. Nascido em Ladce, atual Eslováquia, em 1983, o diretor eslovaco Miro Remo também assina o roteiro em parceria com o autor do romance. Estudou na Academia de Cinema da Bratislava, e seu filme de conclusão de curso, Arsy- Versy (2009), premiado no Festival de Sheffield. Entre seus outros longas estão Comeback (2014), Richard Müller: Nespoznany (2016) e At Full Throttle (2021). Em entrevista à Variety, o cineasta afirmou: “Passamos 60 dias com os irmãos ao longo de cinco anos, e comecei a sentir que os animais deles também estavam se comunicando conosco. A maior vantagem era que tudo era possível naquele projeto. Só precisávamos superar nosso medo de convenções”. Foi vencedor do Globo de Cristal de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary.

O enredo tem seu foco total nos irmãos gêmeos Franta e Ondra (interpretado também pelos gêmeos František Klišík e Ondřej Klišík). Os protagonistas são dois eremitas inseparáveis que vivem completamente afastados da civilização naquelas montanhas com suas fantasias e idiossincrasias. Eles estão mergulhados na imersão da natureza, enfrentando a tensão entre o anseio por aventura e a necessidade de segurança. A rotina pacífica e harmoniosa que dividem começa a sofrer abalos quando as diferenças entre eles se tornam evidentes: enquanto Franta anseia por liberdade e aventura, Ondra se agarra à segurança das coisas que não mudam. Essa dupla existência se parte como um espelho, diante das vontades distintas. Há uma dinâmica como uma simbiose entre os dois que compartilham uma vida pacífica na natureza, mas cujas vontades distintas começam a causar pequenos conflitos. No silêncio da paisagem que os rodeiam, se desenha um delicado drama de separação, reconciliação e reencontro. Uma fábula humana adulta de devaneios sobre o que permanece quando os laços que unem começam a fraquejar.

Um painel excêntrico e afetuoso dessa convivência fora da realidade do mundo daqueles personagens barbudos, ásperos e quase míticos envelhecendo juntos. Ora nus no meio do mato, ou discutindo sobre a morte e a própria existência. Eles estão rodeados de vacas, cães, galinhas e árvores. Sonham e discutem filosofia de vida, brigando, bebendo e rindo como se o tempo tivesse parado. O realizador mescla o real e a poesia com um humor sarcástico oriundo da convivência entre algumas cenas com delicadeza e o grotesco. Uma vaca narra algumas cenas, lambe a vasta barba em clima afetuoso, deixando fluir um tom mágico com situações irônicas ao fazer menções contundentes sobre os seus tutores, até que um touro bravo chamado de Tolstói investe contra um dos irmãos, tendo como consequência a perda do antebraço. Há algum encanto na observação do dia a dia dos irmãos sem que haja um definitivo julgamento. Alterna momentos de silêncios contemplativos com risos de preocupação com o futuro. Ou seja, quem vai morrer primeiro e deixar aquela natureza com seus fascínios próprios, captada pelas lentes do diretor de fotografia Dušan Husár, que transforma a floresta em personagem, capturando a luz fria e seus reflexos pelo som dos pássaros, do vento que corta os diálogos entre eles e a iminência da solidão de quem ficar ali por último.

O filme segue uma temática semelhante ao islandês A Ovelha Negra (2015),dirigido por Grímur Hákonarson, que retratou de forma comovente a relação estremecida de dois irmãos septuagenários, que não se falavam por 40 anos, correspondiam-se por mensagens em bilhetes escritos à mão, sendo levados ao destino por um cachorro, uma espécie de pombo-correio. Mas surge uma violenta determinação do governo para a eliminação de todo o rebanho da família, após ser constatada uma doença contagiosa nas respectivas fazendas deles e de alguns vizinhos criadores de ovinos. A iminente falência do sustento familiar faz uma reflexão literal do desenrolar da trama o modo de sobrevivência de um povo, que poderia sugerir e remeter para uma alegoria do país decorrente da avassaladora crise financeira mundial de 2008, que abalou várias nações europeias e nas Américas, deixando um rastro de desemprego como poucas vezes visto. Tanto o longa da Islândia como o da República Tcheca proporcionam uma rara oportunidade de se conhecer alguns estilos de vida diferentes daqueles habituais que desfilam nas telas dos cinemas, como os aspectos pitorescos arraigados de uma cultura pouco difundida.

Melhor Enlouquecer na Natureza é bem atual ao mostrar em uma única cena fora do meio rural a premiação de um dos protagonistas recebendo a láurea pela liberdade e a luta dos povos. No discurso de agradecimento, o homenageado não perde tempo e alfineta com revolta os arroubos autoritários de Vladimir Putin, visto como um novo Adolf Hitler contemporâneo, pela arrogância, pouca sensibilidade e virulência com os países vizinhos. Embora menor que Ovelha Negra, apresenta alguns equívocos de roteiro e edição sem invalidar a obra, tem como ponto alto os diálogos ásperos marcantes dos irmãos broncos, por vezes românticos e saudosistas na aldeia com seus aspectos poéticos contrapondo com a dureza da vida cotidiana. As brigas e provocações soam como combustível para se amarem e se beijarem como característica de gêmeos inseparáveis do instinto da natureza humana. Um não vive sem o outro, pois a solidão seria devastadora sem um deles, que filosofa: “A morte não existe, o que existe á e a vida”. Uma realização que marca pelos diálogos e a fotografia, sendo fundamental pelo sentido existencial do grande amor e ternura fraternal e a relação indissolúvel naquele lugarejo bucólico. Sobra afeto para uma energia humana diante da provável perda de uma das referências do vínculo familiar que se romperá, mas sempre permanecerá o sentimento de carinho entre os gêmeos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Mostra de Cinema São Paulo (Terra Perdida)

 

Os Irmãos

Vem do Japão em coprodução com a Malásia, a França e a Alemanha o filme Terra Perdida, um surpreendente drama social sobre a imigração nesta 49ª. Mostra de Cinema de São Paulo, com a fascinante fotografia de belas imagens captadas pelas lentes do competente fotógrafo Yoshio Kitagawa. Venceu o Prêmio especial do júri da seção Horizontes em Veneza. A direção e o roteiro são do japonês Akio Fujimoto, formado em cinema na Visual Arts Academy em Osaka, onde nasceu. Sua realização mescla ficção e documentário com uma abordagem humanista ao retratar dois irmãos menores que viveram em um campo de refugiados e acabam entrando numa jornada rumo à Malásia na esperança de se reunirem à família. Frequentemente, o diretor trata da vida de pessoas que vivem à margem da sociedade. Tem em sua filmografia os longas-metragens Passage of Lif (2017), vencedor dos prêmios de melhor filme e direção na seção Asian Future do Festival de Tóquio, e Along the Sea (2020), apresentado no Festival de San Sebastián.

A trama gira em torno de Somira (Shomira Rias Uddin Muhammad), a irmã astuta de 9 anos e Shafi (Muhammad Shofik Rias Uddin), o simpático irmão de 4 anos. Depois de viverem em um campo de refugiados em Bangladesh, os inseparáveis irmãos são colocados num barco pela própria mãe rumo à Malásia com um grupo de outros refugiados rohingya, A crise deles é humanitária que começou com a intensificação da violência contra a minoria rohingya no pequeno país Mianmar em agosto de 2017, forçando mais de 750.000 pessoas a fugirem para Bangladesh. Na esperança de se reunirem com sua família, os manos passam dias intermináveis em um barco de contrabandistas superlotado, até que um incidente no mar os deixam sozinhos e perdidos na Tailândia. Mas existe alguma bondade em pessoas com o mesmo foco que encontram aleatoriamente pelo caminho, aliada aos seus espíritos resilientes, mostram que não estão sozinhos no mundo e a distância de casa pouco importa. O sonho de encontrar os parentes biológicos é mais forte, tendo em vista que foram separados pelas dificuldades por onde andaram. No entanto, jamais poderiam imaginar que o trajeto seria altamente perigoso pelas circunstâncias alheias.

O realizador em sua narrativa dramática retrata, de forma sutil e sensível, sem usar recursos de clichês recorrentes em realizadores incompetentes, mostra cenas dos imigrantes à procura de um lugar melhor para se estabelecerem, sem as apelações usuais. Conta a história das crianças e seus parceiros de ocasião que vira uma verdadeira epopeia entristecedora, como o confronto com a polícia costeira tailandesa; a tempestade em alto-mar que dizimou vários refugiados, entre eles, o rapaz sonhador que queria ser dono de uma escola e o jovem que desejava ser professor. As amarguras e contratempos são confrontadas com a esperança de uma solução pragmática em uma sociedade doente em ruínas. Fujimoto aproxima a câmera nos rostos dos personagens para dar mais nitidez e o espectador perceber com naturalidade as angústias que brotam e se espalham pelos olhares, como dos imigrantes dentro do atulhado barco quase à deriva em busca da liberdade e de um horizonte tênue. As crianças correm e se divertem ingenuamente numa comunidade logo após o acidente com a embarcação, logo se integram a um novo grupo que também procura o retorno para a Malásia. A cobrança de valores exagerados de agentes mesquinhos misturados a facções inescrupulosas sem pudor, sendo mal recebidos e extorquidos, fazem vítimas com alguns sendo executados como exemplo.

Tudo anda em compasso de espera até a abrupta separação dos irmãos pela brutalidade objetiva com ingredientes de um realismo cruel. O novo lar do menininho não o consola e seus sonhos com a irmã são reveladores para um destino de procura incessante da desaparecida. A dor, a lembrança e a esperança andam juntas, porque nada substitui o afeto e o vínculo rompido pela separação involuntária. Um relato triste e realista de uma situação da pobreza extrema na busca de novas perspectivas, que remete para o espetacular longa italiano Eu, Capitão (2023), do badalado cineasta Matteo Garrone. A similitude é muito próxima pela temática da desagregação familiar diante da separação pela imigração ao especular um mundo melhor. A crença religiosa em Alá, o Deus muçulmano em que acreditam para exprimir os sentimentos de confiança, alegria e vitória, no qual é venerado, intuindo que este nunca os abandonarão. Serve como um puro combustível potente para seguir a saga da fé e da resistência nesta luta dolorosa de pouca perspectiva. Enfrentam uma série de desafios para testar a própria dignidade humana nesta arriscada empreitada. Nada porá fim na esperança até a tragédia chegar com uma força devastadora e jogar em cada espectador, para sair da zona de conforto, a dura realidade da insensatez. Os caminhos são tortuosos e de muita hostilidade parar encontrar as fantasias de um futuro edificante de ilusões, apenas.

O contexto narrativo é fundamental para criar um clímax de medo da contumaz miséria e do terror psicológico pela barbárie das facções encontradas como entraves pelo caminho, torna a dramaticidade amplamente complexa na essência do cinema propriamente dito, em que os irmãos e a plateia se chocam com as circunstâncias adversas. Embora surpreendidos no epílogo como elementos distorcidos do resgate da dignidade ultrajada pela humilhação. Uma realização com amplitude maior na abordagem com eficácia nas relações constrangedoras dos fragmentos da dura ruptura social que desencadeiam em episódios violentos e perversos sobre as perdas acumuladas. Os elementos opressores obscuros são retratados pela realidade selvagem das dificuldades impostas como a corrupção, a violência e a solidão. Terra Perdida é um drama magnífico com um desfecho nada alentador, aflorando o pessimismo. Ainda que haja ausência total do gênero melodrama apelativo no enredo ao escapar das armadilhas do maniqueísmo, fica difícil segurar a lágrima que escorre pelo rosto. Uma história com subsídios fortes na sua essência, que revela diversos aspectos sobre os seres humanos que decidem sair da pobreza diante do caos para seguir em frente. Serve como reflexão sobre as irracionalidades bestiais neste painel arrebatador pela sobrevivência.