sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Sorte em Suas Mãos
















O Reencontro

Foi promissora a estreia como ator no longa-metragem A Sorte em Suas Mãos, com direção do consagrado Daniel Burman, do cantor e compositor uruguaio Jorge Dexler, mais conhecido por vencer o Oscar na categoria de melhor canção Al otro lado del río, no filme Diários de Motocicleta (2003), de Walter Salles. Ao interpretar o papel do personagem Uriel, numa construção exemplar de um homem recém-divorciado que passa boa parte de sua vida jogando pôquer nos cassinos, um vício que não consegue se livrar facilmente. Divide o tempo com suas duas filhas pré-adolescentes e não gosta do emprego que herdou do pai: uma financeira, a qual está no comando, porém diz aos desconhecidos que é um produtor musical de grandes shows.

Valeria Bertuccelli interpreta Glória, o grande amor do protagonista, numa atuação soberba desta atriz que está num mesmo nível de importância a Ricardo Darín na Argentina, pelo grau e conjunto de suas irrepreensíveis atuações em vários longas, tais como: Clube da Lua (2004), de Juan José Campanella; XXY (2007), de Lucia Puenzo; Chuva (2008), de Paula Hernández e Viúvas (2011), de Marcos Carnevalle. Há inclusive um tributo ao famoso ator, sendo reverenciado com cartazes anunciando um de seus filmes.

A mentira está inerente nesta bela comédia romântica com tons de equilibrada e sutil dramaticidade. Nem a namorada, uma paixão da juventude que reencontra por acaso em Rosário, escapa do sonho neurótico e perturbador de Uriel, enredado com a opção de realizar uma vasectomia para não engravidar uma de suas tantas conquistas fortuitas, mas na realidade, seu drama é ter que recomeçar e ser pai novamente. Glória também vem de um fim de relacionamento com um homem esquisito e pouco sensível, como demonstra no funeral do pai da jovem. A reaproximação dos dois seres culmina com o envolvimento emocional e o que eles mais querem nesta nova fase é namorar tão somente, sem sexo, ir ao cinema, andar de mãos dadas e abraçados pelas ruas, dar e receber flores e chocolates, para fortificar este vínculo no atual estágio do romance.

Burman é um diretor tarimbado e deixa fluir seu talento novamente, como já o fizera antes na trilogia dos problemas inerentes aos laços familiares e o microcosmo sobre os seus conflitos dentro do universo judeu como pano de fundo, usos e costumes, tradição e religião, mantendo um coerência bem demonstrada em Esperando Messias (2000), O Abraço Partido (2004) e completando com o melhor dos três e mais maduro As Leis de Família (2006). Surpreendeu positivamente com o ótimo Ninho Vazio (2008), pela abordagem do casal que se reinventa, falando da morte após a partida dos filhos de casa para seguirem suas vidas e darem continuidade aos seus futuros, diante do tédio do lar com a ausência dos filhos, refletindo sobre o existencialismo e o sentido da vida, em sequências bem dolorosas. Posteriormente vem o bom drama Dois Irmãos (2009), sobre a terceira idade e seus dissabores pertinentes.

O estilo do cineasta argentino é próprio de um diretor tipicamente de ator, embora haja muito de inspiração nas comédias de Woody Allen, onde estão presentes as neuroses, a solidão e as perdas na vida. A Sorte em Suas Mãos mantém uma narrativa consistente e amplamente convincente no aspecto emocional e estrutural de personagens sólidos na criação psicológica, demonstrando as fraquezas do ser humano, porém são pessoas que buscam uma nova chance com fibra. Como se vê na importante e significativa figura materna interpretada por Norma Aleandro, que nos remete para os dramas de Pedro Almodóvar, numa personificação soberba de uma mãe veterana independente como mulher e seu novo amor. Está impagável na cena em que revela ter o ex-marido, pai de sua filha, pouco a acrescentar no futuro como homem, embora lamente sua morte. Dói, mas diz com pouca ternura e com olhos brilhando no horizonte.

Um filme com personagens de carne e osso que funcionam como elementos essenciais e são despidos com sensibilidade, apresentando suas dores e medos futuros numa Buenos Aires cada vez mais cosmopolita. A solidão está presente e soma-se às perdas que ficaram pela trajetória da vida, nesta comovente comédia deste cineasta atento e com um olhar às mudanças comportamentais em sua aldeia, através de reflexões com a leveza contumaz das suas obras sobre o universo familiar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Eu, Anna



Relação Misteriosa

Vem do estreante cineasta inglês Barnaby Southcombe o suspense Eu, Anna, rodado em Londres, com toques e reviravoltas ao estilo consagrado do mestre Alfred Hitchcock. Deixa o espectador confuso das ideias e muitas vezes se vê conduzido para uma solução aparentemente simples, porém logo é revista e o envolvimento é superado por outra hipótese ainda mais imaginária. Há méritos em torno da expectativa criada ao suposto acusado e as mudanças da trama sugerem um tom investigativo de dados de confiabilidade duvidosa como nos bons policiais.

A história do filme é complexa, gira e dá boas guinadas no roteiro, mas já no prólogo apresenta um casal que se cruza e troca olhares lânguidos num elevador. Os personagens vivem situações bem diversas em suas andanças antagônicas. O inspetor-chefe Bernie (Gabriel Byrne- de convincente interpretação) investiga um crime misterioso e de difícil solução, tendo em vista que a vítima é poderosa e pode estar ligada à rede de tráfico e com muitas pessoas dentro de um esquema forte de distribuição de drogas. Tenta desvendar o enigma, embora exista um forte suspeito do assassinato, há dissimulações no roteiro que causam dúvidas. E não falta o surrado interrogatório policial com acusações, revides e juras de vingança.

Do outro lado da trama está Anna (Charlotte Rampling- de atuação marcante e de notável performance física e dramática), no papel de uma vendedora de uma loja de móveis, com mais de 50 anos, bonita, charmosa e divorciada.Mora com a filha e a neta num apartamento de classe média. Seu passatempo é frequentar um clube de solteiros, com a esperança de refazer sua vida mergulhada numa imensa solidão e com um trauma do passado que lhe atormenta e corrói seus pensamentos com um instigante sentimento de culpa. Os fantasmas da mulher são decorrentes de uma situação inusitada de um destes encontros fortuitos e sem vínculo emocional afetivo, com consequências trágicas do acaso.

Do encontro inusual de Anna e Bernie com algumas saídas, logo cresce e atinge um amadurecimento dentro de uma relação afetiva e romântica, com telefonemas e suspiros próprios de dois adolescentes. A investigação fica prejudicada e o clima de tensão evolui com as descobertas e revelações bem hitchcockianas, num filme com boa construção e o suspense num contexto de emoção contida e acertada, sem se afastar do ponto certo de um equilíbrio mesurado. A trilha sonora é adequada e não chega a interferir no clímax exato do desenrolar da trama. Porém é difícil imaginar o filme sem Charlotte e sua atuação esplendorosa, uma diva ao melhor estilo do bom cinema, que emociona ao falar com os olhos e dá o ritmo positivo com seu andar de estrela.

Eu, Anna surpreende pelo conjunto da produção equilibrada deste diretor novato, mas que deixa um indicativo de ser promissor, num filme bom e bem realizado, com surpresas sem exageros ou excessos, eficiente por contagiar o espectador, deixando aflorar sutilmente as circunstâncias que poderão ser reveladas, em face da abordagem com domínio amplo sobre o que demonstra.

Eis um longa-metragem de suspense policial mesclado com um drama existencial, que faz refletir sobre a culpa e o passado, diante da iminência da perda do domínio do poder. São retratadas nas cenas que mergulham em situações complexas do envolvimento dos protagonistas pelo esvaimento da lucidez e com uma suposta ausência de imparcialidade na investigação. O abalo emocional destrói a razão que é jogada num plano secundário.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Boa Sorte, Meu Amor















Amargo Romance

A cinematografia pernambucana é um polo fortíssimo de produzir e a safra inesgotável traz mais uma obra, desta vez com a assinatura do estreante Daniel Aragão, realizado em 2012, Boa Sorte, Meu Amor foi ganhador do prêmio de melhor filme do júri jovem do Word Cinema Amsterdam. É uma abordagem sobre o presente e um passado bem próximo do urbano contrastando com a zona rural que aparentemente ficou para trás. Um relato em três atos sequenciais, com alguns exageros técnicos sobre duas vidas oriundas do Sertão de Pernambuco que se encontram por acaso na noite da badalada Recife. A cidade sofre com suas construções desenfreadas, passando por cima de um plano diretor inexistente e sem planejamento imobiliário que acena para um novo perfil com arranha-céus majestosos.

O drama enfoca uma jovem apaixonada pela música e que tem no piano sua válvula de escape para lutar pela vida, tal qual Frances adorava a dança e pretendia ser bailarina profissional na comédia Frances Ha (2012), de Noah Baubach. Maria (Christiana Ubach) encontra numa noite qualquer o playboy Dirceu (Vinicius Zinn), um aristocrata em plena decadência financeira que trabalha numa empresa de construção. Aragão mostra os dois assistindo a transformação predatória da Capital dos pernambucanos, como uma mudança iminente de um cenário do futuro. Estão complacentes com tudo o que veem, tal qual um espelho que reflete nas águas e muda os destinos de toda uma população inebriada.

O longa começa contando a história dos horrores que o barão, tetravô de Dirceu, praticava com as indiazinhas, exceto uma que sobreviveu e assumiu o lugar da tetravó ao morrer. Mostra como uma mulher inteligente usa de suas astúcias na cama para conquistar um homem, numa época de senhores usineiros donos de terras que tinham o poder absoluto e incontestável, repassado aos descendentes que carregam no sangue e nas costas uma culpa ancestral.

O terceiro e último ato busca dar uma solução para o relacionamento tortuoso do casal em Recife, advindo de uma relação às avessas, decorrente de uma errante paixão que beira a inverossimilhança. Onde está Maria? O playboy tira a máscara e vai tentar encontrar a amada na zona rural, numa espécie de busca das raízes no Sertão que ficaram para trás. Um mergulho no passado e o encontro com pessoas pobres e desesperançadas numa casa humilde dos familiares da moça. Prevalece a pouca conversa e sem respostas para as perguntas, como um ato de redenção e culpa. Uma busca quixotesca e com passagens simbólicas como: o cavalo que morre no meio da rua; ou do garoto que some dentro d’água num lago; e ainda a senhora que não enxerga por estar com a visão tapada.

Eis um filme que está longe do fabuloso O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda, o Kikito em Gramado de melhor direção de 2012 e o título de melhor filme no Festival do Rio, ou do bom e instigante Na Quadrada das Águas Perdidas (2011), de Wagner Miranda e Marcos Carvalho; bem como de Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012), ambos de Marcelo Gomes; Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), de Cláudio Assis.

A fotografia em preto e branco está se tornando rotineira novamente. Vários são os filmes que usam desta técnica como desculpa para o realismo cênico, embora nem sempre o resultado seja o esperado, como neste Boa Sorte, Meu Amor, com imagens completamente desfiguradas e sem nitidez. Porém, muitos filmes foram exitosos e se justificou a falta de colorido, entre eles Branca de Neve (2012), do espanhol Pablo Berger; ou no oscarizado O Artista (2011), do francês Michel Hazanavicius; e ainda no fabuloso Tabu (2012), do português Miguel Gomes, e por último a comédia Frances Ha. Para corroborar com os desacertos da produção, uma escolha de elenco decepcionante, pois tanto Chistiana como Vinicius estão frágeis em suas interpretações do casal amargurado. Ambos estão fora de sintonia com o drama, sem expressão dramática razoável, estando mais para dois zumbis flutuando pelo cenário.

O cineasta perde-se em alegorias, simbologias metafóricas e a utilização da não-narrativa de várias formas em encontros e desencontros na Capital, para ir até o Sertão. Glauber Rocha demonstrara bem em seu inventivo cinema novo com metáforas soberbas sobre a seca e a aridez das caatingas e a morte dos animais por falta de água. Há uma falta de fluidez do drama com soluções estéreis e confusas, passando longe do pragmatismo que pudesse levar a conclusões lógicas. Optou por um apuro técnico e a inclusão de planos e contraplanos excessivos, onde até o silêncio extrapola o bom senso e ao invés de uma reflexão sobre os contrastes de poder e a sobrevivência, acaba por soçobrar diante de um enfadonho experimentalismo que leva a lugar nenhum. Faltou cinema e principalmente emoção no existencialismo sonolento de uma nostalgia ultrapassada.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Na Quadrada das Águas Perdidas














Um Homem Só

A produção pernambucana Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, foi o grande vencedor do Festival de Gramado deste ano, por melhor filme, ator e trilha sonora. Pernambuco está num grande momento atualmente no cinema, tendo produzido Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012), ambos de Marcelo Gomes; Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), todos de Cláudio Assis; além do badalado O Som ao Redor (2012), do ex-crítico de cinema e diretor Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda, o Kikito em Gramado de melhor direção de 2012 e o título de melhor filme no Festival do Rio.

Vem deste Estado que mais produz cinema nos dias atuais o filme Na Quadrada das Águas Perdidas, dos diretores estreantes Wagner Miranda e Marcos Carvalho, uma produção de 2011 que recebeu mais de 15 prêmios no Brasil e Exterior, com o título retirado de um disco de Eleomar Figueira de Melo, de 1978, traz uma reflexão sobre a solidão no árido Sertão nordestino. Com um único ator na história, num longa sem diálogos, captando apenas os sons da mata e dos animais de Olegário, vivido esplendidamente o monólogo por Matheus Nachtergaele, num desempenho impecável.

A trama é um misto de drama com aventura, mas prepondera mesmo é o tom documental para salientar ternura nas agruras da saga do protagonista que abandona sua choupana de barro coberta de palha. Embrenha-se na Caatinga dentro de uma destroçada carroça puxada por um jegue esquálido; dois bodes subnutridos que pretende trocar por mantimentos, mas com o imprevisto na sua andança, resta apenas um; e o cachorro vira-lata como seu fiel escudeiro; além da figura invasiva acompanhada de maus agouros, está sempre presente o indesejado urubu e seu olhar de carniceiro, como se fosse uma assombração espreitando a próxima vítima. Há ainda outras perdas pelo caminho e a caravana da miséria vai aos poucos se deteriorando para o sertanejo.

Um filme sobre a solidão e a forma de manter-se vivo no interior daquele lugar inóspito, numa metáfora sobre a sobrevivência que vai surgindo e levando nosso anti-herói para seu objetivo inicial de buscar iguarias básicas para alimentar-se. Bebe água das folhas de cactos, come caça, mel da mata, folhas e o que aparecer para o sustento, onde o exotismo de alguns animais selvagens contrastam com os dóceis acompanhantes do indivíduo sobrevivente, numa bonita fotografia e com o embalo da bonita trilha sonora assinada pelo Grupo Matingueiros, Geraldo Azevedo e Eleomar Figueira de Melo na trajetória de Olegário pelo Sertão desprovido de vida na sua essência, exceto o reino animal que se reproduz e encanta pela sua natureza pródiga.

Na Quadrada das Águas Perdidas é rodado num cenário tipicamente rural, longe da civilização urbana, como se fosse uma homenagem aos filmes de Glauber Rocha e seu inventivo cinema sobre a seca e a aridez das caatingas e a morte dos animais por falta de água. A odisseia de um homem solitário que não se cansa da vida e suas dificuldades apresentadas, que sonha em ser rei, se vê montado num cavalo reluzente e altaneiro.

Não há necessidade da fala, pois os devaneios das noites mal dormidas em qualquer canto lhe dão esperança em se manter vivo. Um bravo homem e sua luta com uma garra impressionante, quando solta gritos como silvos de serventes em forma de protesto dentro de uma fauna e flora que lhe são intimas. São sustentadas por imagens desprovidas de uma linguagem convencional, nesta apreciável obra de reflexão do processo evolutivo, no espaço e no tempo, vista com sensibilidade sensorial, num drama que reflete a preocupação do cinema autoral e fundamentalmente um filme silencioso que capta os barulhos externos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Frances Ha















A Bailarina

Em seu último longa-metragem Francis Ha, Noah Baubach dirige e é coautor do roteiro com a sua atual namorada, a promissora atriz Greta Gerwig, que surgiu com força pelas mãos de Woody Allen, em Para Roma, com Amor (2012). O cineasta ficou conhecido pelas comédias dramáticas A Lula e a Baleia (2005), indicado ao Oscar na época pelo roteiro original, e O Casamento de Margot (2007), um gênero que desenvolve com classe e retorna novamente em ótimo estilo. Tem na protagonista que dá nome ao filme a interpretação irretocável e soberba de Greta no papel de uma jovem de 27 anos, moradora de um subúrbio de Nova Iorque que sonha em ser bailarina profissional, uma meta difícil pela sua idade já considerada avançada para uma aluna de uma companhia, tendo em vista que ainda não desabrochou e sequer teve o reconhecimento esperado pela professora coreógrafa.

A trajetória gira em torno do dia a dia de Frances, que mora praticamente de favores de amigos, por não ter imóvel, numa vida ainda sem uma definição profissional, embora tenha uma meta na cabeça dentro de um sonho juvenil na busca do sucesso, num devaneio típico de quem busca alcançar um objetivo quase que impossível. Tem na melhor amiga Sophie (Mickey Summer) a pessoa ideal para ouvir seus lamentos e frustrações decorrentes dos conflitos do cotidiano, ou ainda estar presente nos momentos de alegria intensa quase rara, ou na maioria das vezes nas tristezas que se revelam com o passar do tempo, advindos de fracassos pela ambição brecada e sem evolução. Há uma tonalidade melancólica e até um pessimismo na trama, embora sem excessos melodramáticos que são bem contidos com vigor de equilíbrio elogiável.

Um filme apreciável e surpreendente pela qualidade de um resultado com autonomia pela busca da dignidade e da delicadeza da personagem em seu conteúdo que retrata a redenção das desventuras e uma afetividade sutil de uma jovem perdida, que encontra um mundo adverso do idealizado. E o diretor acerta em cheio ao filmar em preto e branco nesta tendência de obras recentes como Branca de Neve (2012), do espanhol Pablo Berger; ou no oscarizado O Artista (2011), do francês Michel Hazanavicius; e ainda no fabuloso Tabu (2012), do português Miguel Gomes. Há o realismo cênico marcante de origem na escola francesa nouvelle vague e o seguimento magnífico difundido por Woody Allen, como no notável Manhatann (1979), quando um escritor divorciado é constrangido pela ex-mulher que decide viver com uma amiga e publicar um livro, no qual revela assuntos particulares do relacionamento deles.

Os diversos locais que passou a protagonista vão encaixando-se na comédia. Começa no bairro Tribeca de Nova Iorque e chega a Paris, um sonho que traz desde criança, bem como na expectativa de conhecer Tóquio, por onde passou Sophie e o amado. Há um lirismo bem dosado e com uma trilha sonora fascinante de Georges Delerue e especialmente a canção Modern Love, de David Bowie, que também esteve presente no longa Sangue Ruim (1986), de Leon Carax, num tributo ao cineasta francês. Deixa de certa forma a comédia mais leve, menos densa e coloca o espectador dentro da história como um parceiro do drama pessoal da aspirante ao profissionalismo e sua obstinação pela dança e o sonho do estrelato.

Frances Ha é uma comédia de linguagem simples, mas eficiente e que tem os ingredientes necessários para torná-la dramática e não frustrar os cinéfilos mais ambiciosos. Um filme sobre os sonhos a serem realizados e a amizade de duas mulheres, onde a protagonista revela toda sua fraqueza psicológica e, ao mesmo tempo, cresce em outras cenas, como nas peripécias solitárias pelo mundo. Uma instigante realização deste cineasta que se firma no cenário internacional como um diretor autoral, que demonstra intimidade com a câmera e possibilita um elenco leve, deixando o filme fluir através da espontaneidade dos atores. Lança um olhar para o mundo globalizado que cada vez mais tem menos espaço para a juventude, embora não tão pessimista, ao deixar metaforicamente na revelação do nome de Frances uma saída, como se estivesse abrindo uma janela para o futuro.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Flores Raras



Perdas Amorosas

Vem do consagrado cineasta Bruno Barreto o sensível drama Flores Raras, com roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres, baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas, de Carmen L. Oliveira, que abriu oficialmente a 41ª. edição do Festival de Gramado deste ano. É o 19º. longa do diretor brasileiro que tem em sua filmografia obras badaladas como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), O Que é Isso Companheiro? (1997) e Última Parada 174 (2008).

Aborda o romance entre a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares (Glória Pires- está magnífica e impecável na interpretação deste difícil papel) com a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop (a australiana Miranda Otto em inspirada e surpreendente atuação). Elas vivem uma grande e louca paixão no Brasil, completamente fora dos padrões para a época, durante os anos 50 e 60, interligando o choque cultural ao relacionamento das duas mulheres. A trajetória acompanha por 16 anos a turbulenta união que abalou o amor de Lota com sua namorada, a dançarina americana Mary Morse (Tracy Middendorf), que recebe como recompensa uma criança como adoção. A felicidade aparente de seus sorrisos num mundo heterossexual esbarra nos ciúmes e desilusões do relacionamento a três na mesma casa.

O filme apresenta uma companheira disposta na ajuda à poetisa, uma das mais importantes do século XX, que veio para o Rio de Janeiro em 1956, depois de restabelecer e assumir a relação. Constrói em Samambaia uma linda residência no morro de bela vegetação, local de inspiração que dará o Prêmio Pulitzer pela publicação de suas poesias à Bishop, uma mulher sensível, alcoólatra, de personalidade frágil e com problemas existenciais pelas frequentes lembranças de um passado marcado pela mãe e as internações abruptas no hospício. Não esconde seu desconforto e até uma decepção acentuada com o povo brasileiro, que jogava bola nas praias do Rio em pleno golpe militar de 1964, sem demonstrar irresignação com a situação política caótica.

Lota é filha de um político frio e distante, o protótipo pai ausente que não tem um vínculo afetivo familiar. Consagrou-se ao idealizar o Parque do Flamengo, porém o drama a retrata como uma mulher forte que desaba por amor e entra em depressão pela perda circunstancial da amada. Barreto conduz a trama com habilidade e demonstra sensibilidade no trato das personagens e suas relações homossexuais. Mostra duas pessoas maduras e livres de preconceitos para uma união de quem se apaixona perdidamente e que vivem dias esplendorosos em suas vidas profissionais, fruto do vínculo afetivo e da cumplicidade. Mas há o viés da discórdia da preterida que nunca esqueceu esta condição, embora esteja radiante como mãe afetiva, falta-lhe o complemento de quem ama e que a trocou por outra. Neste aspecto há o tom do melodrama e o filme dá uma caída, indo ao encontro do romance frustrado e até novelesco, porém não chega ruir com a proposta consolidada.

O longa faz uma reflexão sobre a existência nos versos bem elaborados, como também mostra a dor da perda e a busca da interação em todos os momentos de suas vidas. A angústia se faz presente e toma conta dos próximos dias e do futuro nebuloso que se aproxima para as apaixonadas. A melancolia da poetisa e suas bebedeiras homéricas contrastando com o pragmatismo da arquiteta que dá apoio a Carlos Lacerda (Marcelo Airoldi) na sua pretensão de chegar à presidência da República, mais a mentira da dançarina sobre as cartas e sua incômoda situação de voyeur são situações que irão desembocar em rupturas.

As atuações marcantes de Glória Pires e Miranda Otto, fazem de Flores Raras um filme comovente e sutil. Delicado em determinados momentos na sua estética, corroborado por uma bela fotografia com imagens radiantes para dar beleza na história, por vezes triste e em e outras que emocionam. Os versos da poetisa são pura poesia para uma americana que vivia seu mundo à parte e eram inevitáveis os rumos diferentes tomados pelas protagonistas, mas na realidade nunca se afastam totalmente, pois o vínculo da união é mantido com construção e rompimento. Sem acenar com facilidades demagógicas para problemas complexos ou na defesa de uma causa. Deixando tão somente a força da paixão ser mais forte do que manter os laços de união. Uma reflexão dos costumes e do moralismo abordados com razoável profundidade.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Bling Ring- A Gangue de Holywood



















Tédio Luxuoso

Com Bling Ring- A Gangue de Holywood, Sofia Coppola novamente se debruça sobre o tédio, tema recorrente da cineasta juntamente com solidão, presentes em todos seus filmes, como visto recentemente em Um Lugar Qualquer (2010), ao realizar um ensaio instigante solidificou-se como uma cineasta voltada para as coisas simples do cotidiano no aspecto genérico, mas ao mesmo tempo tão complexas no abismo que é o sentimento humano e a vida sem sentido. Assim foi também no fabuloso Encontros e Desencontros (2003), com o frenesi das luzes de Tóquio fustigando um casal perdido numa imensa selva de pedra, com a iluminação colorida servindo como um cenário estonteante pelos contrastes de beleza e angústia. A agonia das almas estava estampada em cada rosto ou gesto. Mas em Maria Antonieta (2006), apesar de alguns excessos por histrionismos exagerados, não chegou a comprometer o bom resultado.

Neste seu quinto longa-metragem, a diretora se baseia em fatos reais extraídos da revista Vanity Hair, sobre uma reportagem com o título Os Suspeitos Usavam Louboutins, escrito pela jornalista Nancy Jo Salesb, posteriormente virou um livro, abordando o culto da fama pela sociedade consumista. Aparentemente nada mais banal do que cinco adolescentes reunirem-se para invadir casas em Los Angeles, entre 2008 e 2009, sob a argumentação pífia da obsessão pelas roupas, sapatos, joias, pinturas femininas e carro conversível de artistas famosos fashions, entre os quais Paris Hilton, Megan Fox, Lidsay Lohan, Orlando Bloom.

Coppola usa o artifício do pretexto dos furtos para abordar o tédio de jovens solitários que fumam e cheiram drogas, para depois cometer delitos que vão se avolumando cada vez mais numa ciranda sem fim. Uma reflexão sobre a juventude atual é proposta, como realizada no filme Na Estrada (2012), de Walter Salles, ainda que de outra época, retrata a saga da contracultura dos jovens perdidos no mundo do pós-guerra, deixando nítidos os reflexos violentos do período da Grande Depressão americana de 1929.

O drama norte-americano reconstitui os adolescentes de uma gangue juvenil oriundos de pais ausentes e com problemas de relacionamentos. Saem sufocados de suas residências no subúrbio à procura de aventuras, indo ao encontro da diversão perigosa de invadir suntuosas mansões de celebridades que acarretará em transtornos irreversíveis nas suas vidas pacatas, diante do fato inequívoco da ilegalidade pelos furtos e roubos que se sucedem. A cineasta já havia realizado uma obra similar em As Virgens Suicidas (1999), ao enfocar uma família saudável e próspera que vive num bairro de classe média, composta por um professor e a esposa religiosa, com cinco garotas adolescentes que atraem a atenção dos rapazes da região. Diante do suicídio de uma delas, as relações familiares se fragilizam e se estabelece um confronto para burlar as rígidas regras da mãe.

A cineasta retrata o valor estimativo dos objetos subtraídos e concomitantemente foca o jovem de baixa autoestima, que busca fama e se satisfaz ao conquistar mais de 800 amigos virtuais no Facebook. A banalidade se sobrepõe ao rigor das normas de civilidade que são questionadas e colocadas em xeque por pessoas vazias e sem objetivo de vida que se satisfazem numa diversão ilegal, mas utilizada como protesto na busca da legitimação para os atos juvenis inconsequentes. Porém, o culto ao dinheiro e aos ídolos são retratados linearmente e não chega a ser aprofundado. Há muita perda de tempo em cenas de planos longos de planejamento, para após invadir as casas; bem como desnecessárias e cansativas as sessões de maquiagens e danças incessantes, sem elipses precisas para o corte.

O tédio como vazio existencial de uma solidão nos tempos modernos e virtuais é abordado com razoável complexidade. Falta um mergulho maior na estrutura psicológica dos personagens principais Marc (Israel Broussard) e Rebecca (Katie Chang), pseudônimos de Nick Prugo e Rachel Lee, além das outras garotas interpretadas por Taissa Farmiga, Emma Watson e Claire Julien. Está sem consistência estrutural a tese desenvolvida sobre os ensinamentos do best-seller de autoajuda O Segredo, contrapondo com a desglamourização dos anti-heróis da diretora, ao ser mencionado o clássico Bonnie & Clyde (1967), de Arthur Penn.

Bling Ring- A Gangue de Holywood traz reflexões tênues sobre a existência vazia dos adolescentes, diante da ausência dos pais na educação e na cultura dos filhos, embora rasa a proposta que não avança na montagem, ao deixar o drama enfadonho nos seus dois terços iniciais. As soluções previsíveis ficam para epílogo e já são aguardadas pelo desenrolar da trama sobre as futilidades que se desdobram e resultam na delinquência precoce por falta de limites que leva o indivíduo ao sofrimento maior pelo desconforto da vida.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Hannah Arendt



Pensamento Polêmico

Novamente a cineasta Margarethe Von Trotta faz parceria com a excelente atriz Barbara Sukowa no seu último longa-metragem Hannah Arendt, coprodução da Alemanha com a França. Em 1986, Barbara interpretou Rosa de Luxemburgo, de Margarethe e dividiu a estatueta de melhor atriz em Cannes com a brasileira Fernanda Torres. Sua carreira decolou com o genial diretor alemão Rainer Werner Fassbinder em Berlin Alexanderplatz (1980) e Lola (1981). Está impecável e atua magistralmente no papel da filósofa judia-alemã cinebiografada (1906-1975). Dá vida e emoção no desenrolar do filme, mostra-se madura e de um potencial inato de interpretação exuberante, como poucas vezes visto no cinema e arrasa. Há algumas expressões faciais, além do sorriso tímido que lembram Marieta Severo.

A narrativa foge do linear e vai traçando um painel diversificado da protagonista, com flasbacks do passado e sua relação amorosa com o festejado filósofo Heidegger, seu grande mestre de influência acadêmica, intercalando no aparente casamento sólido com o crítico Heinrich Blutcher (Alex Milberg), dando uma dimensão natural e singular. Hannah é uma mulher feminista para a época, sempre com um cigarro na boca, embora refutasse esta definição, assim como renegava ser chamada de filósofa. A trajetória de escritora se desenvolveu rápido por frequentar ambientes de intelectuais renomados. É imperioso destacar que o sionismo sempre esteve presente em suas obras literárias e ao escrever artigos para a revista norte-americana The New Yorker, pois fora contratada para cobrir o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela morte de seis milhões de judeus nos campos de concentração, que foram reunidos no polêmico livro Eichmann em Jerusalém, em 1963. Consagrou-se com a expressão “a banalidade do mal” e publicou ainda As Origens do Totalitarismo, publicado em 1951, mas foi acusada ainda assim de antissemita, embora tenha no passado se exilado na França, com fuga para os EUA em 1941, para se livrar da fúria do nazismo.

A cinebiografia com uma dramaticidade em alto estilo retrata a controversa polemizada pela publicação dos artigos nos EUA, ao escrever que nem todos os criminosos de guerra eram os monstros que se faziam crer e que Eichmann não era nenhum Mefisto, em referência ao famoso romance Fausto de Goethe, afirmando que o julgamento em Jerusalém era de fachada e não passava de uma farsa. Causou grande celeuma, com cartas sendo enviadas para sua residência e para a revista com protestos de ira e ódio, inclusive ameaças de morte.

Hannah foi marcante como pensadora no século XX, por ter ideias corajosas, avançando na discussão pela reflexão sobre “pensar”, invocando Platão e Sócrates para defender sua tese, onde afirma que o homem que se submete a cumprir ordens superiores para executar crimes contra a humanidade, deixa de ser racional e age mecânica e instintivamente sem ser adepto da maldade. Além de Heidegger, teve influência na carreira o mentor sionista alemão Kurt Blumenfeld (Michael Degen), com quem discute num café em Jerusalém, sobre os rumos do julgamento imparcial do acusado em Israel, que fora sequestrado em Buenos Aires. Há fidelidade na trajetória contada pelos pensamentos liberais, porque embora não postulasse inocência do executor por não saber o que estava fazendo, aprovou a condenação na forca pelo ato da consumação. Sua teoria direcionava para a política de assassinatos em massa e que o algoz apenas cumpria ordens superiores, tendo em vista que o fato de já ser uma besta humana o impedia de pensar.

Hannah Arendt é um filme sobre a intolerância para com o raciocínio da escritora que ama as pessoas e não os povos, como afirma numa cena. A diretora deixa fluir as fragilidades da protagonista, como do mal desafiando o pensamento do bem, ou a burocracia se sobrepondo ao livre modo de expressão de uma intelectual. São colocadas questões como as contradições do mestre Heidegger aderindo ao nazismo, embora a independência das ideias Hannah seja execrada pelos incautos, sofre uma campanha urdida por incomodar na teimosia de posicicionar-se livremente, utilizando seu sarcasmo e frieza para desmontar o estatuto moral das vítimas, diante da mediocridade do revanchismo sem freios e por mencionar a culpa indireta em falsos líderes judeus no genocídio.

Um filme polêmico e ao mesmo tempo instigante pela forma e o conteúdo em desbravar um universo de mentiras e calúnias, por isso uma extraordinária obra para ser vista e discutida, ao retirar os véus da linearidade e abordar com pluralismo de opiniões, sem cometer excessos ou devaneios inconsequentes de uma mulher fascinante, de bom gosto literário, senso crítico apurado, determinada e que nunca se submete aos caprichos dos que pretendem lhe tirar alguma vantagem. Contundente nas recordações sobre os desdobramentos da vida, seus ensinamentos reflexivos e as emoções existenciais.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Amor Pleno














Paixões Tediosas

O bissexto e ermitão cineasta Terrence Malick tem por formação a filosofia. Leva uma vida de enclausuramento, não dá entrevistas, raramente é fotografado e passa anos sem filmar. É perfeccionista em seu trabalho, roda centenas de negativos e usa seu tempo burilando material para editar uma obra. Realizou em 2011 o fabuloso A Árvore da Vida, porém desta vez não deixou passar muito tempo para realizar um novo longa. E este veio em forma de continuidade do filme anterior, filosofando sobre o amor e as paixões desencontradas, o vazio existencial e a busca pelo imaginário da completude da vida em Amor Pleno. Se no drama anterior falava sobre a ausência de Deus, interligando religião com a perda de um dos três filhos, questionando a opressão do pai. Agora reverte a situação e faz uma verdadeira ode a Cristo pelos ensinamentos do padre Quintana (Javier Barden- caricato e irreconhecível), um exilado religioso que luta arduamente com os desígnios da vocação.

A trama é um experimental poema sobre o nada e o tudo, com interpretações sob a luz natural, numa linda fotografia e um cenário radiante de flores espalhadas pelos campos, enormes gramados regados por chafarizes numa cidade interiorana dos EUA, depois de uma breve passagem por Paris e a ponte dos cadeados dos amantes apaixonados. Neil (Ben Affleck- se raramente atua bem, agora está pior do que nunca) é um homem infeliz e indeciso em seus romances. Conhece a francesa Marina (Olga Kurylenko) na Cidade Luz e se casam, mas a mulher tem como interesse maior obter seu green card para estabelecer-se definitivamente nos Estados Unidos, depois de ser abandonada pela filha de 10 anos que foi morar com o pai num lugar distante. O casamento por conveniência traz dissabores e uma degradação iminente na relação conturbada. Neil reencontra sua ex-namorada Jane (Rachel McAdams) e engata uma reconciliação com promessas de um relação sólida.

Tanto na forma como no conteúdo de Malick está o empirismo estético e cansativo de figuras humanas flutuando de um lado para outro, sem se encontrar com o que querem ou nem sabem o que procuram. Na realidade parecem zumbis dilacerados num contexto de cores esfuziantes, com a alma em pedaços num tédio fastidioso que danifica a ideia da continuidade, causando bocejos, diante do excessivo esvaziamento da proposta. A narrativa peca pela falta de estrutura, ao usar um artifício perigoso como de não dar seguimento verossímil aos personagens. Descontextualizado e solto para manejar em off com som, imagem e música, resultando numa miscelânea desastrosa de montagem e que leva o drama a sucumbir inapelavelmente.

Amor Pleno está dissociada e distante das obras–primas do cineasta, tais como: Terra de Ninguém (1973), Cinzas no Paraíso (1978) e Além da Linha Vermelha (1998). Malick é um artesão na acepção a palavra como poucos, mas que se perdeu pelo abuso voluntário do excesso nesta obra sequencial, como um segundo filme de uma trilogia sobre a existência, o sentido da vida e um olhar no futuro da humanidade. Talvez feche o ciclo e reapareça a arte e o poder de criação num futuro, deixando para trás esta complexa viagem enfadonha ao infinito.

Eis um drama sensitivo pela estética, mas sem força de construção de personagens. Mexe no cérebro e com o equilíbrio do espectador na sua plenitude, para uma reflexão até o fim da existência, sem ter a pretensão de chegar a algum ponto de vista racional, embora crucial, mas se deixa levar por pensamentos menores e simplistas, dando luz para um olhar frustrado que aflora desordenadamente, embora haja o impacto sensorial num presente momentâneo não consegue trazer reflexões do grande enigma da vida. Sobra ousadia, mas falta densidade dramática no contexto das cenas que se tornam estéreis por ausência rítmica de elaboração plausível. São sequências sem diálogos na busca do indivíduo e sua insignificância no planeta.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Tese Sobre um Homicídio



















O Crime

Não é apenas mais um filme estrelado por Ricardo Darín, visto recentemente no longa Elefante Branco (2012), dirigido por Pablo Trapero, protagonizava um padre doente que vai ao encontro de um colega envolvido numa trama de tráfico de drogas, brigas de gangues e os subempregos de crianças no mundo do crime com muito realismo e expressividade. Agora o ótimo e sempre elogiado Darín interpreta o veterano advogado aposentado Roberto Bermudez, de 55 anos, que se dedica como professor de uma faculdade de direito, em Buenos Aires, no notável thriller policial Tese Sobre um Homicídio, que tem na produção a mesma equipe do badalado O Segredo dos Seus Olhos (2009), de Juan José Campanella. A direção é de Hernán Goldfrid, que estreou no longa-metragem Música en Espera (2009), teve no enxuto roteiro a assinatura de Patrício Vega, que se baseou no livro de Diego Paszkowski, mostra seus méritos em torno da expectativa criada do acusado e as reviravoltas da trama, sugerindo um clima investigativo de suspense como nos velhos policiais noir.

Foi visto por quase dois milhões de pessoas na Argentina, o que não é pouca coisa, tem seu sucesso comparado a O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar estrangeiro de 2010. Tem um enredo astuto com um crime acontecendo dentro do estacionamento da faculdade, sendo o corpo observado pelo catedrático de Direito Penal e seus alunos em plena aula. Antes do fato, um retardatário chega à sala e leva uma carraspana do docente, um recém-divorciado que pega as ex-alunas e não quer saber de compromissos sérios. Não é nenhum exemplo de sobriedade e retidão, mas seu ego é enorme e se infla rápido, diante de um invejável saber jurídico criminal desenvolvido em aula e mesclado com prepotência.

O filme gira para o egocentrismo invasivo do advogado na pele de um investigador de um crime que aconteceu embaixo de seus olhos. Isto lhe soa como imperdoável e logo sua dedicação para desvendar o enigma vem revelar uma pessoa obsessiva e a imaginação não tem limites. Faz recair toda a suspeita sobre o melhor aluno, um rapaz que é filho de um grande amigo e seu admirador confesso. O jovem Gonzalo (Alberto Ammann) passa a ser visto como um psicopata matador de mulheres, diante da tese do crime perfeito e suas regras são investigadas minuciosamente. As evidências são quase que montadas e os artifícios do professor direcionam como uma verdade absoluta à espera da próxima vítima, ou seja, a irmã da assassinada Valeria Di Natale.

Goldfrig conduz sutilmente o espectador para o discípulo querendo superar o mestre, deixando aflorar as circunstâncias que poderão incriminá-lo, mas centra o foco na obstinação tresloucada de Bermudez e o obsessivo direcionamento para a culpabilidade de Gonzalo, em face das teses sobre crimes e a perspicácia na abordagem da matéria com domínio amplo sobre o que fala e escreve. Suas andanças por países europeus e alguns crimes ocorridos por onde passou, deixam o professor ainda mais atilado e convicto de um serial killer de mulheres bonitas e atraentes. São retratadas nas cenas que se seguem um clímax da perda completa da lucidez e do aspecto ético profissional, com a ausência de imparcialidade na investigação paralela. Instala-se um caos nas improvisações que vão desde a polícia até a medicina legal, passando por um judiciário ultrapassado e inócuo, para resolver um simples crime num estacionamento de uma faculdade. É a falência de toda uma conjuntura estrutural de um sistema decadente. A morte é uma alegoria para a destruição de todos os setores e organismos das células de uma sociedade.

O longa-metragem policial faz refletir sobre o ciúme, diante da iminência da perda do domínio do poder. Estaria o advogado feliz com o que faz, após deixar a profissão e se dedicar a lecionar? Sua vida pessoal em descompasso e virada do avesso não seria um indicativo de insegurança? São questões colocadas com a ascensão rápida do seu pupilo, vem causar um transtorno de ansiedade e por consequência um labirinto de dúvidas com a lucidez se esvaindo, diante da imersão abalada no aspecto emocional e com a razão sendo colocada num plano secundário.

Tese Sobre um Homicídio aborda estas concessões e questionamentos lançados pelo cineasta, que busca uma cumplicidade do espectador para desvendar o crime ou indicar elementos com fartos subsídios para associar o prólogo com o epílogo, fazendo-o suspirar mais aliviado somente com os letreiros dos créditos finais na tela, neste excelente policial noir argentino que instiga. Um filme de closes nos rostos para mostrar os sentimentos dos personagens envolvidos e bem secundados por uma trilha sonora que dá o tom como um fio condutor, mostra-se eficiente e impecável na trama.