quinta-feira, 11 de junho de 2026

Natal Amargo

 

Limites da Ética

O cultuado cineasta espanhol Pedro Almodóvar está de volta ao seu clássico estilo de filmar os dramas profundos e intimistas com o rigor formal característico. Sempre se reinventando, agora emprega a metalinguagem e mantém o bom domínio estético narrativo que o consagrou nestes mais de 40 anos de carreira e 25 longas-metragens. Apresentado com ovação no Festival Internacional de Cinema de Cannes em maio deste ano, embora não tenha obtido nenhuma premiação, Natal Amargo retrata uma magnífica autoficção, que mistura ficção com realidade. Leonardo Sbaraglia protagoniza Raúl Duran, um diretor em crise de criação que escreve um roteiro em 2004, após anos de bloqueio, sobre Elza Rosado (Bárbara Lennie, de estupenda atuação), uma diretora cult, mas apreciada por um público restrito, que optou em trabalhar na publicidade por motivos financeiros mais compensadores. Ambos são alter egos de Almodóvar, como criaturas de seu criador, com tintas autobiográficas de um melancólico cineasta em declínio profissional, tendo crises de depressão, solidão, perdas e outras moléstias. Foi baseado no livro O Último Sonho (2024), escrito e lançado pelo próprio diretor espanhol de 76 anos.

O cineasta vinha mostrando sinais de estar exaurindo o poder de criativo na carreira, mas retornou muito bem com Mães Paralelas (2021), dando uma guinada para o resgate sociopolítico, embora sem se aprofundar no estupro, na maternidade, na trocas de bebês, na ausência dos pais, na ditadura protagonizada por Franco na Espanha com suas consequências nefastas dos inocentes que perderam suas vidas por um ideal. Com Dor e Glória (2019), retratou uma autoficção intimista própria de um realizador homossexual no ocaso da carreira, encerrando a trilogia espontânea sobre o projeto focado em desejo e ficção mesclados com a vida real de dores e paixões inerentes como sustentação de personagens masculinos que dirigem na sétima arte. Antes vieram A Lei do Desejo (1986) que conquistou o Teddy em Berlim para produções LGBTQIA+, e Má Educação (2003). Seguiu o mesmo caminho de vários artistas próximos do fim existencial, transformando a trajetória como um legado histórico da arte que levou 32 anos para finalmente ser concluída. O penúltimo longa, O Quarto ao Lado (2024), primeiro totalmente falado em inglês, numa coprodução da Espanha com os EUA, ambientado em Nova Iorque, conquistou de forma inédita para seu país o Leão de Ouro em Veneza. Construiu uma reveladora exposição de exaltação à vida, com pitadas agridoces, para mostrar os dilemas advindos das personagens femininas fortes e o seu direito de escolha como pretexto para um filme de questionamento sobre a eutanásia ou a morte assistida, numa autêntica obra-prima.

Natal Amargo tem duas histórias paralelas que se entrelaçam dentro desta multifacetada comédia dramática existencial. Retrata os limites da ética das dores e problemas pessoais de pessoas íntimas do autor ao escrever o complexo roteiro original metalinguístico como criação artística fascinante e suas conecções temporais dos envolvidos. Há uma similitude sobre a ética ferida com o extraordinário O Cidadão Ilustre (2016), da dupla argentina Mariano Cohn e Gastón Duprat, numa admirável reflexão da privacidade e das relações em sociedade, diante da complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas, aos interesses particulares e suas amizades. Mostrava os inconvenientes, como dissabores bem hostis, uma boa dose de violência e muitos ressentimentos de seus conterrâneos, que o vêem paradoxalmente o escritor premiado com o Prêmio Nobel da Literatura como um traidor que se utiliza de figuras folclóricas da província de Salas para inspirar seus personagens fictícios nos livros com o intuito de adquirir fama e dinheiro. Almodóvar estabelece relações com seus filmes anteriores, tais como A Pele que Habito (2011); o brilho e a eloquência em Abraços Partidos (2009); o sempre lembrado Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) que obteve o melhor roteiro em Veneza; o ótimo Fale com Ela (2002) levou o Oscar e o Bafta de melhor roteiro original, melhor filme internacional no Globo de Ouro e o Bafta, e o César de melhor filme Europeu; Volver (2006) foi uma ode máxima ao feminismo, conquistando em Cannes a láurea de melhor roteiro; assim como em Ata-me (1990); De Salto Alto (1991), Carne Trêmula (1997), e a outra obra-prima Tudo Sobre Minha Mãe (1999), vencedor do Oscar de melhor filme internacional, o Globo de Ouro e o Bafta, além de melhor direção em Cannes.

Embalada pelas belas canções de Alberto Iglesias e a linda fotografia de Pau Esteve, a narrativa fragmentada acompanha os roteiristas protagonistas Raúl e Elza. O primeiro já fez grandes filmes e agora vive de prestígios. Depois de cinco sem filmar nada, voltou a escrever sobre pessoas próximas para aliviar seus bloqueios de criação. Utiliza-se do próprio companheiro Santi (Quim Gutiérrez) para traduzir o que as páginas em branco não conseguem para abordar situações reais em ficcionais, bem como Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), uma assistente de confiança e de uma parceria longeva, que se vê incomodada com sua vida sendo exposta sem ser consultada, pede demissão. Já Elsa teve tragédias pessoais como a morte da mãe durante as festas de Natal. Afoga-se no trabalho até conhecer o bombeiro Bonifácio (Patrick Criado), que nas horas vagas atua como strip. Após uma crise aguda de enxaqueca, sai de Madri para se refugiar nas Ilhas Canárias numa casa de campo, levando uma amiga Patricia (Victoria Luengo), deixando o companheiro para trás. Lá, começa a escrever um roteiro com o propósito de retornar ao cinema. Neste meio tempo, também se inspira em Natalia (Milena Smit) que perdeu um filho. Como um dos melhores filmes do ano, Natal Amargo tem uma sequência magistral e sutil, envolvendo o luto, os ataques de pânico severo, e as mazelas de doenças físicas e da alma, para atingir uma brecha e romper a inaptidão criativa estagnada por um bom tempo.

Uma autêntica realização sensorial consolidada num desfecho em aberto para mais uma tacada de maestria pelos sentimentos que mexem com o espectador, nesta magnética obra intimista autoficcional num cenário aprazível em alguns momentos, embora as dores latentes pululam e vão se chocar com os limites éticos estremecidos. Opta pela sobriedade com o olhar atento pela dor da ausência e das perdas e os vínculos rompidos que aconteceram em sequência, dando um semblante de tristeza e desesperança. Um filme maior pelos méritos de um gênio que fisga plenamente a platéia. Está acima de realizações medíocres que infestam as salas de cinema. Transparece como uma evidente tentativa de discutir a ética, com um viés embasado nas memórias afetivas, nas mágoas e na veemência melancólica da iminente finitude do ser humano. Há inúmeras referências aos fatos de modo que a ficção se confunde com a realidade na essência profunda. Fica a falsa impressão de que já filmou tudo de bem-sucedido e que luta pela criatividade para atingir êxitos a serem trilhados com a eloquência característica deste fabuloso artesão. Permanecem os grandes dramas pessoais absorvidos pelas fraquezas e as vicissitudes fragilizadas como decorrências do ser humano, numa trama bem urdida em um enredo singular. É marcante o olhar de sentimentos atormentados pelas transformações emocionais na construção psicológica do sofrimento humano. Eis um contexto típico e revelador dentro do universo cênico da grife almodovariana, com um roteiro pontilhado por traumas, perdas, revelações e atitudes antiéticas significativas para reflexão.

Um comentário:

Marcelo Castro Moraes disse...

"Natal Amargo" talvez não seja somente a síntese da maneira como as pessoas lidam com o luto, mas também a forma de Pedro Almodóvar expressar seu descontentamento com relação aos rumos que o cinema está tomando.