segunda-feira, 27 de abril de 2026

Pai Mãe Irmã Irmão

 

Reconexões Familiares

Avesso aos padrões de Hollywood, o veterano cineasta norte-americano Jim Jarmusch é um dos maiores representantes do cinema independente americano, mantendo-se fiel desde os anos 1980, despontando com filmes característicos e de seu estilo próprio, tais como o notável Estranhos no Paraíso (1984), vencedor do prêmio Caméra D’Or no Festival de Cannes e do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, Daunbailó (1986), Trem Mistério (1989), Homem Morto (1995), Sobre Café e Cigarros (2003), Flores Partidas (2005), Amantes Eternos (2013), e o extraordinário Paterson (2016), em uma narrativa linear e emblemática sobre o cotidiano simples de um casal, no qual o protagonista que leva o nome da cidade, em Nova Jersey, dirige um ônibus sempre na mesma rota e vai observando a paisagem que se revela pela janela, ouvindo fragmentos de conversas pitorescas que o rodeiam de segunda a sexta-feira. Folga sempre nos sábados e domingos, levantando-se diariamente entre 6h e 6h30min, para deslocar-se ao trabalho nesta metódica rotina, como manusear a caixa de fósforos e pronunciar uma repetitiva frase. Faz poesia nas horas vagas, escreve suas inspirações num pequeno caderno de anotações que guarda com carinho e todo o cuidado no porão da casa, para no futuro publicar um livro. O cultuado realizador é um dos mais aclamados pela crítica e pelo público, foi assistente de Nicholas Ray enquanto escrevia o roteiro de seu primeiro longa Férias Permanentes (1980).

Jarmusch está de volta com Pai Mãe Irmã Irmão, uma coprodução do Reino Unido com EUA, França, Itália, Irlanda e Alemanha, tendo sido premiado com o Leão de Ouro no último Festival de Veneza, desbancando Bugonia (2025), de Yorgos Lanthimos e A Voz de Hindi Rajab (2025), de Kaouther Ben Hania, dois concorrentes de peso pelas suas qualidades inegáveis. A trama é construída em torno de três histórias independentes entre filhos adultos e pais emocionalmente distantes no pós-pandemia, quando se reúnem depois de anos de distanciamento total pelas circunstâncias da fatídica moléstia Covid-19. Confrontam tensões não resolvidas e reavaliam seus relacionamentos completamente conturbados. Cada episódio se passa num país diferente, revelando os personagens com discreto humor e uma melancolia acentuada. Um retrato profundo sobre as relações interpessoais e os distanciamentos circunstanciais, para uma abordagem dos microcosmos familiares que se reencontram para, mesmo protocolarmente, colocarem em dia suas vidas particulares com ou sem novidades. O diretor é um artesão na construção de personagens sofridos ou em transformação nas suas vidas e em situações caóticas.

O filme tem uma aparente trama simples com uma fotografia fascinante e um elenco coeso, sem reparos, que dignifica as interpretações. Construído para uma reflexão sobre a existência e os aspectos marcantes da solidão no distanciamento familiar e suas reconexões. O primeiro episódio se passa em Nova Jersey no nordeste dos Estados Unidos, numa bela região de lagos e neve, quando os irmãos (Adam Driver e Mayim Bialik, discretos e eficientes) vão visitar o pai ardiloso (Tom Waits, brilha no papel), que mora isolado num lugar deserto, com hábitos aparentemente de um ermitão. Tem por sua natureza levar vantagem no coitadismo de uma pobreza, simulando uma decadência para atrair a piedade. Parece incomodado com a visita repentina dos filhos ao retratar o mal-estar, mas dá um tom de humor leve na busca da descontração. No segundo episódio, a mãe (Charlotte Rampling, sempre elegante e marcante em seus papéis) que mora em Dublin, na Irlanda, promove o encontro com as duas filhas (Cate Blanchett, dá vida na personagem reprimida, e Vicky Krieps, surpreende positivamente). O evento é uma tarde com chá, com uma certa formalidade naquele relacionamento distante e de segredos, principalmente da filha mais nova diante da austeridade e rigidez pelas normas da parte materna, mas sem hostilidades. A solidão se confunde com a frieza entre elas, depois de anos de isolamento advindos da pandemia. Já na terceiro e último capítulo, o cenário é um subúrbio de Paris, na França, onde o casal de irmãos gêmeos (Luka Sabatt e Indya Moore, com atuações magnéticas) precisa organizar e entregar o apartamento onde moraram quando crianças, agora vazio, alugado pelos pais, mortos em um acidente de avião no arquipélago de Açores em Portugal. Segredos vêm à tona, lembranças do passado surgem, enquanto fazem o levantamento de bens para o inventário, com situações novas e inesperadas emergindo. Os dois terão de tocar a vida em frente, agora órfãos, num clima de melancolia e cumplicidade, mas carinhosamente fraterno. O sentido da vida no futuro, as feridas pretéritas, são elementos na essência do existencialismo colocados em xeque. As reflexões da vida e a aproximação deles tornam o melhor episódio.

Há vitórias e derrotas da vida cotidiana, pelos detalhes da singeleza e de uma poesia mesclada com um cinismo latente para evidenciar a razão de continuar a se viver. A realização está bem alicerçado com sobriedade de tintas sombrias da razão e da emoção contida dos dias passados na escuridão do isolamento. Nem tudo é só pessimismo e só desesperança, pois há singularidades, não só pelas fantasias e sonhos contrapondo-se com o a ausência visceral, mas pelo contexto amargurado, mas com uma brecha para se continuar na busca da reaproximação. A rotina, tanto pela sobriedade ou pela maneira de burlar a verdade na forma de desconstrução. A naturalidade é o elemento básico e pontual nesta comédia dramática de cenas repetitivas propositalmente no transcurso do enredo de dois elementos em comum em todas as três partes: um relógio Rolex como símbolo da ostentação, embora haja o frágil argumento da falsificação, e a presença de skatistas em câmera lenta, como ingrediente metafórico da liberdade de andar e estar por todos os lados, sem as normas clássicas civilizatórias de uma sociedade repressora ao ser humano. Os laços familiares estão bem delineados e delicadamente sustentados no enredo. As nuances típicas familiares estão presentes nos relacionamentos inerentes com suas sutilezas nas relações estremecidas, embora os personagens usem máscaras para esconder as preocupações e as desconfianças. Eis uma obra realista, tensa e reveladora ao transformar os silêncios numa imensa solidão humana na tentativa da reconexão familiar nesta realização admirável e contagiante.

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