quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Enigma da Rosa



Vingança Perversa

O diretor, roteirista, produtor, fotógrafo e montador espanhol Josué Ramos faz sua estreia em longa-metragem com este polêmico O Enigma da Rosa. O cineasta rodou sua obra em dez dias com um custo ínfimo de quinze mil euros investido com recursos próprios, após desistir de esperar por ajuda financeira estatal e dos produtores que o abandonaram pouco antes das filmagens. A locação é modesta, foi realizada dentro de uma casa de dois andares, com um elenco aceitável de seis bons atores e atrizes, numa trama de um roteiro enxuto e surpreendente em algumas situações inesperadas. O filme transborda a linguagem do cinema e incursiona na teatral, tendo em vista o modesto espaço de locação para desenvolver uma história asfixiante. Embora não consiga atingir o clímax proposto da claustrofobia, diante das portas e janelas fechadas literalmente, na incessante busca para elucidar o rapto de uma criança que coloca em xeque uma família classe média pequeno-burguesa e sua sordidez escondida, irá revelar alguns traços de pouca humanidade, tais como a ganância pelo dinheiro, o moralismo falso entrelaçado com preconceito e a ocultação de uma violência latente.

O enredo é simples, mas com o desenrolar e a fluidez da macabra história, surgem revelações de segredos escabrosos guardados pelos membros daquele microcosmo familiar. A compra de uma arma no mercado negro no prólogo irá apontar o adquirente e a astúcia dele para o desfecho improvável. Tudo começa com uma cobrança severa da mãe, a advogada ambiciosa Julia (Elisabet Gelabert) com sua filha, Sara Castro (Patricia Olmedo), de 10 anos, ao tomar conhecimento das notas baixas no boletim da menina, que posteriormente não retorna da escola para sua residência, pois o pai, Oliver (Pedro Casablanc), esqueceu de buscá-la. Atônitos pelo fato incomum do misterioso desaparecimento sem deixar rastros, o casal e o filho mais velho, Alex (Zack Gómez), procuram a polícia para comunicar o ocorrido. Eles são aconselhados pelo inspetor para aguardar o contato da garota, o que só irá aumentar a tensão, o medo e a angústia. Após alguns dias de terror, desespero e dúvidas, em uma manhã, uma carta é enviada pelo criminoso (Ramiro Blas) que afirma ter sequestrado Sara e deseja falar com eles pessoalmente, sem que haja a interferência policial, sob pena de matá-la. Os diálogos no encontro programado irão construir a emblemática artimanha, por trazer inesperadas reviravoltas no roteiro, sem que haja o recurso de enfadonhos flashbacks, muito recorrentes em produções do gênero do suspense.

Distante de demonstrar sensibilidade, com falta total de sutilezas, e a ausência de um vigor estético inovador, Ramos cria um duro drama psicológico que flutua para o suspense até atingir o horror da perversa vingança aos membros daquela família de poucos valores éticos, embora não seja aceitável tamanha agressão física e psicológica com dentes extraídos e mutilações do corpo em realismo puro de forma exacerbada pelas cenas duradouras e explícitas, em algumas delas. O diretor segue os fundamentos de Maquiavel, em que os fins justificam os meios, diante das revelações das vítimas há uma malvadeza abissal sem concessões. Há a inversão da família vitimizada para acusada, na troca de papéis, através de um formato colérico e sem delicadezas. As transgressões não são sugeridas e vão em sentido contrário daquele espectador lúcido e de bom senso, contrasta e agride a construção de um panorama que surge aos poucos com a presença da verdade.

Ao invocar e se agarrar como uma tábua de salvação na Lei de Talião, o realizador extrapola a proposta cinematográfica da sensatez, para fazer valer o princípio da justiça na expressão "olho por olho, dente por dente" com uma retaliação cruel, dura e seca, na qual se exige que o agressor seja punido em igual medida do sofrimento que ele causou, um método básico dos tempos tribais, num jogo da verdade para elucidar fatos com tortura psicológica e um compulsivo sadismo a mancheias. É a desforra inimaginável em tempos ainda civilizados, embora haja seguidores e defensores destes métodos da barbárie já ultrapassados num momento quase que universal de intransigência e repúdio aos direitos humanos. Fatih Akin com O Bar Luva Dourada (2019) teve méritos e obteve mais empatia e vigor com uma narrativa violenta de esquartejamentos, sobre o cotidiano simples de pessoas sem destinos e ignoradas por serem excluídas da sociedade de consumo, num drama contundente para se aprofundar nas mazelas decorrentes das feridas abertas de uma sociedade ainda traumatizada pelos efeitos do nazismo. Michael Haneke com Violência Gratuita (1997) foi mais elegante no exercício incômodo e angustiante ao blefar com a cumplicidade da plateia em seu longa intenso.

O Enigma da Rosa não chega a envolver e nem perturbar o espectador no aspecto da temática. Excetuando algumas cenas de bom suspense, cria um clímax desproporcional, quase inverossímil, para a proposta de um crime hediondo, em que a pedofilia deveria ser mais discutida para uma boa reflexão, mas passa longe, bem ao contrário do notável Graças a Deus (2019), de François Ozon, que faz uma abordagem de forma imparcial. Ramos perde a oportunidade de lançar luzes para iluminar um tema tão abjeto como o doentio abuso sexual de crianças, bem como o subtema da hipocrisia nos segredos confessados que conduzem para uma casta ainda preconceituosa da homofobia, além das armações para levar vantagens financeiras sem escrúpulos e por artifícios condenáveis. Vítimas e criminosos invertem os papéis abruptamente, mas não convencem pela forma satânica do mecanismo truculento, embora as revelações bombásticas sejam o trampolim para um epílogo inusitado. Um filme de moralismo candente até atingir o ápice do clichê com um viés para sustentar conceitos autocráticos sobre os valores da justiça. Sobram tensões de intensidade com alta dosagem de exageros que poderão causar náuseas em pessoas de estômagos sensíveis. Prevalece a irracionalidade bestial neste pretenso painel sobre a vingança justificada, que jamais convence. As fragilidades humanas pela perda da dignidade e da piedade como elementos que afloram pelos métodos violentos dos impulsos doentios sem freios, também ficam distantes de uma análise aprofundada.

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